Tráfico

Olaias. O mercado que está a dar em Lisboa

Publicado em 29 de Outubro de 2009   
O realojamento da antiga Curraleira nunca chegou a acabar com o tráfico de droga. As Olaias estão a caminho de ser o segundo Casal Ventoso
Quinta do Lavrado junto ao cemitério do Alto de S. João
O ponto de venda é quase perfeito. Mesmo no final da Avenida Francisco da Costa Gomes, junto das Olaias, em pleno centro de Lisboa, os traficantes juntam--se na esquina da primeira torre na Quinta do Lavrado. Um local onde se avista todo o vale de Chelas e respectivos acessos. Mas, mesmo com visibilidade privilegiada, há vigias em pontos estratégicos, como por exemplo, no final do bairro João Nascimento Costa.

Ontem de manhã, dois deles conversavam amenamente, enquanto seguiam com atenção todos os movimentos de estranhos ao bairro. O i só teve de esperar cinco minutos para a dupla se transformar num pequeno grupo de cinco pessoas que rapidamente se aproximaram: jornalista igual a polícia, igual a persona non grata. Pouco tempo mais tarde, nos dois minutos que separam os Bairros Nascimento Costa e Quinta do Lavrado, todos os traficantes e acompanhantes já estavam avisados da presença estranha. A prova fez-se com os olhares que seguiram o automóvel com atenção.

Noutro ponto de observação, mais afastado é fácil perceber que nos caminhos de terra improvisados, ou nas ruas asfaltadas, existe um vaivém de consumidores que encontraram naquele bairro um dos mais bem abastecidos pontos de tráfico da cidade de Lisboa. Segundo fontes policiais, é difícil controlar o tráfico uma vez que quando entram na zona são facilmente identificados, mesmo vestidos à civil com carros descaracterizados. De resto, a investigação é complicada quando se tenta perceber as rotas da droga e das armas, do pequeno ao médio e grande traficante.

Da rua até à Turquia são dois passos, ou três. Investigadores referiram que há grandes quantidades que chegam do estrangeiro a traficantes bem relacionados internacionalmente - a heroína da Turquia, a cocaína da América do Sul - que, por sua vez, a distribuem em quantidades que geralmente não ultrapassam um ou dois quilos. Estes operam na zona das Olaias, com especial incidência no bairro João Nascimento Costa e Portugal Novo.

Fonte policial refere, com certeza, que há alturas em que os traficantes definiram horários próprios para cada uma das substâncias: Haxixe durante a manhã. A tarde para a heroína. A cocaína é vendida à noite. Horários que se vão alterando com os hábitos de consumo, procura e até operações policiais.

Um dos consumidores, Carochos, como são "carinhosamente" tratados pelas autoridades, referia "que o produto nas Olaias era melhor do que no Intendente ou Mouraria". Uma das razões - a qualidade - que segundo as autoridades justifica o aumento da procura de estupefacientes naqueles bairros. Na Quinta do Lavrado vendem-se pacotes de 0,1 grama de cocaína e de heroína a cinco euros.

Ninguém controla São bairros praticamente incontroláveis pelas autoridades e há mesmo alguns moradores que negoceiam quem vive em alguns apartamentos. Isto é, há chaves à venda por 15 mil euros e mais e a Gebalis (Gestão dos Bairros Municipais em Lisboa) não tem conhecimento das trocas.

Há blocos inteiros no Bairro João Nascimento Costa e Carlos Botelho (nas imediações) que não têm administrativamente qualquer controlo: uma informação que foi confirmada pela própria direcção da Gebalis. São blocos que pertenciam a cooperativas criadas após o 25 de Abril de 1974 e que faliram, deixando ao abandono moradores e residências. As dívidas de água e luz ascendem a milhares de euros e os contratos estão em nomes que não correspondem aos actuais moradores.

Segundo a Gebalis, "quando existem denúncias e/ou suspeitas de que o fogo está devoluto ou que o agregado familiar se encontra em paradeiro desconhecido, são efectuadas visitas ao lote". Segundo este organismo, oficialmente na Quinta do Lavrado há oito casas ocupadas abusivamente, no Bairro Carlos Botelho, oito, e no Bairro João Nascimento Costa apenas um.

No que diz respeito ao cruzamento de dados, por exemplo, entre subsídio social de inserção, IRS, Segurança Social e outros, a Gebalis garante que "é fundamental a existência de intervenção social partilhada entre as várias entidades", pelo que "é comum a realização de reuniões entre as entidades sociais, com vista à análise de casos sociais e planeamento de intervenção conjunta".


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