Livros

Pessoa criou um labirinto. Este homem procura a saída

por Joana Stichini Vilela, Publicado em 28 de Outubro de 2009   
A partir de sexta o i oferece todas as semanas um livro de Pessoa. Antes fomos conhecer o investigador que disseca a obra do poeta
Opções
Jerónimo Pizarro estuda a obra de Fernando Pessoa há nove anos
Em casa do investigador pessoano Jerónimo Pizarro não entram objectos pessoanos. É uma regra de sobrevivência. O colombiano precisa de "liberdade de espírito", explica. Fernando Pessoa morreu há quase 75 anos, mas ainda tem o poder de tomar conta da vida de quem se interessa por ele e pela sua obra.

Pizarro chegou a Portugal em 2000, com 23 anos, para estudar Linguística na Universidade Nova de Lisboa. Admirava a obra do autor de "Livro do Desassossego", mas não imaginava passar os nove anos seguintes mergulhado nela. Entretanto fez dois doutoramentos (um em Harvard, nos EUA, outro na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), redigiu dezenas de artigos, editou, coordenou e publicou oito livros, o mais recente esgotado e à espera de nova edição, "Fernando Pessoa: o Guardador de Papéis" (D. Quixote) - tudo sobre Pessoa. Ah, e obteve a dupla nacionalidade.

Em Junho, Pizarro e a sua equipa concluíram o trabalho de digitalização dos mais de mil volumes da biblioteca pessoal do autor guardados na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa. Dentro de poucas semanas o material deverá estar disponível online. "Vamos chegar a um ponto em que qualquer pessoa, em qualquer sítio do mundo, vai ter acesso a toda a obra de Pessoa, menos o que está com particulares: 30 mil papéis e 1200 livros." E também a inúmeros sobressaltos, convém acrescentar. Em vida Pessoa publicou apenas dez por cento da sua obra.

Decifrar pessoa Pode parecer caricato, ridículo até, como as cartas de amor que o tradutor de correspondência comercial escrevia à única paixão que se lhe conhece, Ofélia, a sua "bebé" ou "almofadinha de pregar beijinhos", consoante o dia e o humor, mas uma das maiores dificuldades dos investigadores é decifrar-lhe a caligrafia. Os primeiros pessoanos pegaram nos textos dactilografados, explica Pizarro, que já percorreu todo o espólio mais de uma vez. "É frustrante. As primeiras linhas são relativamente fáceis. Cria-se expectativa. Depois o texto começa a ser mais e mais difícil", diz. "Temos um continente de inéditos."

Entre o material por publicar estão mais de 1500 horóscopos, escritos sobre esoterismo, rosa-cruz, franco-maçonaria, luta livre e muito mais. Dado divertido: na juventude, Pessoa não só fazia ginástica sueca (por indicação do professor Egas Moniz), como se interessava por culturismo. "Foi muito mais do que um poeta", assegura Pizarro. "Foi dramaturgo, escritor de prosa, tanto política como poética, foi astrólogo." A insistência dos liceus portugueses em obras como "Mensagem" está a criar muitas resistências nos estudantes, reforça o especialista. A um principiante recomendaria o poema "Ai, Margarida", de Álvaro de Campos. "Tentaria mostrar o Pessoa que faz troça de si próprio, que cria um diálogo entre muitas pessoas, que se multiplica em heterónimos, que ainda está a ser descoberto."

Inspector quaresma Pouco antes de morrer, Pessoa estava mais interessado em publicar a obra policial que "O Livro do Desassossego". Nenhum dos contos vieram a lume em vida, mas em 2008 Ana Maria Freitas encarregou-se de os editar em "Quaresma, Decifrador" (Assírio e Alvim). O herói: o inspector Quaresma, um médico sedentário e pensativo, que encara os crimes como problemas de matemática.

Só para publicar todos os inéditos Pizarro estima que sejam necessários mais 30 ou 40 anos. Um piscar de olhos, em comparação com o que vem a seguir. "Pessoa deixou com o espólio um labirinto tão grande ou maior que James Joyce com o 'Ulisses'. Quem se interesse por ele estará perdido nesse labirinto pelo menos mais um, dois, três séculos ou mais."


Qual a sua reacção:
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Comentários

Dê a sua opinião