Entrevista

Michael Meyer. "As pessoas ganharam a revolução. Nós apanhámos a boleia"

por Gonçalo Venâncio, Publicado em 10 de Novembro de 2009   
Vinte anos após a queda do muro de Berlim, o ex-jornalista da "Newsweek" recorda a revolução. E o socialismo de Ceausescu
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Michael Meyer é hoje responsável pela comunicação do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon. Em 1989 acompanhou ao vivo os acontecimentos de Berlim como correspondente da "Newsweek" na Europa de Leste. Meyer acaba de lançar um livro com interpretações e memórias da época: The Year that Changed the World (Simon & Schuster, 2009).

Quando o muro de Berlim caiu, Michael era um observador privilegiado. Quem é que ganhou a Guerra Fria: o povo ou os estadistas?

Há dias estive à conversa com James Baker, o chief of staff do presidente Ronald Reagan, e falámos precisamente disso. Diria que oito em cada dez americanos têm uma resposta à sua pergunta: foi Ronald Reagan, foi a América a vencer a Guerra Fria. Quando encontrei Baker, tratei de lhe agradecer: "Obrigado a Ronald Reagan por ter ganho." Baker riu e, perante a minha insistência, retorquiu: "Não, claro que não foi Reagan nem a América. Foram as pessoas na Europa de Leste que ganharam a revolução. Nós só apanhámos a boleia de um comboio que já ia em andamento." E é a verdade.

No seu livro sublinha o papel central do povo na Europa de Leste. Que papel foi esse?

No mundo ficaram guardadas as imagens que são passadas na televisão por estes dias: as de pessoas a dançar no topo do muro. Se dermos um passo atrás, conseguimos lembrar-nos de centenas de milhar a marchar nas ruas de Berlim e Leipzig, em Outubro. O importante é perceber as razões que levaram estas pessoas à rua. E isso tem que ver com os acontecimentos na Polónia - a vitória do Solidariedade nas eleições parlamentares - e na Hungria, dois eventos que precipitaram a queda do comunismo. Houve expressões muito diferentes em vários países mas todas contribuíram para a formação de uma força irresistível que culminou com a queda do Muro.

Poderíamos ver o muro cair na ausência dos movimentos reformistas? ?

Não, de todo. Tudo começou quando Mikhail Gorbatchev abriu o espaço para a experiência sem fazer ideia do que estava para vir...

Ninguém poderia antecipar o fim deste movimento tão espontâneo...

Bem... Um passo diferente em todo o processo e a história poderia ter descarrilado. Talvez o regime de Leste tivesse desaparecido com o tempo, mas de forma muito diferente. Sabemos que a RDA planeava permitir as viagens dos alemães de Leste. Estes não marchavam tanto pela Liberdade mas pela liberdade de ter um passaporte, de visitar a Alemanha Ocidental. Havia planos que permitiriam o movimento de pessoas entre os dois lados de Berlim. Isto discutia-se no dia 7 de Novembro e não era uma fórmula para a revolução: era uma fórmula para a evolução. Tudo isto foi precipitado no dia 9: nesse dia, o porta-voz do partido leu, em directo para todo o país, um press release que só era suposto ser conhecido no dia 10 de Novembro e que dizia que estas novas medidas tinham efeito imediato. Na consequência de uma "falha humana", os alemães de Leste correram para o muro e a história foi o que se sabe. Agora, imagine que o muro não tinha caído, mas que tinha sido aberto de acordo como planeado? É fácil imaginar os alemães, ordeiros, numa fila à espera do carimbo no passaporte.

Foi o último jornalista ocidental a falar com o ditador romeno Nicolae Ceausescu antes do seu assassinato. Como recorda esses momentos?

Éramos um grupo de três pessoas e encontrámos Ceausescu no Verão de 1988. Conduzimos até à sua residência de Verão, na vila romena de Snagov, e ele passou três horas a impingir-nos as glórias do socialismo. Até que lhe perguntámos: Porque não há comida nas lojas? Ele respondeu: "É porque está toda em frigoríficos nas traseiras. Não há falta de comida, vivemos no paraíso dos trabalhadores." Logo a seguir, tentámos perceber o que pensava da atitude chinesa na Praça de Tiananmen. "É exactamente a maneira como o nosso governo deveria responder, porque o dever do Estado é manter a ordem social." Ceausescu era um homem pequeno e sofria de epilepsia, se não estou enganado. De tempos a tempos, ficava imóvel como um boneco, incapaz de dizer o que quer que fosse. E, de repente, começava a cuspir palavras. Literalmente. Lembro-me disto porque lhe perguntei se alguma vez lhe tinha passado pela cabeça a ideia do povo romeno se revoltar contra ele. Foi nesse momento que surgiu essa sua imagem alarmante. Nos olhos dele percebemos bem a mensagem: "Se não fossem protegidos pela Newsweek, matava-vos." Cinco meses depois, quando apareceu o retrato de Ceausescu morto, vi os mesmos grandes olhos azuis e o mesmo olhar fulminante.

A ordem internacional é hoje muito diferente: o mundo é mais ou menos perigoso do que em 1989?

Acho que é muito menos perigoso. Em 1989 tínhamos dois grandes blocos mobilizados para a destruição nuclear e milhões de pessoas tinham morrido em guerras proxy. Já não vivemos nesse mundo de medo, é passado. Mas algo tão grande como a Guerra Fria não desaparece simplesmente. Preocupa-me a maneira como os americanos interpretaram o drama da vitória e que pode ser resumida numa frase: Ganhámos! Esse sentimento de triunfalismo guiou-nos para a ideia de império americano, de um mundo unipolar, e há quem diga que há uma relação directa entre esse mito e a intervenção no Iraque. Isso é perigoso porque, se há coisa que descobrimos, é que mesmo sem existência física há os muros da mente. Por último, diria que as pessoas demoraram 20 anos a ajustar-se à realidade do mundo pós 1989. A política externa americana não foi capaz de acompanhar o ritmo das grandes mudanças. Basta perceber as dificuldades para alcançar um acordo em Copenhaga dentro de três semanas. Este é o tipo de desafio da era pós Guerra Fria.

Voltando ao livro, sublinha o mito ocidental que glorifica o triunfalismo americano. É mesmo um mito ou o objectivo foi dar alguma dose de realismo às mentes neoconservadoras?

A verdade é que nós partilhamos um mito sobre a nossa vitória na Guerra Fria que pode ser resumida numa frase de Ronald Reagan: "The world will know a free man stood against a tyrant." Olhando para a História, percebemos que há uma relação causa efeito muito mais lata: o papel do povo, o papel do indivíduo e o papel do acidente. Não há uma só explicação, e isto dá-nos uma lição muito clara sobre os limites do poder. Já muitos escreveram sobre os riscos de manipular a história. Quando se manipula a História, tornando-a num mito que serve os nossos interesses, ela volta para ajustar contas.


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