Música

Ludovico Einaudi: "Beatles é música clássica"

por Vanda Marques, Publicado em 02 de Novembro de 2009   
Tocar piano era um drama, agora é uma forma de vida. Einaudi apresenta novo álbum no CCB
Ludovico Einaudi, de 54 anos, começou como compositor e não era um bom aluno de piano

O cenário parece saído de um filme à italiana. Há vinho tinto, muita comida, pasta e mozzarela de búfala, como só em Roma. Uma mesa cheia de pessoas a conversar, mas parece faltar ali alguém. Passam das onze da noite quando Ludovico Einaudi se levanta da mesa para ir buscar a pessoa que faltava - a mãe. Uma senhora elegante, de cabelo apanhado completamente branco, entra sorridente e olha em volta para uma sala com mais de 30 pessoas. O pianista diz em voz alta: "Mamma, mi amici".
Ludovico Einaudi, de 54 anos, iniciou a digressão europeia em casa - Itália. Depois de um concerto de quase duas horas, com a sala Santa Cecília do auditório Parco Della Musica, em Roma, cheia para ouvir o novo álbum "Nightbook", o pianista não foi a correr para o hotel descansar. Preferiu juntar a banda, os amigos e jornalistas num restaurante para celebrar o novo trabalho. Estávamos a 20 de Setembro e o compositor, nascido em Turim, preparava-se para iniciar uma digressão de quase um ano, que o traz hoje ao CCB, em Lisboa.
Provavelmente, desta vez não vai jantar com a "mamma", mas espera-se casa igualmente cheia para o concerto de um dos pianistas mais falados da actualidade, cujo primeiro álbum a solo conseguiu a proeza de chegar ao topo de vendas no Reino Unido e, claro, em Itália.
Ludovico Einaudi, neto do presidente da República italiano Luigi Einaudi, começou a trabalhar como compositor e só se tornou pianista aos 38 anos. Nem por isso demorou a conquistar um público fiel. Mas o mais impressionante é a diversidade de fãs. À porta do auditório Parco Della Musica pairava a dúvida: "Vão acontecer dois concertos ao mesmo tempo." É que a mistura de góticos com botas Dr. Martens, com senhoras de casacos de peles, homens de fato e adolescentes de chinelos, parecia no mínimo estranha. Mas quando entramos e o ouvimos ao vivo percebemos que aqui não vai haver um concerto de música clássica, nem de rock ou pop. É antes uma mistura de todos. Pelo menos, foi o que disse o compositor ao i, na véspera do concerto em Roma, num hotel com vista para a Via Venetto, enquanto bebia chá e comia biscoitos.

O que é que o público pode esperar do seu concerto em Portugal?
Energia, explosão, mas também momentos mais calmos. O concerto vai ser diferente do outro que dei em Portugal, quando actuei sozinho e toquei algumas músicas com Rodrigo Leão. Desta vez, somos seis em palco, um quarteto de cordas e a parte electrónica.
O seu novo álbum chama-se "Night-book" (livro da noite) que histórias conta?
Gosto de música que nos faz perguntas e nos obriga a pensar. Quis abrir novas portas e transportar as pessoas para um sonho, para o mistério do escuro, onde tudo pode acontecer. A base da minha expressão é muitas vezes procurar algo que tenha a força de uma tempestade. Tinha material para fazer um álbum triplo, mas contive-me. É como escolher entre ter um livro de 300 páginas ou de 150. Com páginas a mais perdemo-nos.
Quando começa um álbum, sabe exactamente o que quer criar?
Nunca tenho uma ideia precisa. Faço experiências, improviso, só depois é que percebo se encontrei algo bom o suficiente para trabalhar. Gosto de começar pelo lado emocional de fazer música. Se não encontrar esse lado bruto, não tenho vontade de compor.
É fácil encontrá-lo?
Nem sempre. Aponto todas as minhas ideias. Quer esteja a viajar, a ler, num concerto, a improvisar ou nos soundchecks. Por exemplo, a música "The Tower" nasceu de um concerto em 2006 na Bicocca Hangar, em Milão. As obras do artista Anselm Keifer estavam lá, eram várias torres, com um aspecto apocalíptico. Senti que tinha de criar algo novo para tocar ali. Aquele ambiente levou-me para um tipo de música mais misteriosa.
Se tivesse de classificar o álbum, diria que é de jazz, música clássica...
Considero a música clássica como a do passado. Podemos considerar "Kind of Blue", de Miles Davis, música clássica. É tão perfeita que não é preciso mudar nada. De certa forma, todo o tipo de boa música podia ser clássica. Ouvimos a maioria das músicas dos Beatles e são música clássica. Os meus discos são postos nas prateleiras da clássica, mas sinto-me perdido lá. A minha música é mais parecida com Radiohead do que com Mozart. O meu sangue está cheio de música popular.
Em que prateleira os punha?
Não sei. Tinha de criar uma estante própria [risos]. Talvez devesse estar ao lado do rock progressivo.
Mas a sua formação é clássica.
Sim. Cresci com o piano da minha mãe e o som do Bob Dylan e dos Stones que vinha do quarto da minha irmã. Uso a minha base clássica e misturo-a com a minha linguagem que é mais pop.
Sempre quis ser pianista?
Nunca quis ser um virtuoso do piano. Estudei piano dos 15 aos 24 anos, mas o meu professor estava sempre infeliz, queixava-se que eu estudava pouco. Lembro-me de olhar para os meus colegas e pensar que eram todos melhores do que eu. Nunca quis ser um pianista clássico, nem sonhei em tocar Mozart e Bach. O meu interesse era a composição. Estudar piano era um drama tão grande que tive de parar. Passar oito horas por dia a trabalhar numa peça e nunca sair da forma correcta é duro. Quem diria, que ia tocar piano no Albert Royal Hall, em Londres.
O que o atrai na composição?
O lado criativo, a forma como expressamos emoções pela música. Tudo o que faço é criar emoções. É claro que a composição é uma técnica, mas sem aquilo que não sabemos bem explicar o que é, o lado emocional, não se chega ao resto. Regressei ao piano, depois de uma interrupção de três anos, porque deixou de ser apenas uma técnica. Encontrei uma ligação. Com 38 anos, já trabalhava como compositor, apercebi-me que queria experimentar peças de piano, mas nunca imaginei dar concertos como hoje.
Queria ser o quê?
Queria ter uma banda como os Beatles. O que gostava era da energia da comunicação do rock. É fantástica. Gosto de ir a um concerto rock e sentir milhares de pessoas a vibrar com a música.
Agora corre o mundo a tocar para sentir essa energia. Mas não é difícil andar em digressão?
Sim. Todas as noites, num sítio diferente, é complicado. Para aguentar, gosto de ir fazendo pequenas pausas e passar uns dias em casa a fazer coisas normais: comprar pão ou lavar a louça. É uma boa rotina que me faz falta.



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