Entrevista

"Ter um carro é como ter uma metralhadora: mata da mesma maneira"

Publicado em 30 de Outubro de 2009   
A falta de civismo continua a ser o principal problema nas estradas. "Os desastres têm muito a ver com erros individuais"
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Carlos Barbosa, presidente do ACP
O presidente do Automóvel Clube de Portugal (ACP), Carlos Barbosa, foi eleito este mês vice-presidente da Federação Internacional do Automóvel (FIA) para as áreas da Mobilidade e Turismo. Responsável pela região da Europa, África e Médio Oriente, assume como objectivo a redução do "massacre" de mortes nas estradas. Em Portugal, admite que há algumas melhorias, mas aponta muitas críticas ao governo na área da prevenção rodoviária. Lamenta a lógica da "caça à multa" para cumprir os objectivos do Orçamento do Estado e critica a extinção das Brigadas de Trânsito da GNR. Mas é no que chama de facilitismo das escolas de condução na atribuição de cartas que encontra "o problema mais grave" das estradas portuguesas. "Ter um carro é como ter uma metralhadora, mata da mesma maneira. É preciso que as pessoas percebam que é nas escolas de condução que se ensina o que é ter um carro nas mãos e como se deve conduzir", defende.

Quando tomou posse apontou como meta reduzir em 50% as mortes nas estradas até 2030.

A meta não é minha, é da FIA. Uma das grandes discussões que se coloca na FIA é que com o mesmo dinheiro que se gasta na Europa para salvar uma vida, em África conseguimos salvar 100 vidas. São países muito atrasados e como eu tenho a meu cargo a região da Europa, África e Médio Oriente, interessa-me que haja desenvolvimento em todas. Mas também é preciso que as autoridades locais percebam o custo de cada acidentado em cada país. É um custo brutal que muda de país para país. Em Portugal, por exemplo, temos uma prática que não é igual à espanhola: lá as autoridades seguem um acidentado até estar a trabalhar outra vez; nós só há muito pouco tempo é que sabemos quem são as pessoas que morrem a seguir a um desastre. Antigamente só eram contabilizados os mortos no acidente. Os feridos graves transportados para o hospital e que morriam duas horas depois já não eram associados a morte por acidente. Ou seja, os números reais por vezes atingiam mais 30% de mortos do que os números oficiais. Agora está a ser feita essa contagem de feridos graves por um período de 30 dias, mas ainda há muita coisa por fazer.

Continua o cenário de guerra civil nas estradas, apesar de os números terem baixado nos últimos anos?

Estávamos num excelente caminho há três ou quatro anos, com um trabalho extraordinário da Prevenção Rodoviária Portuguesa (PRP). Mas houve uma tentativa do então ministro António Costa de matar a PRP. Felizmente não conseguiu porque os sócios não o deixaram e a PRP hoje está saudável outra vez. Mas esse interregno de dois anos em grandes campanhas aconteceu porque o dinheiro do Fundo Automóvel que era para a PRP e para a Estradas de Portugal foi desviado para outros fins. Por isso está neste momento a decorrer um processo contra o Estado português no sentido de recuperar o dinheiro que nos foi retirado. Só para ter uma ideia, nesta altura faltam dois meses para acabar o ano, o Fundo de Garantia dá qualquer coisa como quatro milhões por ano para campanhas de prevenção rodoviária e neste momento só foi atribuído cerca de um milhão. Os outros três milhões não vão ser atribuídos porque com certeza já foram entregues para a compra de pistolas da PSP ou coisa do género.

E houve alguma justificação do governo para essa decisão?

Não houve nenhuma justificação política porque se baseiam num decreto-Lei que diz que o dinheiro "é para efeitos de segurança rodoviária". E eles consideram que se calhar comprar pistolas também é isso. Mas é um assunto em que não me quero envolver: está no tribunal e o tribunal decidirá quem tem razão.

Houve mais erros políticos?

Outra coisa fatal foi a extinção da Brigada de Trânsito da GNR. Enquanto todos os países europeus dão cada vez mais força e meios para fiscalização - sobretudo na parte da prevenção e não na repressão -, Portugal utiliza mais a repressão do que a prevenção. Espero que o ministro Rui Pereira perceba que foi um erro e que volte atrás.

Não faz um balanço positivo ao desempenho do último governo nestas áreas.

