O professor Gouveia de Carvalho, de 65 anos, começou a aula de informática semanal com um sermão. "Alguém carregou no botão de ligar com demasiada força e estragou o computador", diz perante uma plateia de pouco mais que uma dezena de alunos entre os 60 e os 90 anos. Numa sala da Universidade Internacional para a Terceira Idade, no Chiado, ouve-se o barulho de violinos de outra aula no andar de baixo. "Sempre que tiverem alguma dúvida chamem-me para não haver problemas", aconselha o professor que era funcionário da Alfândega de Lisboa e reformou-se há pouco tempo.
Isabel Capela, de 90 anos, é a aluna mais velha da turma. "Vim para aqui porque não queria ser analfabeta. Oiço os meus netos falarem de computadores e queria saber mexer neles", diz enquanto escreve num documento Word. "Cheguei a ter dois em casa, mas tenho receio de estragar ou apagar qualquer coisa dos meus filhos", confessa. As turmas de informática da universidade sénior estão cheias e cursos deste género multiplicam-se. As avozinhas estão cada vez mais tecnológicas e estudos do consórcio World Wide Web (W3C) revelam que os idosos são o grupo demográfico que mais rápido cresce na internet. Será o computador o tricôt do século XXI? Parece que sim.
AVÓ EUNICE
Eunice Cavaco tem 60 anos, sete netos e 200 amigos no Facebook. Há quatro anos criou o "blogue da avozinha" e desde então não passa sem lá escrever qualquer coisa, ou pôr fotografias das suas gatas Migas e Sericaia no Flickr, que transfere da máquina digital para o portátil. "Nos posts falo dos meus três grandes mundos: o de avó, o do ensino (porque sou professora) e o da igreja (porque sou evangélica)."
Daqui a um ano e meio pensa reformar-se, mas não tem medo de ficar sozinha. "A internet é uma grande ajuda", diz, "falo com os meus filhos e amigos no Messenger e às vezes uso a webcam para ver os meus netos". Os filhos ensinaram-na a mexer no computador e na escola também fez algumas formações. "Uma aluna minha está grávida e mando-lhe testes e trabalhos por email", conta. Em casa tem mais um computador na secretária onde se habituou ao mesmo ritual: "Ver mails, os comentários do Facebook e um número de blogs diários." Eunice paga as contas do gás, da água e da luz através do seu portátil.
AVÓ INÊS
Os 17 netos de Inês Marques, de 81 anos, têm a sorte de receber no Natal e no aniversário um presente na sua conta bancária. "Tenho o NIB de todos eles e costumo fazer uma transferência através do NetBanco como prenda", conta Inês. Sentada à secretária em frente ao seu Macintosh (mesmo ao lado do computador do neto Luís, de 24 anos), Inês paga as contas da casa, joga Tetris e Mahjong e grava CD. "Tenho música no computador que nunca mais acaba", diz. "Também gosto ir ao YouTube, estão lá as músicas mais recentes. Ainda no outro dia estive a ouvir as últimas do Rodrigo Leão."
Além de ler notícias, Inês usa o Google para esclarecer dúvidas. "Há dias estava a fazer uma mousse e fui lá procurar uma receita melhor", conta. "Mas optei pela minha... É boa, não é?", pergunta ao neto sentado no sofá. "Tenho um professor em casa", diz referindo-se a Luís.
Mas antes de viver com o neto, já sabia mexer no computador, nos tempos em que trabalhava como chefe de compras no aldeamento Pedras d'El Rei, em Tavira. "O meu administrador ficou admirado porque tive grande facilidade em aprender." Trabalhou até aos 72 anos e depois foi viver para Cascais. "Passava os dias em casa sem fazer nada e resolvi comprar um portátil." Agora já o trocou por um Mac, "porque era melhor".
AVÓ OLÍVIA
Olívia Garcia, de 76 anos, já teve três computadores. Os netos iam para sua casa quando saíam da escola e foi com eles que deu os primeiros passos informáticos, "até terem namorada e carro". Ligaram-na ao Messenger e ensinaram-na a ver o email, rituais que cumpre todos os dias antes de ir para o ginásio e nos intervalos dos passeios com o cão Migalha, um simpático Basset Hound. Costuma trocar mensagens com amigos em França, no Brasil e em Espanha e todos os dias lê as notícias. "Estive a ler alguns comentários de notícias e é incrível como as pessoas dão tantos erros." Olívia não dá erros e já aprendeu a fazer abreviaturas de expressões como "por favor" ou "bom fim-de-semana".
"Às vezes tenho medo de escangalhar ou instalar alguma coisa no computador", confessa. "Gostava de ter nascido uns anos mais cedo para aprender mais, mas já não tenho espaço no meu disco", brinca. "Também passei muito tempo no Mirc [um chat]", continua. "Procurava pessoas de Castelo Branco [a terra da mãe] e quando me perguntavam a idade nunca costumava dizer." Um dia, um rapaz insistiu tanto que Olívia cedeu. "Ele não acreditou. Respondeu-me que se tivesse aquela idade nem seria capaz de ligar o computador", ri-se.




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