Depois da eliminação no País Basco, Tiago Pires fez-se à estrada e regressou à sua Ericeira. Tem passado os últimos dias a treinar e a preparar-se para a penúltima etapa do circuito mundial, o Rip Curl Pro Search, etapa que todos os anos se realiza numa onda diferente e agpra acabou em Portugal, nos Supertubos de Peniche. Tiago, ou Saca, é um rapaz reservado, tranquilo. Mas conheça o melhor surfista português de sempre, numa manhã de sol, ao lado da mãe e dos amigos num pequeno-almoço antes de mais uma surfada.
Como apareceu o surf?
Comecei a fazer surf porque me obrigaram, o meu irmão mais velho, o Ricardo, o Mica [Amílcar Lourenço, hoje uma das pessoas mais próximas] e mais uns amigos da praia. Costumava passar férias na praia de S. Lourenço, na Ericeira e andava sempre a brincar na água com pranchas de esferovite e de bodyboard, quando tinha seis ou sete anos. Os verões eram passados dentro de água, adorava estar dentro de água e houve um dia em que me disseram: ‘vais começar a fazer surf amanhã’. Torci o nariz mas a primeira vez que apanhei uma onda consegui logo pôr-me em pé. A partir daí esqueci-me completamente do bodyboard e comecei a pensar só no surf.
Ainda tem a sua primeira prancha?
Não consegui guardar a minha primeira prancha, precisei de vendê-la para trocar por outra. O apoio dos meus pais não era muito, o surf era mais uma brincadeira. Depois consegui os primeiros patrocínios, as coisas mudaram, mas a primeira prancha anda por ai. Conseguiram saber do paradeiro dela, um vizinho disse-me que era um miúdo que a tinha. Está a tentar recuperá-la, espero que dê certo.
E se não fosse o irmão e os amigos?
Sem eles nunca teria começado. Sempre fui um bocado a criança protegida, éramos um grupo grande na praia, uns 20, metade fazia surf e metade bodyboard. Virei a mascote, eles tinham todos mais 10 anos do que eu e comecei a ser o protegido. Como sempre tive jeito, começaram a ter alguma fé em mim. Na Ericeira não havia grandes surfistas – havia um ou dois, o Mica ou o Miguel Fortes – e eles fizeram um esforço para fazer nascer um campeão na Ericeira, para a voz da Ericeira começar a aparecer. Sempre tivemos grandes ondas aqui, mas não haviam quase surfistas. Quando comecei a entrar em campeonatos evoluí imenso, gosto de dizer que foi o circuito de esperanças que me agarrou ao surf. Sempre adorei competir em qualquer desporto, na escola era o basquete ou voleibol, cheguei a ser campeão de Lisboa de voleibol pelo meu colégio.
É apegado à mãe?
Quando aos 18 anos o Zé Seabra, o meu agente, apareceu na minha vida e veio com as ideias de ir competir para fora, a minha mãe achou que lhe iam roubar o filho. Depois, como fui tirando bons resultados, as coisas melhoram. O meu pai, que era mais excêntrico, foi aquele que me apoiou mais, desde o início. A minha mãe foi um bocado mais desconfiada, mas começou apoiar-me principalmente depois de o meu pai ter falecido – agora é a minha fã número um, veio viver para ao pé de mim na Ericeira e tem sido fundamental na minha vida. Para além do amor e carinho, organiza-me toda a minha vida, é a base da minha equipa, é ela que trata da parte burocrática, das minhas finanças…
E agora que o surf é a sua vida, o que quer fazer para além disso?
Adorava constituir uma bela família. Hoje em dia tenho muito pouco tempo para estar com a minha família. Não tenho filhos, mas tenho dois sobrinhos e adoro o tempo que passo com eles.. Quanto ao resto, sonho em ser feliz, ter saúde e viver perto da minha família.
Quantos filhos quer ter?
Não sei, três ou quatro. Três parece-me um bom número.
O que o faz sorrir?
Sou uma pessoa muito sorridente, quase tudo.
E o que o preocupa?
O estado de Portugal, o nosso futuro, penso nisso quando vejo os meus sobrinhos a crescerem; depois, a despreocupação das pessoas em relação ao meio ambiente, pensam que vamos ficar aqui neste mundo para sempre e que isto nunca há-de mudar; somos um povo muito inculto nesse sentido. Na Ericeira revolta-me a forma como se tem construído à volta da vila, uma vila muito característica, lindíssima. A Ericeira tem um grande azar que é estar sob a alçada sobre a câmara municipal de Mafra, que não tem cultura de praia, não são pescadores. Em Mafra olham para a Ericeira e só querem ver dinheiro, não sabem o que é morar cá. Fiquei muito feliz agora quando soube que finalmente outro partido tinha ganho as eleições.
Sente-se só nas suas viagens de surf pelo Mundo?
Agora já me sinto muito mais experiente, como pessoa, como homem, já consigo lidar bem com este tipo de solidão. Sinto saudades dos meus sobrinhos.
Tem fama de reservado. Lida bem com as atenções que o perseguem?
