"O sucesso é para os políticos. Os escritores vivem sempre na medida do seu fracasso"

Publicado em 24 de Outubro de 2009   
João Tordo, filho de Fernando Tordo, ganhou o Prémio Saramago. O amigo Hugo Gonçalves diz que ele contou a notícia com o pudor de quem sai da cama de Jennifer Connely
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João Tordo nasceu em 1975. Foi jornalista, viveu em Londres e Nova Iorque. Publicou o primeiro romance em 2004. ?Três Vidas? é o terceiro livro e ganhou o Prémio Saramago
Entre Nova Iorque pós 11 de Setembro, onde conheci João Tordo, e Penafiel de hoje, há a distância de três livros, oito anos, um prémio literário com o nome de um Nobel e uma clara mudança nos nossos ritmos biológicos - a hora em que o despertador estremeceu, no sábado passado, era a hora em que, tantas vezes, me despedi do João, numa qualquer esquina de Manhattan, esperando que o dinheiro nos bolsos de fim de noite chegasse para a corrida de táxi.

No dia anterior, o João tinha-me ligado para contar que ganhara o Prémio Saramago, com o pudor de quem acabou de sair da cama da Jennifer Connely (actriz que está no seu top três) mas não quer ostentar a felicidade diante dos amigos em jejum sexual: "Pá, desculpa lá, sei que estás doente e tens de levar com uma boa notícia." Se isto fosse um concurso de misses, Tordo também ganhava o prémio Miss Simpatia.

Na madrugada seguinte, meti-me no carro com outros dois amigos comuns. Tínhamos decidido acompanhar o João na entrega do prémio, em Penafiel. Um deles, guionista, foi também parceiro no ofício de empregado de mesa em Nova Iorque. Na viagem, não falámos do João, preferimos o humor da poesia de Maradona - "Que la chupen y sigan chupando" -, a comédia do "Caso Maitê Proença" e a farsa parlamentar de João de Deus Pinheiro.

Se João estivesse no carro, os temas seriam os mesmos. Desde que nos conhecemos que percebi que o João gosta de histórias, de livros (muito), de personagens, mas que tem pouca apetência para sacralizar a literatura. Percebi ainda que é capaz de consumir comédias disparatadas como se comesse Doritos e de chorar com o primeiro romance de Junot Diaz ou obrigar-me a ler o "Detectives Selvagens", de Roberto Bolaño, com a insistência de um traficante de heroína.

Em Nova Iorque, no restaurante Pão!, partilhámos muitos turnos a servir "Little fish from the farm" (sic). Estávamos, por essa altura, a escrever os nossos primeiros romances. O João tinha chegado de Londres, onde produzira uma tese de mestrado sobre o "1984", de Orwell, e mudara-se para Nova Iorque com mais uma desculpa académica - um mestrado em escrita criativa. Cedo percebi que João tinha tanto de académico como de abstémio. Depois do turno da noite, tirávamos os sacos de lixo da cave para o passeio: um exercício de paródia e perspectiva para dois proto-romancistas, tão inquietos com a escrita como ansiosos por beber a primeira Corona da noite. Com a impunidade da testosterona, a literatura facilmente perdia para a disponibilidade da noite e das mulheres nas esplanadas - ainda assim, escrevemos os tais romances de estreia.

Em Penafiel, encontrámos João, nervoso e feliz. E ainda que o amigo guionista, traumatizado pela tragédia urbanística de marquises e construtores civis, tenha dito que "Penafiel é o sítio onde os sonhos vão morrer", o prémio do João indicava o contrário. Estávamos contentes ao ponto de beber cerveja antes do meio-dia. João, agarrado a uma garrafa de água, preocupava-se: "Esqueci-me dos passes de entrada." Até que alguém o avisou que o aniversariante não costuma ser barrado na sua própria festa.

Na cerimónia, o júri explicou a decisão de escolher o romance "As 3 Vidas": "Revela uma evolução significativa no projecto literário [de João Tordo]. É uma obra mais extensa, mais ambiciosa, com mais densidade dramática. Trata-se de um romance onde, entre as histórias e a História, escrever é um espaço de risco, de incerteza e de equilíbrio precário."

Por outras palavras, "As 3 vidas" é uma história - um thriller - sobre um rapaz que habita os anos 80, que aprende a gostar de livros e de miúdas loiras, irresistíveis, trágicas, e que, sem se dar conta, está a ser testemunha dos segredos da História do século XX.

José Saramago, que durante a primeira parte da cerimónia, frágil e encolhido, parecia estar a perguntar-se "o que é que estas pessoas estão a fazer na minha sala de jantar?", activou a sua lucidez num instante: "Não tenho dúvidas que efectivamente gostei [deste livro]. O João mostra dotes de efabulação que não se encontram muito frequentemente, sem nunca perder o pé."

Entrevistar o João ou a sua família - presente na cerimónia e que conheço bem - é mais ou menos como beijar a minha irmã na boca: desconfortável e errado. Mesmo assim, consegui saber, através da sua irmã Joana, que durante a infância o actual Prémio Saramago fazia jornais, que era tímido, estando mais cómodo com os livros do que com os jogadores de râguebi do liceu Pedro Nunes. Ainda hoje, sei que João poderia corar com as palavras de Francisco José Viegas: "Estejam, por favor, atentos a este autor tão discreto como insistente e sólido. João Tordo não escreve por escrever. Tem uma marca de grandeza."

Para ter uma conversa séria com o João sobre o prémio (corremos sempre o risco de acabar a falar do DiMaria ou do Facebook ), tive de entrevistá-lo por email. Na prática, o Prémio Saramago, entregue a escritores com menos de 35 anos, serve para quê? Diz ele, no meu gmail: "Dá uma nova exposição a um público que, à partida, não escolheria comprar os teus livros."

Mas dá também uma ajuda no mercado internacional. E dá guito, certo? Vinte cinco mil euros. "O guito é muito importante para poder escrever sem ter a constante preocupação da conta bancária quase vazia - condição em que eu vivi permanentemente até agora. Mas houve sempre família, houve sempre amigos." E tu, João, que ficaste tão envergonhado ao aparecer dois segundos nos Globos de Ouro, como estás a lidar com esta exposição? "O sucesso é para os políticos. Os escritores vivem sempre na medida exacta do seu fracasso, que, romance após romance, se torna mais notório: cada vez é mais difícil, cada vez é mais pessoal. O sucesso completo significaria que era inútil escrever mais livros."

No final do dia penafidelense, João entrou para o banco de trás do carro. O seu telefone guichava mensagens, a sua perna tremia como a perna de um adolescente que acabou de desapertar um soutien. Falámos sobre os jogos da Taça de Portugal e sobre os momentos cómicos da jornada - as criancinhas de Penafiel a lerem para Saramago como numa cerimónia norte-coreana, a senhora que pensou que eu era o João Tordo - "É parecido com o pai dele [Fernado Tordo]" -, o seu sobrinho que palrou durante toda a cerimónia, o que levou algumas cabeças sérias a olhar para trás, procurando o bebé destruidor da solenidade literária.

João adormeceu embalado pelo relato radiofónico do Benfica e despertou com um resultado de goleada. Era um bom dia para a raça humana dentro daquele carro. E se dúvidas houvesse, o amigo guionista disse: "João, se esta noite sacares uma gaja, é o melhor dia da tua vida."


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