Finalmente quebrou-se um tabu: "Mãe, eu tenho de fazer sexo com a minha mulher para ter filhos?"
Há anos que esperava uma pergunta deste tipo. Sempre soube que mais tarde ou mais cedo teria de o sentar ao meu colo e traduzir-lhe as telenovelas em linguagem científica, tintim por tintim. E até sabia que a pergunta viria de repente, a despropósito, numa altura em que eu estaria, por exemplo, a separar a roupa escura da roupa branca para fazer uma máquina de lavar.
No entanto, não pensei que a dúvida fosse esta. Não imaginei que o tema fosse a inevitabilidade de "fazer sexo" para se ter filhos. Imaginei uma interrogação mais prosaica, mais, digamos, conservadora. Qualquer coisa como "Ó mãe, a cegonha não existe pois não?", ou, numa versão mais radical, "Mãe, o que é sexo?"
Mas não vacilei com o tom nem com o tema, claro. Mantive-me concentrada na roupa e respondi sem deixar transparecer uma emoção: "Agora não, vai perguntar ao pai que eu estou a separar a roupa." (Na altura, esta resposta fez sentido).
"Hã?"
"A professora diz que nós temos de fazer sexo com a nossa mulher para ter filhos. É verdade?"
"Pois. É isso."
"OK."
E pronto. A conversa, aquela conversa em que se desmistifica a cegonha, foi assim, pragmática, concisa e esclarecedora. Nem tive tempo de a gravar ou filmar, para poder recordá-la mais tarde com a minha querida futura nora.
Jornalista




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