Considero-me uma pessoa bastante afável, lido bem com isso. É claro que há limites, há alturas em que não podemos estar, de maneira nenhuma, a perder tempo com as pessoas, porque estou a gastar energia e tenho que me focar em mim mesmo. Consigo definir um limite de aproximação. Às vezes as pessoas não entendem que eu sou uma pessoa e que fico cansado no fim do dia. Mas é assim, adoro sentir o reconhecimento do público, ainda este mês em França estavam portugueses com bandeiras que foram para lá torcer por mim sem me conhecerem. Isso é espectacular. Mas às vezes não dá para agradar toda a gente e por vezes tenho de me distanciar.
Que atletas admira?
Como nunca fui um sobredotado ou um talento fora de série, acho que me identifico mais com atletas lutadores, que apesar de não terem muito talento têm uma garra tão grande que conseguem chegar ao topo. Admiro esse tipo de atletas, por exemplo, o tenista Rafael Nadal ou o Luís Figo, que foi um jogador que sempre trabalhou muito e conseguiu utilizar todo o seu potencial. Prefiro ter essas pessoas como inspiração do que aquelas que nasceram com um talento natural incrível e nem o conseguem explorar ao máximo.
Como o Andy Irons [surfista, um talento agora perdido]?
Sem dúvida. O Andy, apesar de ser um dos meus surfistas preferidos, é ai que ele se encontra agora. Sempre foi uma pessoa um bocado extremista – conheço-o desde os 16, 17 anos – mas muito pura ao mesmo tempo. Há pessoas que constroem uma carreira só porque tem uma imagem óptima, são admirados por isso – são free-surfers e não precisam de competir para ganhar dinheiro. O Andy não tem medo de mostrar o vai dentro dele, nem todos têm a coragem de o fazer, mas depois acho que peca por não ser mais humilde. Com o talento que ele tem já podia estar com seis ou sete títulos mundiais, enquanto apenas conseguiu três. Já há alguns anos que anda numa fase um bocado obscura, o que é uma pena.
Como é a sua relação com o Kelly Slater?
Tenho uma relação bastante superficial com o Kelly. Falamos nos campeonatos e acho que há um respeito mútuo (ele também me respeita) que me deixa contente porque é o meu surfista preferido. Se calhar o que se passou nos nossos confrontos directos [Saca eliminou-o duas vezes] fê-lo ganhar respeito. O Kelly não é uma pessoa fácil, não é muito dado, talvez porque tem muitas pessoas sempre em cima dele. É totalmente diferente do Andy. Às vezes parece que não é 100% honesto, mas não lhe aponto o dedo porque sei o que é ser surfista profissional. Tem muitas pessoas a querer tirar partido, se fosse como o Andy acabava por ceder. No meio dos surfistas, o Kelly não se dá muito connosco, não sei se é bom ou mau, mas no caso dele tem-lhe dado títulos mundiais. Mas falamos perfeitamente.
Falam num heat dentro de água?
Quando estamos dentro de água eu não gosto de falar, mas ele manda uns palpites. É o atleta com mais jogos mentais do circuito mundial, é a maneira dele ser, estuda tudo. É um grande analista, sabe como são os adversários, como reagem em determinadas situações e perante jogos psicológicos. Para ele, o heat começa muito antes de entrarem para dentro de água. Já percebi isso e penso que o heat que fizemos em Bali foi, neste aspecto, determinante. Dizia-me pequenas coisas tipo ‘as ondas estão boas’. Só o facto de ele querer estar a entrar no meu espaço já é uma tentativa de me desconcentrar. Existem também coisas subtis que ele faz como dar umas chapadinhas na água. Quase que me molha. Não me atira água directamente mas chega tocar-me e incomoda-me. Isto é um dos jogos dele e não me deixo envolver. Agora em França quando tivemos aquele segundo heat juntos, fiz uma onda e ele fez logo outra a seguir. Quando estávamos a chegar ao pico, disseram as notas ao microfone e a minha era melhor. Ele atirou logo: ‘Fizeste algum aéreo?’, numa tentativa de me deitar abaixo, e eu, que raramente falo durante os heats, disse ‘quem me dera!’ Não cedo, não dou margem para este tipo de jogos mentais. Para se ganhar nove títulos mundiais, como ele ganhou, tem de haver momentos onde ele teve de ser manhoso. Isso faz parte da alta competição. Ele engana toda a gente. Diz que não vai aos campeonatos porque está lesionado e depois aparece na hora exacta.
Como é o seu dia perfeito?
É surfar com as condições ideais na companhia dos meus amigos, no inverno, porque há menos gente dentro de água na Ericeira, quando as ondas estão grandes. Surfar nos coxos de manhã com maré vazia e depois ao meio do dia ir à pedra branca fazer uns tubos de backside [de costas para a parede da onda] e ao fim do dia, com o por do sol, voltar aos coxos. E à noite ir jantar com os amigos.
E já apanhou a onda perfeita?
Acho que não existe, é um mito. Existem sim uma surfada perfeita, quando tudo sai bem: as ondas estão boas, estou com os meus amigos e passo um bom momento. Isso acontece. Agora, a onda perfeita não existe para um surfista de topo. Vai haver sempre um dia em que vou fazer um tubo mais comprido. A procura continua.
