entrevista
António Martins da Cruz: "Armando Vara merece-me a maior consideração"
Publicado em 09 de Novembro de 2009
Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros de Durão Barroso, Martins da Cruz critica Manuela Ferreira Leite e apoia Pedro Passos Coelho
António Martins da Cruz foi assessor diplomático de Cavaco Silva e ministro dos Negócios Estrangeiros do governo de Durão Barroso - demitiu-se em 2003 devido à polémica que envolveu a entrada da filha na universidade. Militante social-democrata, é consultor de várias empresas e professor de mestrado em Relações Internacionais na Universidade Lusíada. Em entrevista ao i, lança duras críticas à actual liderança do PSD e diz considerar Armando Vara um bom profissional.
Desapareceu um pouco da vida pública nos últimos anos. Foi propositado?
Estou afastado da vida política activa. Fui durante sete ou oito meses presidente da comissão de relações internacionais do PSD, quando Luís Filipe Menezes era presidente. Nessa altura aparecia mais, mas nem era bem a fazer comentário, era mais a expor as posições do partido em política externa.
Tem saudades do passado diplomático?
Não, há um tempo para tudo na vida. Gostei muito das funções que desempenhei em vários países, mas devo dizer-lhe que já estava um bocadinho farto de andar a mudar de país e de casa.
Classifica como positiva a experiência no governo?
Claro que sim. Apesar das 13 e 14 horas de trabalho diário, ter a possibilidade de defender as posições internacionais, representar o Estado português a esse nível e contribuir para a definição de posições europeias nas grandes questões internacionais foi um trabalho gratificante.
Guarda ressentimento da forma como saiu de ministro?
Não.
Hoje teria feito na mesmo?
Senti que estava a causar um problema político ao primeiro-ministro e apresentei a minha demissão.
No governo, ficou famoso por acabar com a diplomacia do croquete...
É verdade, mas não fui eu que disse essa frase. Continuo a defender a diplomacia económica, mas nunca falei de uma diplomacia do croquete.
Estamos ainda agarrados a formas arcaicas de diplomacia?
Acho que houve alguma evolução, mas ainda não a necessária e eficiente. Mas, pelo menos, hoje em dia, a diplomacia económica já faz parte dos programas dos grandes partidos políticos em Portugal. Quando entrei para o Ministério dos Negócios Estrangeiros em 1972, o sector económico era, na altura, tratado como a mercearia. Este governo, é preciso dizê-lo, praticou ao mais elevado nível diplomacia económica, com a Venezuela, com Angola, com a Líbia. E, a meu ver, fê-lo bem.
A governação deste executivo vai ser mais complicada?
A governação nunca é fácil, principalmente sem apoio de uma maioria no Parlamento. Seria desejável, atendendo à situação económica e social do país, que este governo fosse capaz de cumprir uma legislatura completa. Espero que seja capaz de levar a cabo o programa do governo. Portugal precisa de estabilidade. No entanto, a verdade é que o governo já está a culpar a oposição caso o governo caia. Se cair é por culpa própria e não dos outros.
Esse discurso põe o PSD numa posição difícil, para evitar que se repita o que se passou com a minoria de Cavaco Silva, que se transformou em maioria absoluta?
A história nunca se repete. Quanto ao PSD, está num remoinho. E isso é sempre mau. Quanto mais cedo se clarificar a situação, melhor.
Já começa a ser um problema recorrente no PSD...
No outro dia Miguel Relvas dizia que o problema do PSD não é de facções, é de gerações. Há uma geração que já deu o que tinha a dar e o PSD tem de se renovar, como o PS o soube fazer. Talvez uma parte desses não renovados queira manter a situação, apelando a um eterno candidato, num filme que parece uma reprise.
Está a falar de Marcelo de Sousa?
Estava a pensar nele, sim. Ele tem sido muito prudente. Tão prudentes já não têm sido aqueles que diziam há 15 dias que o melhor era não falar em sucessão e deixar passar o programa e o orçamento - e agora andam à lufa-lufa a tentar empurrá-lo.
Assustaram-se com a tomada de iniciativa de Pedro Passos Coelho?
Porventura. Eu revejo-me mais na chamada corrente renovadora. Passos Coelho, que eu apoiei na última campanha interna, é claramente candidato. O outro lado não tem candidato. Tenta empurrar um, mas em vez de ser uma corrida parece mais um tapete de ginásio.
Por que razão Marcelo está a ser empurrado e não é ele próprio a avançar?
O que nós vemos é que todos os dias há apelos para que ele avance e, todos os dias, por razões que ele lá saberá, recua. Poderá ser porque tem outras eleições em vista ou porque não estão reunidas as condições, quando contou ou mandou contar espingardas. O candidato que representa a nova geração, Passos Coelho, deve ser escolhido como o novo presidente do PSD.
A cisão no PSD não é também ideológica?
Qual ideologia? Eu nunca lá vi nenhuma. O PSD não é um partido ideológico, ao contrário do PS.
Mas um PS mais à direita não rouba espaço eleitoral ao PSD?
Nesta legislatura houve alguns actos que agradaram mais aos meios de direita, mas nas chamadas questões fracturantes não agradaram certamente. Tirando três ou quatro questões, os dois partidos com vocação de governo em Portugal, quando lá estão, aproximam-se muito na prática.
É favorável à construção do TGV?
