Quatro dias depois de ter sido detido em plena sacristia da Igreja de Covas do Barroso, Boticas, o padre Fernando Guerra retoma a sua rotina diária, entre celebração de missas, corte de uvas ou idas ao dentista.
O sacerdote gosta de se levantar bem cedo. A primeira missa é realizada quase diariamente logo pelas 07:00 na igreja mesmo ao lado da casa paroquial, um solar antigo, com uma grande ramada e onde hoje se colhem uvas.
A manhã foi também aproveitada para ir ao dentista, a Chaves, e, à tarde, junta-se a mais dois colegas para a realização de um funeral em Alturas da Serra.
Fernando Guerra calcorreia semanalmente, para além de Covas do Barroso, ainda paróquias de Canedo, Vilar e Alturas da Serra, desdobrando-se na realização de missas ou aulas de catequese.
Mas, para além dos assuntos religiosos, o sacerdote tem outras paixões: a caça e as armas.
Em declarações aos jornalistas disse que começou a caçar logo quando atingiu a maioridade e assume que gosta de armas, de caça ou de colecção, e que possui uma grande “estima” pela “única” pistola ilegal que diz que lhe foi apreendida pela GNR, porque lhe foi deixada em herança pelo seu pai.
O padre foi detido pela posse ilegal de armas. Mas, o sacerdote diz que apenas para uma das armas em causa é que não possui documentação. E, para o provar, faz questão de exibir as fotocópias do livrete de uma pistola e o pedido de legalização de mais três armas, que deu entrada na PSP de Chaves em 2006.
“Na altura, foi-nos pedido que avisasse-mos os nossos paroquianos para que legalizassem as suas armas. Eu disse-o no púlpito e acatei também esse pedido indo com as armas à PSP. Eles ficaram lá com os dados todos das armas e disseram-me para as trazer de volta para casa”, salientou.
O sacerdote nega peremptoriamente o tráfico de armas, uma suspeita levantada por algumas pessoas e revelada por alguns órgãos de comunicação social, e afirma que, para além da caça, as armas servem também para defesa.
Para sustentar esta afirmação conta algumas histórias de que diz ter sido vítima, como uma alegada emboscada em que terá ficado ferido ou uma visita nocturna de três “gatunos” que lhe bateram à porta de casa.
Além disso, acrescenta, “deve haver poucas casas no país onde não há uma ou mais armas”.
Fernando Guerra diz que é uma pessoa calma e lamenta os “exageros” que foram reproduzidos em alguma comunicação social, tal como a actuação da GNR que considera não ter sido muito discreta.
A GNR montou um forte aparato à volta do padre tanto no dia da detenção, invadindo a aldeia com cerca de 30 dezenas de militares, como na entrada do edifício do tribunal, em que quatro agentes encapuzados acompanharam o septuagenário.
A detenção do sacerdote fez levantar muitas vozes entre os populares, com uns a defenderem-no e outros a dispararem as mais diversas acusações, entre elas a de que “é uma pessoa que gosta muito de dinheiro”.
Fernando Guerra diz que “é mentira” e que apenas exige o que é de direito, tal como a denominada “congra”, um valor anual que ainda hoje é exigido em algumas paróquias.
Quanto à especulação de ter uma grande fortuna, o sacerdote apenas responde: “tenho o que tenho”.
A juntar ao que recebeu de herança, o sacerdote refere ainda que deu aulas durante quase trinta anos.
Fernando Guerra, 74 anos e natural de Gralhas, concelho de Montalegre, é padre há 50 anos e está sob o termo de identidade e residência, tendo que se apresentar semanalmente no posto da GNR de Boticas e estando impedido de comprar ou usar armas de fogo.




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