Ainda tem medo dentro de água?
Tenho bastante medo de surfar ondas grandes, quando o mar está maior do que quatro metros começa já a meter algum respeito, mas é um medo que eu gosto de sentir. Não digo que estou super à vontade, porque isso não é verdade mas é um tipo de medo que eu gosto de sentir: a adrenalina sobe ao máximo. São sensações únicas neste desporto e que nos dão gasolina para muito tempo.
E sustos?
No Havai, no ano passado, estava a competir e levei com uma série de ondas grandes na cabeça, parti a prancha lá fora [longe da praia] e vim a levar com ondas até à areia. Fiquei exausto logo no princípio do heat, mas não foi propriamente medo. Susto foi há uns bons anos nos coxos, a praia onde um surfo mais, quando fui apanhado por um set e fui empurrado para falésia de pedras afiadas. Depois tive de ir ao hospital levar uns pontos. Mas, uma vez ultrapassado o obstáculo ele deixa de ser susto e torna-nos mais fortes.
Sente-se o responsável pela definição do surf como desporto nacional?
Sim. Sinto-me responsável por isso, embora não me pese. Sinto-me orgulho por ter entrado para a história no nosso país, por ter aberto uma nova porta, a porta da alta competição. Mas o surf em Portugal é muito mais do que o Tiago Pires, tem outras pessoas. Eu só espero ter deixado um marco positivo.
Que festa ou tradição é essa que criou no Ouriço [discoteca na Ericeira]?
Foi uma brincadeira que começou quando eu ganhei pela primeira vez, em 2005, o campeonato mundial na Ericeira [prova do WQS, circuito de qualificação para a elite onde está agora]. Foi um êxtase para toda a gente, fiz o que sempre quis na vida, ganhar uma etapa em casa à frente dos amigos, ao pé do público português. Nos anos anteriores tinha tido maus resultados porque sentia-me sempre muito nervoso. Mas, em 2005, tudo mudou, foi o ano em que o meu pai morreu e talvez também tenha sido por isso - senti uma energia mais forte, estava mais forte fisicamente e queria dedicar-lhe uma vitória. Foi uma vitória incrível e entretanto, à noite, as coisas animaram-se, começou tudo com um jantar, chegámos à discoteca e os meus amigos entraram numa de que toda a gente tinha que rasgar a t-shirt uns aos outros – t-shirt ou top, homem ou mulher, todos. E passou a ser uma noite tradicional na Ericeira. Em 2006 voltei a ganhar, desde 2007 não ganho mas a festa mantém-se.
Sente a pressão dos portugueses?
As pessoas começaram a pensar que a vitória era minha todos os anos. O surf é muito um jogo psicológico e temos de ser fortes para jogá-lo e em casa as coisas tendem a ficar mais difíceis porque as pessoas querem falar e opinar. Prefiro ser a pessoa que esta atrás, que luta para ganhar e consegue as coisas pelo caminho mais difícil, do que ser a estrela. Mas é normal, o povo português é assim e com o futebol é a mesma coisa. Ficamos em 2º no Europeu, em 4º no mundial, somos apontados como favoritos quando nunca ganhamos nada. Somos um bocado ignorantes e temos tendência a agarrar-nos a coisas mais fúteis para nos satisfazermos.
Para evoluir, treinar, já pensou em ir viver para fora?
Sinceramente não, mas já passei por sítios no mundo em que disse ‘eu vivia aqui’. A Austrália é um país onde me imagino a viver, adoro o estilo de vida saudável, calmo, muito virado para o desporto e para a natureza, onde a vida social é muito importante. As pessoas acabam de trabalhar cedo, têm tempo de ir para a praia, adoram fazer barbecues na rua em sítios oferecidos pelos municípios. O nosso país é uma desorganização pesada mas adoro estar aqui.
Está satisfeito com as alterações no circuito em 2010, por exemplo com o aumento do prize-money?
Continuo a achar que somos muito mal pagos. Hoje a indústria do surf movimenta, penso eu, 400 mil milhões de dólares, as marcas de surf fazem muito dinheiro e nós somos o surf. Sem os atletas, as marcas não vendem e mesmo assim continuam a dar-nos pouco crédito. Continuo a achar muito pouco a pessoa arriscar a vida num campeonato em Teahupoo e, se vencer, ganhar 40 mil dólares.
Vai ganhar pela primeira vez uma etapa do circuito mundial em Peniche?
Peniche vai ser apenas mais um campeonato. Tento encarar a coisa assim, apesar de haver muita euforia à minha volta. As pessoas pensam mais uma vez e como na Ericeira, que o campeonato está ganho só por ser em casa. Vou ter de me resguardar. É um campeonato que está a ser muito falado e que vai ser o maior campeonato da história do surf em Portugal. Fisicamente estou bem preparado e vou tentar preparar-me mentalmente o melhor possível. Viver heat a heat. Porém, claro que adorava dar esta vitória a Portugal e a mim mesmo.




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