No último governo há duas fases. Há uma dramática com o ministro António Costa e uma fase excepcional com Rui Pereira. O António Costa não tinha qualquer espécie de sensibilidade para os assuntos de segurança rodoviária, mas o Rui Pereira é precisamente o contrário. Tem muita sensibilidade para isso, tal como o secretário de Estado, José Medeiros. Penso que estamos no bom caminho com a Autoridade Nacional da Prevenção Rodoviária, que está a encarreirar e pode ter um papel preponderante. Mas enquanto não tivermos uma fiscalização bem feita e um sistema de coimas aplicado na hora e em que as pessoas sejam efectivamente punidas pelas asneiras que fazem, continuará a haver uma permissividade muito grande. Depois há outro problema gravíssimo em Portugal, eventualmente o mais grave neste momento, que é a atribuição de cartas e os exames de condução. O ensino de condução em Portugal é francamente mau e os exames são extremamente permissivos. As pessoas vão para as escolas de condução não para aprender a conduzir, mas sim para tirar a carta. E depois é que vão para a estrada aprender a conduzir.

A falta de civismo dos condutores continua um problema?

O civismo tem muito a ver com a educação das pessoas, com a maneira como encaram a condução. Ter um carro é como ter uma metralhadora, mata da mesma maneira. O que é preciso é que as pessoas percebam que é nas escolas de condução que deve ser ensinado o que é ter um carro nas mãos e como se deve conduzir. Dou-lhe um exemplo: nós criámos há três anos nas escolas do ACP, duas aulas gratuitas com uma psicóloga sobre comportamentos na estrada. Mas não tivemos um único aluno. Isto devia ser obrigatório. Quando os condutores prevaricam, ficam sem carta e depois são obrigados a ir a um curso com um psicólogo. Ora, se tivessem a psicóloga antes, podiam ter outra preparação. Mas o civismo é uma coisa que se aprende quando se nasce, em casa, na família, no trabalho... E os desastres que têm havido este ano têm muito a ver com erros individuais.

As infra-estruturas rodoviárias já não são um grande motivo de acidentes?

No último código da estrada propusemos que os donos das infra-estruturas pudessem ser responsabilizados nos desastres e que fosse analisado se seriam culpados nos acidentes. Não sei porquê isso não foi contemplado. Talvez porque o lóbi das estradas é muito grande quer nas concessões das auto-estradas quer na Estradas de Portugal - e não permitiu que fossem responsabilizados. Só o são se o acidentado puser a infra-estrutura em tribunal. Há muita coisa ainda para fazer nesta área de segurança e prevenção.

E sente vontade política de cumprir com o que há para fazer?

Este é um problema nacional, não é um problema do ACP ou do jornal i. Temos centenas de mortes nas estradas todos os anos e continuamos a ter um custo brutal por cada um desses acidentados, com tudo o que se segue em hospitais ou recuperação. Portanto tem de haver uma forma diferente de encarar isto. E a prevenção é importantíssima. Não é estarem os GNR escondidos atrás das árvores, com radares, porque isso não resolve nada, até porque normalmente estão em sítios que não são perigosos. Outra coisa surrealista é como é que um orçamento de Estado obriga a que haja um montante proveniente de multas no valor de 900 milhões de euros. No ano passado tinham 700 milhões e só atingiram 540 milhões... e agora passa para 900 milhões.

Tem explicação para isso?

Não consigo encontrar explicação. Obriga os destacamentos a cumprirem um determinado orçamento por mês para dar o dinheiro ao Estado. Mas seria mais útil estarem nos sítios perigosos, porque podem apanhar os infractores e prevenir que as pessoas tenham acidentes. Se reparar, 90% dos casos em que os radares estão colocados para apanhar a multa são em rectas ou outros sítios sem perigo nenhum.

Estamos a falar de caça à multa?

Apesar de as forças militares continuarem a dizer que não, a verdade é que a caça à multa é uma realidade em Portugal. Quando devia ser exactamente o contrário: devia ser uma prevenção. Lá fora, quando vamos nas estradas, nós vemos os polícias. Cá estão todos escondidos. Ora, um militar não se esconde, tem de se mostrar, porque é uma autoridade e existe para dissuadir as pessoas de fazerem as asneiras que fazem.

