Os adolescentes portugueses têm valores, preocupam-se com o bem-estar da família e sonham ter estabilidade emocional e profissional. Eis o retrato da investigadora Maria Gabriela Sousa e Silva, que contraria o rótulo de que os jovens não têm ideais.
Os sonhos e os sentires dos jovens portugueses são retratados pela investigadora em três livros, a lançar quinta-feira, totalmente dedicados à adolescência e que reúnem testemunhos de dezenas de jovens de escolas do país.
Em declarações à Lusa, a autora, que é também professora do ensino secundário, explicou que o objectivo foi dar espaço à partilha e divulgação do que realmente sentem e são os adolescentes portugueses.
A colecção começa com o livro "Os Sonhos dos Adolescentes", que contraria a ideia menos positiva de que os jovens não querem fazer nada na vida e não têm objectivos. "Não é nada disso. Este livro mostra que têm ideias muito sérias sobre a vida, que se preocupam com os pais e os avós de idade avançada, que querem ter uma família organizada e constituída e um emprego estável", relata Maria Gabriela Sousa e Silva.
Os sonhos destes jovens têm uma ordem bem definida: alcançar a felicidade, obter estabilidade económica e profissional, conhecer o mundo, estabelecer laços familiares, ter saúde, possuir habilitações académicas, ter casa própria, sentir apoio familiar e ajudar a família e os amigos.
Num momento em que a adolescência é sistematicamente vista como um período de desinteresse pelas famílias e em que o tumulto e o conflito se manifestam, com as estatísticas a revelarem inúmeros casos de violência, tanto nas escolas como em casa, estes resultados são, no mínimo, surpreendentes, escreve a autora num dos livros.
Perante os resultados obtidos, explica, é necessário abstermo-nos de rotular os adolescentes de "seres desprovidos de sentimentos e valores". "Eles revelam-nos esses sentimentos e valores nos textos que construíram e nas respostas que elaboraram. Há neles um desejo ilimitado de construção. Desejam ser felizes e nessa felicidade incluem os familiares e amigos", refere Maria Gabriela de Sousa Silva, no livro "Os Sonhos dos Adolescentes".
Já no livro intitulado "O Ser e o Estar na Adolescência", a autora defende, depois de mais uma vez ouvir jovens de várias escolas do país, que é premente que a escola se preocupe não só com a aquisição de competências cognitivas mas também com a aquisição de valores e competências humanas.
No terceiro livro, é abordado o prazer da leitura na adolescência, concluindo a investigadora que os livros devem ser escolhidos por equipas de trabalho que conheçam os gostos dos jovens.
"Hoje, mais do que nunca, é necessário escolher acertadamente a leitura do adolescente ou perder-se-á a hipótese de, no futuro, vermos adolescentes e jovens a lerem", defende a investigadora, que tem trabalhado na área da literatura emocional e que defende a introdução no currículo escolar de uma disciplina que trabalhe as emoções dos jovens através das obras literárias.
No fundo, defende, a magia está em colocar-lhes nas mãos o livro certo, no momento certo.




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