Aos 77 anos, o lendário estilista francês Emanuel Ungaro sente que já fez que chegasse no mundo da moda e dedica-se a cem por cento a outras paixões, como a Ópera, onde continua a fazer aquilo que sabe: costurar.
Em entrevista à Lusa, Ungaro, que está em Portugal para participar no Estoril Film Festival, recordou os tempos em que a Alta Costura era uma realidade e em que ainda não tinha vendido a marca que criou, juntamente com a alma e o coração.
Para Ungaro, tal como o 'Cinema de Hollywood', quando as actrizes eram divas, também a Alta Costura teve um tempo. "A Alta Costura é um mundo antigo. Quem trabalha com Alta Costura hoje? Eu tive a sorte de conhecer a verdadeira Alta Costura", afirmou.
Ungaro recordou que foi aluno de Cristobal Balenciaga, "que era o mestre da Alta Costura".
"Ele tinha muito rigor, disciplina, modéstia. Não era como uma estrela de cinema. Nunca ninguém lhe tirou um retrato. Ele nunca aparecia na passerelle no final do desfile. Nada. Isso era pureza. Isso era novidade, elegância, ética, moral profissional. Foi o que recebi dele de mais importante. Hoje é outra história. Sem comentários", disse.
Para o estilista, a moda hoje é a ditada pelos grupos que a democratizaram, ainda mais do que quando foi criado o conceito de "prêt-a-porter". "A democratização na moda é normal. Hoje há grupos como a Zara, a Mango, a H&M. Isso é moda. Totalmente", afirmou.
Se o convidassem para desenhar uma colecção para a H&M, à semelhança do que aconteceu com Karl Lagerfeld, Ungaro responderia "não".
"Já fiz que chegasse. Prefiro passar o tempo com a Ópera, com o Cinema. Com outra coisa que não a moda. A moda ao nível a que cheguei é muito cruel"
"Eu era responsável, financeiramente pela minha marca, não havia um cêntimo que não fosse lá colocado por mim. Éramos 120 a trabalhar. Tínhamos obrigação de sermos bem sucedidos, caso contrário era o fim. Era por isso que trabalhávamos como doidos. Eu não tinha férias. Não sabia o que isso era. Não conhecia sábados, domingos", recordou.
Apesar disso, Ungaro referiu que "tinha imenso prazer a trabalhar".
"Estou completamente fora do mundo da moda. Eu, como Yves Saint Laurent, Givenchy e Balenciaga, quando vendemos as marcas vendemos a nossa alma também. O nosso coração. Tudo. E não podemos fazer mais nada pela marca", disse.
Ungaro, que começou a coser com 12 anos e aos 15 começou a trabalhar com o pai, alfaiate de profissão, decidiu dizer "basta" à moda.
Apesar disso, continua a dedicar-se ao que sabe fazer, costurar.
Aos 77 anos está embrenhado na preparação dos figurinos de uma ópera de Mozart que será levada a cena pelo teatro San Carlo de Nápoles, Itália.
"É tão fascinante viver com as pessoas no teatro. É uma família. Fantástico. É como era no meu estúdio. Encontrei uma nova família na ópera. Mas diferente, porque na casa eu era o patrão e ali sou parte da equipa. Faço o que sei fazer: roupas. Moda, beleza, cores, tecidos, texturas, modelagem, ideias. É fantástico. Nunca páro", contou.
Emanuel Ungaro dá hoje uma Master Class sobre o tema "Quem dita a Moda: As Revistas ou os Criadores", a propósito da estreia em Portugal do documentário "The September Issue", de R.J.Cutler, sobre a preparação da edição de Setembro de 2007 da revista Vogue norte-americana.




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