Estados Unidos

Barack Obama. Da audácia da esperança à timidez do governo

por Bruno Faria Lopes, Publicado em 04 de Novembro de 2009   
Faz hoje um ano, Obama ganhou as eleições nos Estados Unidos. As altas expectativas podem dar lugar à desilusão
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Obama prepara-se para discursar durante uma recepção ao governador Deval Patrick, do estado do Massachusetts, a 23 de Outubro
"A mudança é difícil", afirmou o presidente Barack Obama na semana passada. "A mudança não acontece de um dia para o outro", disse no dia seguinte. "Não é suposto a mudança ser fácil", apontou dias mais tarde. Um ano depois da eleição histórica sob os slogans "Yes, We Can" e "Change We Can Believe In", a administração Obama enfrenta uma recessão económica profunda, ataques do próprio partido na crucial reforma da saúde e guerra no Iraque e no Afeganistão. Mas o principal problema parece ser outro: temperar a enorme expectativa que milhões de pessoas depositaram neste presidente dos Estados Unidos e evitar que se transforme numa onda de desilusão.

"As pessoas começam a perceber que a margem de manobra presidencial tende a ser muito menor do que pensavam", comenta Miguel Monjardino, especialista em relações internacionais da Universidade Católica Portuguesa. "A haver mudança esta será com 'm' pequeno, mas essa é a dura realidade de qualquer decisor político em Washington", acrescenta.

O problema deste confronto com a realidade será agravado - quer no plano interno, quer no externo - pelo contexto difícil do país, em boa parte herdado da presidência anterior: por um lado, a maior recessão económica desde a Grande Depressão nos anos 30; por outro, a escalada do conflito no terreno minado do Afeganistão e a guerra no Iraque.

Para conseguir impedir que a esperança dê lugar ao desencanto - as sondagens ameaçam uma taxa de aprovação abaixo de 50% já em Novembro, o que significaria a terceira maior quebra em 60 anos - Barack Obama precisa sobretudo de resultados e tem pouco tempo. "O nosso sucesso em 2010 depende da capacidade de Obama concretizar mudanças reais e significativas nos próximos seis meses", diz Robert Cramer, estratega político e obamaníaco. "Boa parte do progresso assenta na criação de empregos e na reforma do sistema de saúde", acrescenta.

A economia é um dos planos em que Obama agiu mais rapidamente desde que tomou posse a 20 de Janeiro deste ano, passando um pacote de estímulo de 787 mil milhões de dólares (com resistência quase total da oposição republicana). Para já parece que Obama terá triunfado ao travar a queda livre das expectativas na maior economia do mundo - que cresceu 3,5% no terceiro trimestre, o melhor resultado em dois anos - mas as notícias no emprego (7,2 milhões de postos de trabalho já foram extintos desde Dezembro de 2007) não são animadoras. "Antecipamos que ainda vai haver perda de empregos nos próximos meses", admitiu esta semana Obama. Com as contas públicas em desequilíbrio galopante, o debate sobre se o pacote Obama funcionou ou não continua a travar-se nos Estados Unidos, onde paira a sombra de um longo período com crescimento reduzido e tentação do protecionismo comercial. Na reforma da Saúde - vital para estabelecer a imagem de concretizador junto da opinião pública e em Washington - o presidente tropeçou no Congresso, apesar da maioria do seu partido. "Mesmo tendo simpatia pelo seu presidente os representantes democratas no Congresso pensam primeiro nos seus distritos e nas eleições em 2010 - e nem todos os círculos eleitorais democratas são iguais", aponta Miguel Monjardino. O presidente fixou o prazo para ter a reforma aprovada - final do ano - e terá de negociar ferozmente com os blue dogs, a ala conservadora dos democratas, consternada perante o impacto da reforma nas contas do país.

No plano externo, Obama conseguiu um resultado significativo: mudar a percepção que o mundo tinha da maior potência militar do globo, o que lhe valeu um prémio Nobel da Paz, que acabou por ser fonte de embaraço. Contudo, também aqui os desafios são enormes e sobre muita indefinição: os talibãs continuam a ameaçar no Afeganistão e Paquistão, a aproximação negocial ao Irão que quer ser potência nuclear ainda não produziu resultados e os esforços para a paz entre Israel e Palestina estão anémicos. Obama terá ainda tempo e o balanço deste primeiro ano até seria positivo - isto se o presidente não tivesse o enorme peso da expectativa sobre os ombros.


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