Auto-estima

por Inês Teotónio Pereira, Publicado em 07 de Novembro de 2009   

Nunca tinha pronunciado a palavra "auto-estima" até ter filhos. Mas desde então tem sido um vê se te avias. Trabalhar a auto-estima, melhorar a auto-estima, criar auto-estima, são imperativos de crescimento que parecem ter vindo substituir, por exemplo, o óleo de fígado de bacalhau. E é uma coisa recente: o meu corrector só há relativamente pouco tempo deixou de marcar erro quando eu escrevo "auto-es- tima".
As regras de educação, de ensino ou de crescimento estão todas empoleiradas neste novo conceito, sejam elas castigos, sejam incentivos, brincadeiras, avaliações ou desportos. Qualquer pessoa ou coisa que ameace a auto-estima de uma criança ou possa fragilizá-la é louca ou maléfica. Não há dúvidas.

Pois eu gosto imenso deste exagero, deste novo conceito, desta versão infantil palmoliviana, "se você não gosta de si quem gostará?"

 

Acho importante que todas as crianças gostem delas próprias, tenham uma ideia exagerada de si próprias, de preferência. Sejam convencidas, mesmo. E mimadas, se possível. Tenham a certeza absoluta de que conseguem fazer ou ser o que quiserem e sejam imunes a críticas infantis dos adultos.
Sou mesmo a favor de auto- -estimas do tamanho de porta- -aviões - de porta-aviões estimas, de auto-estimas que se estimam muito bem sozinhas. Automaticamente, portanto. E porquê? Porque a auto-estima é conquistada por cada criança à custa dos seus sucessos e fracassos e com a ajuda e a atenção de quem a rodeia; não se compra no Toys R'Us. Porque uma boa auto-estima é, antes de tudo, resultado de muito trabalhinho.

Jornalista



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