Exclusivo i: O Catholicismo Imoral - mais um inédito de Pessoa

por José Barreto, Publicado em 29 de Outubro de 2009   
O segundo de uma série de 11 textos inéditos de Fernando Pessoa que o i vai publicar todas as semanas até 31 de Dezembro. Leia, guarde e coleccione. O próximo é editado com o i no dia 5 de Novembro.
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Um improvável republicano moralista. "O catolicismo imoral", datável de 1922-1923, é o esboço de um artigo que Fernando Pessoa pretenderia publicar sob um nome falso, mas que não chegou a concluir. Pessoa parece ter querido intervir de forma anónima e provocatória no debate iniciado com a publicação na revista "Contemporânea", em 1922, do seu artigo laudatório "António Botto e o ideal estético em Portugal", a propósito do livro "Canções", em que Botto assumia a sua homossexualidade, obra então reeditada pela Olisipo, a editora de Pessoa. O artigo da "Contemporânea" deu lugar a uma reacção indignada do publicista católico e monárquico Álvaro Maia no número seguinte, sob o título "Literatura de Sodoma. O Sr. Fernando Pessoa e o ideal estético em Portugal". Pessoa era aí acusado por Maia de "remexer, às mãos ambas e plenas, os escorralhos nauseantes da esterqueira romântica".

A Olisipo publicaria em 1923 o livro "Sodoma Divinizada", de Raul Leal, outro amigo de Pessoa. Os ataques à "literatura imoral" recrudesceram, sobretudo com as movimentações da Liga de Acção dos Estudantes de Lisboa, que publicou no início de Março uma proclamação em prol da "higiene moral e social", enquanto os estudantes católicos faziam rusgas nas livrarias de Lisboa. Esta campanha culminaria, em Março de 1923, na apreensão e queima, por ordem do governador civil, das obras de António Botto, Raul Leal e Judith Teixeira.

"O catolicismo imoral", adiante transcrito, foi redigido na sequência do ataque que Álvaro Maia fez a Pessoa na "Contemporânea". Um Pessoa divertido veste a pele de um republicano moralista que acusa os católicos e monárquicos portugueses de condescendência com os artistas "degenerados", pretendendo assim conotar a Igreja Católica com a "arte imoral". Enumera uma série de autores "degenerados" e "amorais", que, tendo acabado por se converter ao catolicismo, se acolheram a este "como à casa paterna". Numa manobra de diversão, Pessoa fustiga-se a si próprio, denunciando "o monárquico Fernando Pessoa, sinistra figura de degenerado que tem acompanhado como uma sombra negra todos os uranistas doentios dos actuais tempos". Pessoa acusa até o católico Álvaro Maia de ter elogiado as "Canções" de António Botto, o oposto do que realmente se passou. A veia sarcástica e provocatória de Pessoa surge aqui em toda a sua pujança.

Professor e investigador



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