Face Oculta

Armando Vara foi obrigado a suspender mandato no BCP

Publicado em 04 de Novembro de 2009   
De manhã, Santos Ferreira explicou ao país que o banco estava a ser prejudicado. À tarde, Vara suspendeu funções
Durante dois anos, o BCP andou em guerra interna. Até aparecer uma solução de consenso. E a estabilidade com Santos Ferreira e Armando Vara
A operação "Face Oculta" fez ontem a primeira vítima política: quatro dias depois de ter sido constituído arguido no processo, Armando Vara suspendeu as funções de vice-presidente do BCP. Horas antes, Carlos Santos Ferreira tinha desmentido ter renovado a confiança em Armando Vara depois da constituição de arguido, forçando publicamente a demissão do homem que levou da Caixa Geral de Depósitos para o banco privado.

Santos Ferreira deixou cair o seu número dois, em directo e ao vivo para todo o país. Em declarações à comunicação social à saída de uma conferência em Lisboa, o presidente do BCP afirmou que a permanência do seu número 2 no banco era "uma questão de idoneidade e de oportunidade" e a quem competia "fazer o juízo era ao dr. Armando Vara e ao Banco de Portugal".

Santos Ferreira declarou alto e bom som que o envolvimento de Vara no processo das sucatas prejudicava a imagem do BCP. "As notícias que têm havido sobre esta matéria não são boas para a imagem do banco", disse. Quando foi interrogado sobre se já tinha explicado ao próprio o problema que constituia para a imagem do banco, o presidente do BCP respondeu: "É tão evidente que não é necessário dizer isto a ninguém".

Vítor Constâncio saudou a demissão de Armando Vara como "um bom exemplo". "O sector precisa de bons exemplos", disse o governador do Banco de Portugal, para quem "esta é uma boa notícia para a credibilidade do sistema financeiro nacional". E, por ter sido desencadeada pelo próprio, o acto de demissão "é positivo para a imagem e recuperação do sistema".

Armando Vara confirmou na quinta-feira passada ter sido constituído arguido na operação "Face Oculta". Em comunicado aos trabalhadores do Banco, o ainda vice-presidente declarou a sua inocência: "Afirmo que estou inocente, pelo que aguardo com o maior interesse as provas que as autoridades venham a exibir relativas ao meu envolvimento no processo, o que por certo será efectuado em sede própria e não através da comunicação social", escreveu Armando Vara, que será ouvido pela justiça na próxima terça-feira, dia 9.

O ex-número dois do BCP é suspeito de fazer parte da "rede tentacular" de tráfico de influências em favor do empresário Manuel Godinho, o único dos arguidos que se encontra preso. Como escreveu o Ministério Público, é suspeito de "a troco de vantagens patrimoniais, favorecer ou exercer a sua influência, real ou suposta, junto de titulares de cargos governativos e/ou políticos".

Segundo a investigação da Polícia Judiciária de Aveiro, que levou à constituição de 15 arguidos, Armando Vara recebeu no dia 25 de Maio, pelas 10h10 da manhã, um cheque de 10 mil euros de Manuel Godinho, que o empresário lhe entregou em mão na própria sede do BCP. O cheque teria sido pedido pelo próprio Armando Vara, com o objectivo de "encetar diligências".

O valor do cheque é um dos factores que têm provocado estranheza, uma vez que os rendimentos de Armando Vara tornam implausível que o ex-vice-presidente do BCP tenha pedido ao empresário 10 mil euros para si próprio. Mas o relatório do Ministério Público que autorizou as buscas, baseado na investigação da PJ onde foram utilizadas escutas e vigilância aos suspeitos, não é claro sobre o destinatário real do dinheiro necessário às "diligências".

Entre Fevereiro e Maio, a Polícia Judiciária identificou seis encontros entre Armando Vara e Manuel Godinho e várias conversas telefónicas. Tudo começou num almoço em Vinhais, terra natal de Armando Vara, a 7 de Fevereiro. Um almoço que decorreu "sem que se tivesse registado qualquer contacto telefónico prévio".

Armando Vara, segundo apurou a PJ, comprometeu-se a marcar um encontro entre Manuel Godinho e Paiva Nunes, que viria a acontecer a 25 de Maio, no mesmo dia em que Vara recebe o cheque de 10 mil euros. Da sede do BCP, depois de entregar o cheque a Armando Vara, Manuel Godinho dirige-se à EDP, que fica na mesma rua - a Avenida josé Malhoa - onde se encontrou com Paiva Nunes, entre as 10h20 e as 11h50.

No dia 27 de Maio, Paiva Nunes e Manuel Godinho almoçam no Altis. Paiva Nunes apresenta a Godinho António Paulo Costa, um quadro superior da GALP, que "teria capacidade para influenciar determinantemente decisores". Tanto Paiva Nunes como António Paulo Costa exigem a Manuel Godinho "dois veículos de alta cilindrada de valor não inferior a 50 mil euros". Manuel Godinho entrega um Mercedes a Paiva Nunes a 4 de Junho, em Ovar, na sua residência.

-com Ana Suspiro


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