Os radares em Lisboa também encaixam nessa ideia de caça à multa?

É uma coisa muito estranha. Houve uma comissão que decidiu há cerca de seis meses onde é que deveriam estar os radares, não gastando um tostão: era só mudar de sítio os 21 radares disponíveis para os sítios mais perigosos. Essa comissão de que fizemos parte votou, decidiu, entregou ao presidente da Câmara, mas até agora ainda não aconteceu rigorosamente nada.

Tem uma relação muito tensa com o presidente da Câmara de Lisboa.

Penso que isso agora acabou. Não tenho nada de pessoal contra António Costa, respeito-o como presidente da Câmara. Mas penso que no mandato anterior não fez nada que beneficiasse a mobilidade em Lisboa. Antes pelo contrário: prejudicou. Mas agora tem como vereador com o pelouro da mobilidade em Lisboa o professor Nunes da Silva, que foi o autor de todos os estudos do ACP contra a câmara de Lisboa. Portanto estou descansado. Nunes da Silva é um técnico e isso é que é importante, porque aqui não há política. Fui acusado por alguns sócios do ACP de estar a fazer campanha.

Pode dar-nos um exemplo concreto de uma medida que ajudaria imediatamente as questões de mobilidade em Lisboa?

Quando Carmona Rodrigues era presidente da Câmara de Lisboa, apresentou à então secretária de Estado Ana Vitorino um passe que permitia estacionar entre três a quatro mil carros no Estádio da Luz e no Estádio de Alvalade, que estão vazios durante a semana. São estádios com interface para o metropolitano e com um passe de 25 euros as pessoas podiam lá estacionar o carro sem ter de levá-lo para o centro de Lisboa. Em três anos não foi aprovado, porque a decisão tem de ser do governo e a secretária de Estado nunca o aprovou.

As portagens nos centros das cidades também podem ser uma solução?

Já foi provado em Londres, Estocolmo e Barcelona que é um erro. As portagens nas cidades foram feitas não para reduzir o trânsito, mas sim o CO2. Ou seja, há sempre uma falsa questão dos presidentes de câmara que dizem que querem reduzir o trânsito, mas isso é totalmente mentira. Essas cidades taxaram a entrada de carros por causa do CO2. Só que em Londres aconteceu uma coisa extraordinária: foi feito um estudo que prova que os autocarros todos juntos poluem mais do que todos os carros que entravam nas cidades antes, durante e depois da taxação. E depois o sistema de taxação é de tal maneira caro para as cidades que as cidades italianas já o abandonaram e trocaram-nos por vinhetas que permitem a entrada em determinadas ruas. Ou seja, não funciona. E aí acho que o António Costa está de acordo comigo: não é exequível.

Concorda com a ideia dos chips nas matrículas?

Pode ser uma armadilha. O governo criou o chip para fazer as portagens virtuais, mas tenho muito medo que isso amanhã ultrapasse o âmbito das portagens virtuais e vá ser utilizado para identificar onde as pessoas andam.

Pode invadir a esfera privada?

Tenho muito medo disso. Por muito que a Comissão de Protecção de Dados tenha autorizado e dito que iria estar atenta, é sempre uma tentação muito grande para um governo querer utilizar aquilo para outros fins.

Já cometeu alguma infracção de trânsito?

Já: excesso de velocidade. Mas eu não cometo excessos de velocidade. Eu ando acima da velocidade permitida por Lei, o que é completamente diferente. Ou seja, se eu for no meu Mercedes a 150 km/hora na auto-estrada, não vou em excesso de velocidade. Vou acima dos 120 km/hora que são permitidos na Lei. Mas não vou em excesso: se eu for a 120 km/hora num carro daqueles vou a dormir e isso sim é perigoso. Na A1 não ando a mais de 120km/hora porque é uma estrada perigosa. Mas na A2 para o Algarve, que não tem curvas cegas, prefiro pagar a coima por andar a 140km/hora do que arriscar a morrer por ter adormecido.

Não concorda com os limites em vigor nas auto-estradas?

O que deve acontecer é ter a percepção que um Mercedes que vai a 140km/hora não constitui perigo, mas um Fiat Uno que vá a 140km/hora já constitui perigo, tanto para os que vão dentro do carro como para os outros que vão ao lado. Os carros e as estradas são cada vez mais seguros, mas como em Portugal não se sabe guiar, temos de manter as regras que estão em vigor. Mas deveria haver alguma flexibilidade e bom senso na fiscalização.

