Saúde

Quem tem medo da vacina contra a Gripe A?

por Rute Araújo, Publicado em 23 de Outubro de 2009   
Autoridades dizem que não há nada a temer. Entre a vacina normal e a nova apenas muda o vírus. E isso não chega para a tornar perigosa
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Entre a vacina da gripe normal e a vacina da gripe A, a diferença está apenas no vírus. Contra as muitas dúvidas, reticências e teorias da conspiração, a Autoridade Nacional do Medicamento emitiu ontem um esclarecimento atestando não haver nada a temer. Se a diferença entre a nova imunização e a que é utilizada todos os anos está no vírus, "décadas de experiência sugerem que a inclusão de uma nova estirpe ou a substituição por outra não altera significativamente o perfil de segurança", garante o Infarmed.

A subdirectora da Saúde, Graça Feitas, também desdramatiza. A única alteração está na utilização de um adjuvante (que serve para aumentar a eficácia do produto). "Não estamos a falar de nenhuma substância exótica nem sintética, mas de algo que está presente no corpo humano." O adjuvante é uma espécie de catalisador - como a capacidade de produção dos laboratórios fica aquém das necessidades, este produto ajuda a fazer render as doses. Na vacina encomendada por Portugal, a Pandemrix, "o adjuvante foi testado em ensaios clínicos que incluíram vários milhares de indivíduos", garante o Infarmed.

Vasco Maria, presidente do organismo, sublinha que o benefício supera em muito o risco "que é meramente hipotético". "Estão em causa dois riscos: um real que é o da gripe A e um hipotético e seguramente baixíssimo que é o da existência de efeitos adversos", defende. O benefício é claro para a Direcção-Geral da Saúde - imunizar 30% dos portugueses é um instrumento eficaz para reduzir a taxa de letalidade (número de mortes entre os infectados).

Ao mesmo tempo que os especialistas se apressam a desmontar as teorias da conspiração, vários inquéritos aos profissionais de saúde reforçam as dúvidas. Se quem percebe de medicina não quer a vacina para si, como pode aconselhar aos outros? O pneumologista e director da Faculdade de Medicina do Porto, Agostinho Marques, diz que esta desconfiança não põe em causa o novo produto, porque os profissionais de saúde são sempre avessos a vacinas. Na gripe sazonal, "a taxa de vacinação não chega a metade", mas eles continuam a aconselhá-la. "O número de médicos que se vacina é muito menor do que o número de médicos que passam a receita para a vacina aos seus doentes."

Constantino Sakellarides, director da Escola Nacional de Saúde Pública, defende que é uma questão de tempo. "As primeiras informações científicas são de 10 de Setembro. É muito importante dar espaço às pessoas para formar e consolidar a opinião." Para contrariar as teorias da conspiração, lembra como surgiu esta vacina. "Para além dos argumentos científicos, é importante pensar em quem recomenda e em quem autoriza. A recomendação é da Organização Mundial de Saúde, a autorização é da Agência Europeia do Medicamento e da FDA [americana]. As decisões não são tomadas por uma pessoa, baseiam-se em consultas a um vasto grupo de peritos. Estes organismos foram criados exactamente para isto" - atestar que não há perigo para a saúde pública.

Os efeitos adversos da nova vacina são semelhantes ao da imunização contra a gripe sazonal. Mas, mesmo depois de autorizar, a Agência Europeia do Medicamento (EMEA) vai estar atenta ao que acontece com os vacinados. "Os fabricantes assumiram o compromisso de realizar estudos pós-autorização, incluindo cerca de 9000 indivíduos para cada vacina" existente, lembra o Infarmed. As reacções adversas podem acontecer mas, "pela sua raridade, apenas poderão ser detectadas aquando da utilização em larga escala". Por isso, os médicos são aconselhados a notificar toda e qualquer suspeita nos próximos meses para que se aja de imediato.

A nova teoria sobre o perigo das vacinas surge da Alemanha. O pneumologista Wolfgang Wodarg afirma que é utilizado um nutriente produzido a partir de células cancerígenas de animais e poderá levar a um aumento do número de doentes oncológicos. Antes, outros riscos foram apontados, entre eles o da ocorrência de problemas neurológicos. E têm também vindo a ser recuperadas críticas que circulam há vários anos, como a utilização de mercúrio, associando-o a casos de autismo ou doenças auto-imunes como a artrite reumatóide.


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