Esquerda e direita reagiram de forma muito diferente à crise económica de 2008-2009. Em Portugal, a esquerda, sobretudo o PS, demorou a reagir, mas depois fê--lo resolutamente. Aquilo que propôs desde logo - combate "agressivo" ao abaixamento da actividade económica, investimento público, grandes obras, enfim, activismo do Estado - volta a propor agora no programa do novo governo. A direita, por seu turno, apercebeu-se da crise mais cedo, mas nunca foi capaz de apresentar soluções alternativas e credíveis. Por isso perdeu as eleições e está de novo na oposição.
Mas depois compreendeu a raiz dos problemas porque está habituada a criticar o mercado e os seus ajustamentos "naturais". Por isso soube reagir com os instrumentos do Estado no combate às falhas do mercado.
Todo o discurso da direita, até há bem pouco tempo, visava repensar - isto é, reduzir - as funções do Estado. Por isso ela não foi capaz de compreender que agora era necessário fazer exactamente o contrário.
A resposta da direita portuguesa à crise, ou a falta de uma resposta consistente, deu lugar à crise da própria direita, especialmente do PSD. Os seus responsáveis e intelectuais nada viram e nada compreenderam. Alguns decidiram que a "culpa" da crise podia ser encontrada nos comportamentos desviantes de alguns banqueiros. Nada viram quanto aos elementos estruturais da crise e, portanto, nada compreenderam. Outros, também à direita, preferiram refugiar-se em teorias conspirativas, importando a tese dos conservadores americanos segundo a qual a raiz da crise foi o próprio intervencionismo estatal (no crédito à habitação). Mas esta e outras teorias conspirativas nada mostram e nada permitem compreender.
Seguem-se algumas coisas em que os nossos pensadores de direita deveriam reflectir, para além de re-repensarem as funções do Estado. Em primeiro lugar, a relação entre as virtudes cívicas e a economia de mercado. Ao que parece, as estruturas do mercado desregulamentado estão muitas vezes associadas à promoção do vício social em larga escala, mais que da virtude. Em segundo lugar, a importância de defender determinados valores contra o mercado. À cabeça desses valores está a universalidade do Sistema Nacional de Saúde, tão importante para quem está em pior situação, mas também a relevância dos sistemas de protecção social. Em terceiro lugar, a centralidade de certas coisas que o dinheiro não devia poder comprar e que não deviam estar sujeitas ao mercado: o ambiente, a paisagem, o ordenamento urbanístico, o património.
Professor universitário de Teoria Política




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