Quando é que se sentou pela primeira vez ao volante de um carro?

Em 1968. O primeiro carro que tive foi um Honda 360 e a primeira coisa que fiz foi ir a um serralheiro, abrir-lhe as jantes e no dia em que saí para ir para a auto-estrada o carro não andava: tinha as jantes de tal maneira largas que o carro não andava. Tive de ir pedir para pôr as jantes de outra maneira.

Que carro conduz agora?

Tenho dois carros: o Mercedes do ACP e o Range Rover que é o meu carro pessoal. Mas tenho mais carros meus.

Qual é o seu carro de eleição?

É o meu Ferrari Scaglietti 612, que é o carro que mais adoro e que é extraordinário, muito seguro e muito cómodo. Mas só o uso quando faço viagens, quando vou a Madrid, ao Porto, ao Algarve.

Mantém a convicção de que é possível fazer regressar a Fórmula 1 a Portugal?

Basta o governo querer,. Temos meios, autódromo...

Quanto custa trazer a Fórmula 1?

10 milhões de euros por ano.

E tem retorno garantido?

Para ter uma ideia, no Rally de Portugal o governo dá-nos 1 milhão de euros do Turismo e 1,5 milhões do Desporto. O rally custa cerca de quatro milhões de euros e o resto vem de patrocinadores. E o retorno anual do rally é de 79 milhões de euros. Ou seja, a seguir ao EURO2004, o rally é o evento desportivo mais importante em Portugal. E a Fórmula 1 pode com certeza fazer isso. Tem é de haver disponibilidade política e orçamental para gastar todos os anos 20 milhões de euros. Se houver o dinheiro, nós trazemos a Fórmula 1. Mas é uma decisão política, se o governo achar que é um bom investimento turístico.

Tem um passado na área dos media e esteve na fundação de projectos como o Correio da Manhã. Agora de fora como olha para o nosso mercado de media?

Preocupado. Falando como Carlos Barbosa e não como presidente do ACP, acho que há um apetite muito grande do PS em relação aos órgãos de comunicação. Basta ver as tentativas que têm acontecido, como o negócio da TVI, que foi recuado porque houve eleições, depois foi assinado um acordo entre a Prisa e a Ongoing no dia a seguir às eleições... A liberdade de imprensa em Portugal foi uma realidade muito importante conseguida a seguir ao 25 de Abril e hoje em dia preocupa-me ver a forma como a Manuela Moura Guedes foi afastada ou como foi empurrado o José Eduardo Moniz. E preocupa-me a passividade nacional em relação a isto. As pessoas estão muito mais preocupadas com a telenovela do que com o telejornal.

Está convicto de que a saída de Moura Guedes foi uma manobra política?

Não tenho qualquer espécie de dúvida. É evidente que não posso provar que foi uma manobra política do governo. Mas uma administração de um jornal que tem uma audiência que mais nenhum tem e que é crítica ao governo da maneira que era... é evidente que para a calarem só pode ser uma manobra política. É de tal maneira óbvio que não vale a pena estarmos com rodeios.

A teoria da asfixia democrática faz sentido?

Acho que sim. A Entidade Reguladora para a Comunicação não tem funcionado. Deveria ter um papel não só consultivo. Temos de repensar tudo isso e já é um bom sinal Augusto Santos Silva ter sido afastado desta pasta. Temos de ver o que acontece com o novo governo.

Tem acompanhado as movimentações do grupo Ongoing na área dos media?

Tenho e estou expectante. Tanto o Nuno Vasconcellos como o Rafael Mora fazem parte da direcção do ACP, portanto ainda mais à vontade estou para dizer isto. Se for uma perspectiva empresarial estou completamente de acordo porque é sempre positivo ter bons grupos. Se for numa perspectiva política escondida debaixo da capa empresarial, aí já não estarei de acordo com eles. Assisti na semana passada à guerra do "Diário Económico" contra o "Expresso" e aquilo para mim é completamente impensável em comunicação social. Em 22 anos de comunicação social não me lembro de uma guerra entre um jornal e outro, sobretudo para combater por negócios económicos. Para mim é uma aberração total estar assim na comunicação social.


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