Editorial

O Absolut Sócrates e o Sócrates (sob) reserva

por André Macedo e Inês Cardoso, Publicado em 27 de Outubro de 2009   
Não houve fogo-de-artifício na tomada de posse do governo. A Sócrates faltam votos para falar alto. A Cavaco (agora) falta confiança
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Há cinco anos, na tomada de posse do primeiro mandato, o país teve direito a um shot de Absolut Sócrates. Primeiro-ministro forte e maioritário, alto teor alcoólico, governo zangado e peito feito para declarar guerra às corporações. No discurso inaugural, as farmácias abriram o cortejo de hostilidades, mas foram os professores que acabaram por engolir em seco. O resto da função pública também se viu desalojada, mas com mais carinho e alguma prudência táctica, que se foi refinando com o aproximar das eleições.

Cinco anos depois, Sócrates voltou ao local do crime, o Palácio da Ajuda. O que mudou? Desta vez não foi servido nada que corresse o risco de pegar fogo. O absoluto Sócrates deu lugar a Sócrates minoritário, (sob) reserva, licoroso e digestivo. Decantado pelos anos de governação - mas não desencantado -, o primeiro-ministro falou pouco para o país e não avisou nenhuma corporação do que aí vem. Não falou de professores, juízes ou funcionários públicos. Ninguém se pode ter sentido ameaçado ou receoso. Até as farmácias, alvo fácil e politicamente correcto, escaparam à tentadora colherada de óleo de fígado de bacalhau para ajudar a moralizar a nação.

Sócrates usou várias vezes a palavra "reforma", mas apenas como adereço cénico para aumentar a tensão dramática e compensar a falta de uma narrativa política genuinamente reformista. O guião deste governo é muito diferente do anterior. Reformas são coisa que não se espera. Não há maioria e votos que o permitam. O primeiro-ministro falou no seu tom habitual, é verdade, mas apenas na forma. Na forma até parecia que tinha maioria absoluta. Na substância, a notícia é que não houve notícia. Embora coerente, o primeiro- -ministro esqueceu-se de referir a classe média; e as três ideias-chave anunciadas para a legislatura são na realidade uma só: combate à crise com acento tónico nos subsídios, na justiça social e no apoio aos desfavorecidos. Estado, Estado, Estado. A iniciativa privada foi referida sem entusiasmo: sim, haverá dinheiro para apoiar as empresas e controlar o desemprego - que chegará aos 600 mil -, mas nem um sinal de que a retoma terá de vir do dinheiro não subsidiado.

Cavaco Silva tem outra linha política. Poderia até ter desenvolvido mais a ideia, mas de tudo o que disse sobressaiu a fragilidade que atravessa. O caso das escutas retirou-lhe confiança e músculo. Foi o Cavaco mais contido que já se ouviu até hoje. Nem Absolut, nem licor de amêndoa algarvia: foi água das Pedras para curar a azia que persiste. Apesar de tudo, o constrangimento e o tom excessivamente justificativo e pessoal do presidente - "nunca faltei à palavra", "tenho mantido uma rigorosa imparcialidade" - não caíram mal. Esta versão Cavaco redux é, para já, melhor para o país. A acreditar no discurso, Belém quer voltar a arbitrar o jogo. O campo de batalha será o Parlamento e aí a luta vai ser até ao último quartel. Não para discutir reformas, mas para ver quem chega mais forte às próximas (próximas mesmo) legislativas.

 



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