Imobiliário

Há mais de 100 mil casas desocupadas à venda em Portugal

por Ana Rita Guerra, Publicado em 31 de Outubro de 2009   
A maioria dos imóveis nunca foram habitados. Estão sobretudo nas periferias das grandes cidades
Milhares de casas construídas nas periferias continuam vazias
Portugal tem mais de 100 mil casas vazias que ninguém consegue vender. São casas--fantasma que nos últimos anos se multiplicaram nas periferias das grandes cidades, em especial Lisboa e Porto, à espera de uma classe média baixa a quem os bancos fecharam a porta. Muitas ainda estão por estrear quando as tabuletas a dizer "vende-se" começam a enferrujar.

"A maior parte nunca foi ocupada, e se se mantiverem desocupadas estas casas vão-se estragando de dia para dia", sublinha Luís Lima, presidente da Associação de Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal (APEMIP), em entrevista ao i. "Não foram pensadas para o arrendamento, e os promotores não as põem nesse mercado porque não funciona", adianta o responsável, que tem vindo a alertar para a necessidade de alterar a legislação aplicável.

Apesar de haver um aumento substancial na procura por arrendamento, cerca de 50% nos primeiros nove meses do ano, a concretização efectiva teve um aumento de apenas 2%. Porquê? "O valor das rendas é incomportável", explica Luís Lima, justificando esta aparente contradição com o enorme risco tomado pelo proprietário. Não só tem uma carga fiscal muito elevada como é obrigado a investir na manutenção do imóvel - sem ter garantias de que o inquilino é despejado rapidamente quando deixa de pagar. Luís Lima frisa que muitos proprietários transferem esse risco para o valor da renda, que acaba por ser demasiado elevado e gera o incumprimento.

Esta situação, aliada à retracção dos bancos na concessão de crédito, originou o cenário peculiar das casas-fantasma. Luís Lima acredita que no final do ano o número de imóveis vendidos vai baixar cerca de 10%, passando de 170 mil em 2008 para algo como 150 mil casas transaccionadas este ano. No entanto, o volume de negócios gerado pelo sector vai crescer. Como se explica este fenómeno? "O mercado médio alto vende-se bem. E mais: a banca está completamente disponível para financiar", detalha o presidente da APEMIP.

Uma das soluções para este problema, além da mudança de lei no arrendamento, pode estar na intervenção do governo. "O parque está construído e o Estado devia pensar se vale a pena continuar a construir habitação social", afirma Luís Lima, para quem muitas destas casas poderiam servir para o alojamento das famílias carenciadas.

Por outro lado, o responsável das empresas de mediação defende que os construtores terão de se virar para outros nichos de mercado, tais como o da habitação para seniores - que têm necessidades específicas devido à idade - e para jovens, que precisam de casas pequenas e baratas enquanto fazem a transição da casa dos pais para a vida adulta. "Todo o promotor que construir sem saber o que as pessoas querem comprar cometerá um erro", avisa o presidente, salientando que "o mercado nunca mais será dominado pela oferta e sim pela procura". Além disso, reflecte, "não se pode pedir por um imóvel usado um valor mais elevado que uma casa nova no mesmo sítio. Tem de custar 30% ou 40% menos". A expectativa de valorização eterna das casas tem os dias contados.


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