Nuclear

Ramalho Eanes. "Impõe-se desdiabolizar o nuclear"

Publicado em 20 de Outubro de 2009   
O antigo Presidente da República defendeu na semana passada, na Figueira da Foz, a reabertura do debate sobre a energia nuclear em Portugal. Em entrevista ao i, Ramalho Eanes explica as suas razões
Ramalho Eanes diz que existe ignorância sobre o lugar do nuclear no universo
O antigo Presidente da República, general Ramalho Eanes, fala ao i sobre o papel do nuclear para solucionar o problema da factura energética portuguesa. E garante que a ignorância e o medo por ela gerado são os motivos que mais contribuem para o adiamento de uma inevitabilidade.

A eventual instalação de uma central nuclear em Portugal seria uma boa opção para diminuir a dependência energética do país?

A dívida externa do país ronda o equivalente a 100% do PIB (em 2008, cerca de 162 mil milhões de euros). Fortemente contributiva para esse estado de endividamento é a balança energética, pelo que corrigir esta situação de dependência é inadiavelmente urgente. Para consegui-lo, há que investir nos diversos tipos de centrais: nas hidroeléctricas (de barragens e maremotrizes e ondomotrizes), nas eólicas, nas fotovoltaicas e nas térmicas, de biomassa, solares e nucleares. Temos, efectivamente, investido em todas, excepto na nuclear. Porém, a construção de centrais hidroeléctricas de represa está prestes a atingir o limite disponível; as centrais maremotrizes e ondomotrizes estão ainda em fase incipiente; a energia eólica exige investimentos elevados e os seus equipamentos sofrem avarias frequentes; e a energia fotovoltaica está ainda num estado inicial de desenvolvimento. A dependência energética de Portugal relativamente ao exterior é insustentável, e a energia nuclear proporcionar-nos-ia uma solução de ajuda "imediata", uma vez que os reactores modernos podem gerar potência eléctrica na ordem dos 1.000 MW.

Em que sentido seria vantajoso para Portugal?

As vantagens são evidentes. Contribuiria para aliviar a nossa dependência energética relativamente ao exterior, e para despenalizar, fortemente, a balança comercial. Permitiria o fomento da nossa engenharia atómica, situação que, além de nos abrir uma nova fileira científica de largo futuro, proporcionar-nos-ia lugares para técnicos altamente qualificados. Viabilizaria que se retomasse a exploração do urânio, proporcionando novos empregos e mais desenvolvimento económico.

O problema da segurança das centrais nucleares também se põe. Pensa que seria seguro?

A vida (a das nações, também) é uma aventura de risco. Há, pois, que assumir esse risco, com informada competência, com verídica justificação e autêntica aceitação nacional. Impõe-se desdiabolizar o nuclear, até pelo seu papel no Universo e na Terra. Adicionalmente, os reactores dispõem, hoje, de mecanismos simples, robustos e seguros, que servem para deter instantaneamente a reacção nuclear. Importante será sublinhar, como diz Manuel Lozano Leya, que um reactor nuclear não pode explodir em nenhuma circunstância, por desastrosa que seja; e, inclusive, se se fundir tudo (como terá acontecido em Chernobil), mesmo nessa situação, a massa crítica da matéria fusionável jamais se alcançaria.

Ainda há algum medo ou preconceito quando se fala em energia nuclear?

Sim, não só receio, como também antipatia, devido à ignorância do lugar que o nuclear tem no universo; ao medo gerado por essa ignorância e pelas notícias simplistas de que a fusão nuclear era como que a antecâmara de um auto-apocalipse; e ainda devido ao eco mediático dos vários ataques atómicos (Nagasaki e Hiroshima) e do desastre atómico de Chernobil. Mas, só se deve temer o que escapa ao nosso controlo. É tempo de nos informarmos, discutirmos e decidirmos. O futuro que queremos só existirá se, no presente, sabiamente, começarmos a construi-lo, com estratégico propósito e trabalho.


Qual a sua reacção:
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Comentários

Dê a sua opinião