"Qualquer estratégia empresarial sólida suporta um aumento salarial de 80 cêntimos por dia"
por Bruno Faria Lopes, Publicado em 19 de Outubro de 2009
Carvalho da Silva, líder da CGTP, reage ao pedido dos patrões para não subir salário mínimo em 2010
A negociação do valor do salário mínimo nacional para 2010 entre sindicatos, confederações patronais e governo, que deverá acontecer até ao final de Novembro, promete ser uma das mais difíceis dos últimos anos - e o primeiro teste para o futuro ministro da Segurança Social e do Trabalho. Os pedidos de congelamento do aumento, vindos dos empresários, já começaram a subir de tom, mas os sindicatos, apoiados por uma presença mais forte da esquerda no Parlamento, nem querem ouvir falar dessa possibilidade.
"O país deve ter vergonha dos empresários que lamentam que não podem subir o salário mínimo 80 cêntimos por dia", afirma ao i Carvalho da Silva. O líder da CGTP, a maior central sindical do país (na esfera do PCP), reage assim ao aviso de Francisco Van Zeller, presidente da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP), que, na sexta-feira à noite, em entrevista ao programa "Diga Lá Excelência", defendeu que "os salários baixos são necessários para 25% das exportações [portuguesas]". "Qualquer estratégia empresarial sólida suporta um aumento do salário mínimo desta magnitude", contrapõe Carvalho da Silva. Para o secretário-geral da CGTP, a subida do salário mínimo "melhora o poder de compra e a procura e ajuda as empresas" - uma posição partilhada, aliás, com a outra confederação sindical, a UGT (na esfera do PS), que expressou também indignação perante a posição da CIP.
Ambas as centrais sindicais propõem 475 euros para o próximo ano, a meio caminho entre os actuais 450 e a meta de 500 euros para 2011, estabelecida no acordo assinado em concertação social em 2006. CGTP e UGT querem também um novo compromisso de subida do salário mínimo, para 600 euros até 2014, uma proposta que aguarda resposta do futuro governo socialista. Do PS, o único compromisso conhecido é subir o salário mínimo no próximo ano - por saber está, contudo, o tamanho do aumento.
Para a CIP e a Confederação do Turismo - onde se destaca a restauração, área em que mais pesa o salário mínimo -, uma nova subida não seria suportável no actual contexto. O peso seria mais alto para muitas microempresas e empresas exportadoras (nos segmentos de baixo valor, como o têxtil e o calçado) e atrasaria a recuperação do emprego pouco qualificado, num cenário de queda da produtividade.
Entre 2007 e 2009, o salário mínimo nacional português registou a segunda maior subida na zona euro (cerca de 12%), atrás apenas da Eslovénia - único país do euro com um salário mais baixo do que o português (à parte da Alemanha, onde não existe).
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