Entrevista

Juliette Binoche: "Os 40 anos são muito difíceis"- vídeo

por Joana Stichini Vilela, Publicado em 07 de Novembro de 2009   
Segue sempre a intuição, provoca os realizadores e não resiste a dar dicas aos fotógrafos. A actriz está no Estoril
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Juliette Binoche, 45 anos, 43 filmes e um Óscar, no Hotel Cascais Miragem.
O céu está encoberto em Cascais, mas a actriz Juliette Binoche, 45 anos, não se importa. Minutos depois, numa suite em frente ao mar, dirá que é uma atitude face à vida: "Podemos acordar todas as manhãs preparados para aproveitar o que nos é dado ou queixarmo-nos porque não é o que esperávamos." Radiante, de jeans e sapatos de salto vertiginoso, vai dando sugestões técnicas à fotógrafa do i. "Não quer fechar a janela? E aquela cortina? Desculpe intrometer-me. São os pormenores..."

Aos 45 anos ainda é considerada uma das mulheres mais bonitas do mundo. Em 2008 estreou-se na dança com o respeitado coreógrafo Akram Khan. Voltou também a ser o rosto da marca de perfumes Lancome. No ano anterior posou nua para a "Playboy". Veio ao Estoril Film Festival apresentar o documentário que a irmã fez sobre ela e a exposição de retratos dos realizadores com quem trabalhou e das personagens que interpretou, "Portraits In-Eyes".

O público pensa que um actor desempenha um papel e depois se esquece dele. As suas personagens ficam consigo muito tempo?
Elas ficam sempre comigo, embora pareça que é um sonho. Vive-se uma coisa tão intensa, mas não se pode tocar-lhe, minutos depois já está num sítio qualquer na memória... Estes retratos servem para visitar algumas emoções, estar em contacto com outras realidades. O que sai no momento também é uma surpresa para mim. Não é premeditado.

Acompanha os quadros com poemas para os realizadores. São de admiração?
Não. Se lhe pudesse ler as palavras, perceberia que em quase todos há um lado negro. Nunca é mau ou vingativo, mas digo o que sinto em relação a eles.

É difícil a relação com um realizador?
Não se pode generalizar. Tem tudo a ver com adaptação. É como o clima. Podemos acordar todas as manhãs preparados para aproveitar o que nos é dado ou queixarmo-nos porque não é o que esperávamos. Depende de como se encara a vida e de como se quer viver a vida.

Eles viram os retratos?
Alguns sim.

Como reagiram?
Fui um pouco provocadora com as palavras. Uns não disseram nada. Outros escreveram-me cartas. A mais bonita veio do Peter Kosminsky ["O Monte dos Vendavais", 1992], com quem achei que foi difícil trabalhar. É isso que digo no poema. E ele escreveu-me uma carta linda, como se restabelecesse uma relação. É o primeiro passo para a reconciliação.

Receia que as pessoas gostem dos retratos só porque são seus?
Estou a habituada a expor-me. Não espero nada de volta. Para mim foi uma forma de devolver alguma coisa aos filmes. Da mesma forma que os realizadores me apontam uma câmara eu aponto-lhe um pincel. É muito íntimo. É sobre eles e a minha relação com eles. Aquilo que o público pensa... Eu não sou pintora. Podem não gostar deles. Por mim, está óptimo.

No documentário realizado pela sua irmã, Marion Stalens, aparece sem maquilhagem, despenteada, a lavar a salada, e depois glamorosa num festival de cinema. Como se conjuga tudo isto?
Quer um fruto esteja na árvore, quer esteja numa tigela na mesa, quer esteja no chão, é sempre um fruto. Não interessa onde estou. Sou sempre eu. Sinto-me confortável em qualquer lugar.

Lava mesmo a sua salada?
Sim...

As pessoas pensam em si como uma estrela que não faz essas coisas.
Às vezes tenho tempo, outras não tenho. Nem penso nessas coisas. Tenho dois filhos. Há sempre tantas coisas para fazer. Sempre.

No documentário, no dia em que assina o contrato com o Akram Kahn, diz que tem de se dar de corpo e alma...
Para estar a envolver-me nesta aventura louca de ensaiar e andar em digressão durante sete meses em 12 países - que é difícil porque tenho uma família, dois filhos e isto exige muita energia - teria de dar a minha alma. Não há fuga.

Valeu a pena?
Acho que sim. Gostava que tivesse envolvido menos sofrimento. Ao mesmo tempo aprende-se.

Sofrimento físico?
E emocional. Quando se trabalha de tão perto e se co-cria... Tem a ver com compromisso, tentarmos entender-nos sendo de diferentes culturas e religiões. Ao mesmo tempo tínhamos sensibilidades próximas.

Porque é que o fez?
Porque nos envolvemos nas coisas? Porque dizemos 'sim'? Não tenho resposta.

Age por impulso?
Para mim tem tudo a ver com intuição. Sinto que está certo. Estou a dizer que sim à aventura, sem saber porquê.

Foi essa intuição que a levou a expôr-se tanto no documentário?
Uso-me como ferramenta de exploração, mas não sou eu. Escolhi ser actriz porque estava sedenta de me questionar. É como encarnar a filosofia. Porque estamos aqui? Porque acredito nas minhas emoções? Sinto que sou eu e uma semana depois mudou. Quem sou eu se estou sempre a mudar? São perguntas fundamentais.

Nos últimos anos dançou, voltou à Lancome, apareceu na "Playboy". Um vez disse que as francesas florescem quando chegam aos 40...
Devia ter 22 anos quando disse isso! Porque os 40 são muito difíceis. Esquecemo-nos de dizer isso.

Fez todas estas coisas para se provar que ainda era capaz?
Se for esse o caso, então eu tenho 40 anos desde miúda. Essas coisas estão para lá da idade. Tem a ver com a energia e a excitação de fazer qualquer coisa nova, não com "não posso fazer isso porque não é suposto". Se for assim não se consegue voar. Mas se formos com o coração, com a imaginação, tudo é possível.


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