Sim, apesar de não me agradar a contribuição que dá para a centralidade de Madrid na Península Ibérica. E acho que houve alguma infelicidade nas posições do PSD durante a campanha eleitoral.
Quando foi eleito, Luís Filipe Menezes, foi atacado todas as semanas. Teme que isso possa acontecer com Pedro Passos Coelho, caso seja eleito?
Se o candidato que defendem não for eleito, alguns bem pensantes do PSD porão o candidato eleito sob fogo. Não sei porque é que lhes chamam os barões. Nunca percebi o que eram esses baronatos. Prefiro chamar-lhes mandarinatos.
Acha que esta direcção devia terminar o mandato?
Quer a minha opinião sincera? A líder do PSD devia ter pedido a demissão na noite das eleições. Perdeu, perdeu. Em Portugal não se suporta a derrota na prática política. Perde as eleições e demite-se no minuto a seguir. Acabou-se.
Qual é a influência de uma figura como Pacheco Pereira neste PSD?
Pacheco Pereira tem manifestamente um ego muito importante. Agora se tem influência, não faço ideia nenhuma.
Se Pedro Passos Coelho o chamasse, consideraria regressar à política activa?
Há muitas maneiras de dar conselhos, sem estar integrado numa estrutura. É preciso dar lugar aos novos.
Esta derrota teve a ver com falta de sangue novo?
Bom, as caras eram as mesmas. Não se esqueça que o Passos Coelho perdeu as eleições internas no PSD por menos de 2%. Não vi isso reflectido no grupo parlamentar. É pena.
Se quiser concorrer, a vitória de Marcelo Rebelo de Sousa é certa?
Não concordo nada. Hoje em dia já não há mandarinatos nas distritais do PSD. Eles não querem empurrá-lo para uma maratona, mas sim para um tapete de ginásio. Não sei se é um dito popular brasileiro: "Quem começa um caminho pelo fim, perde o aplauso da glória da chegada." Os caminhos na política nunca se começam pelo fim.
Trabalhou com ele e é amigo próximo de Fernando Lima. Como viu toda a polémica das escutas em Belém?
Dado tratarem-se de duas pessoas com quem trabalhei e por quem tenho o maior apreço e consideração, não me pronuncio. Fernando Lima é meu amigo. Ponto. Amigos nós não temos muitos na vida.
Acha que o Presidente da República está numa posição mais fragilizada?
Não sei porquê. Acho que o discurso dele na tomada de posse mostrou que o Presidente é um referencial de estabilidade em Portugal.
Mas a taxa de aprovação está a mais baixa de sempre...
Quem respondeu a esse inquérito não partilha da minha opinião.
Houve alguma responsabilidade indirecta do Presidente no resultado do PSD?
Não creio. O PSD foi incapaz de ir buscar votos à direita e à esquerda. Não queiram responsabilizar o Presidente pelo não sucesso da actual direcção do PSD nas eleições.
Mas tem condições para ser reeleito?
De 1976 para cá, todos os presidentes foram reeleitos. A não ser que Cavaco Silva decida não se candidatar, não vejo razão nenhuma para não ser reeleito. Tem sido um bom Presidente .
Falando de outro chefe de governo com quem trabalhou, como classifica o mandato europeu de Durão Barroso?
Foi tão bom que 27 chefes de Estado o resolveram reeleger. Isso é bom para ele e como sou amigo dele fico muito contente, mas é sobretudo bom para Portugal. Quando vou ao Cairo ou à Indonésia as pessoas falam-me do Cristiano Ronaldo, mas os políticos e os empresários falam de Durão Barroso. Quanto não valerá ter um português que é conhecido pelos presidentes das 500 maiores empresas do mundo?
Ficou satisfeito com a ratificação do Tratado de Lisboa?
Todos os portugueses devem estar orgulhosos por ter um tratado importante na Europa com o nome de Lisboa, mas não é um tratado entusiasmante. Daqui a um ano, haverá um presidente da Europa, um presidente da Comissão, um presidente de turno e um alto representante. Como é que estes quatro personagens vão conviver? Quem vai ao G20? Quando precisamos de alguma coisa, falamos com quem? Não vai ser fácil.
Blair é um nome afastado?
Acho que se vai desenhar um consenso em que o presidente virá de um pequeno país e não de um grande. Mais do que ser Blair, é o facto de ser inglês. Por outro lado, não me surpreenderia que o alto representante para a política exterior viesse de um grande país.
Está a pensar em David Miliband?
Se Miliband for o escolhido para alto representante, isso vai retirar argumentos contra a Europa a Cameron, caso seja eleito.
Como tem visto o caso Face Oculta, que envolveu Armando Vara?
Conheço Armando Vara e tenho-o em boa consideração. Acho que é um bom profissional. Foi um bom administrador da CGD e está a ser um bom administrador do Millennium BCP. Armando Vara merece-me a maior consideração e não tenho razão nenhuma para crer que ele não tenha respeitado a ética nos lugares onde esteve, públicos ou privados.
Acompanhou a polémica em torno do novo livro de José Saramago?
Sim, esse escritor espanhol que nasceu em Portugal. Não li este livro de Saramago, nem tenho intenções de o ler. Sempre que olho para uma fotografia de Saramago, é muito difícil esquecer os saneamentos que ele fez quando foi director do "Diário de Notícias" em 1975, ao abrigo de uma doutrina estalinista. E também não me esqueço das opiniões que ele costuma emitir sobre o seu desejo de Portugal se integrar em Espanha.
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