Insucesso escolar
Um em cada três alunos em risco de abandonar a escola
por Kátia Catulo, Publicado em 15 de Outubro de 2009
Mais de 20 mil alunos de dez municípios foram inquiridos pela associação EPIS - 30% dos adolescentes revelaram risco de insucesso
Joana reprovou o 7º ano com cinco negativas. Filipa chumbou a três disciplinas do 8º ano e Ana Rita faltou tantas vezes que não conseguiu passar para o 8º ano. As três adolescentes puseram os livros e os professores de lado. Passaram o tempo a conversar durante as aulas, a marcar encontros com os amigos e a dedicar boa parte dos dias aos namorados. As alunas da Escola Básica 2+3 do Bocage, em Setúbal, representam uma parte muito pequena do insucesso escolar em Portugal.
Conhecer quantos adolescentes do 3º ciclo do ensino básico estão em perigo de chumbar foi a proposta lançada pela Associação Empresários pela Inclusão Social (EPIS) a todas as autarquias. Uma dezena de municípios aceitou o desafio e mais de 20 mil estudantes do 7º e 8º ano foram inquiridos, representando 10% do universo nacional (ver caixa de números). As conclusões dos inquéritos permitiram construir um diagnóstico sobre o insucesso escolar em concelhos do litoral, interior, norte e sul do país - um em cada três foi considerado aluno de risco.
Joana, Filipa e Ana Rita estão entre os seis mil alunos que desde o ano lectivo de 2007/08 passaram a ser acompanhados por 88 técnicos de educação formados pela EPIS. Ao fim de dois anos, os resultados são agora divulgados pela associação que juntou mais de 100 empresas para ajudar as crianças que ficam para trás nas escolas: "No ano lectivo 2008/09 houve um aumento de 14% dos alunos que transitaram de ano", conta Ivone Lima Miranda, coordenadora do projecto Rede de Mediadores para o Sucesso Escolar.
As três raparigas de Setúbal fazem parte deste novo grupo de 1000 alunos que subiu o rendimento escolar. Começaram a estudar com Margarida Brandão, a técnica da EPIS que acompanha 44 crianças da Escola do Bocage. Cada uma delas tem um novo método de estudo. Estão atentas nas aulas, resumem as matérias de cada disciplina e cumprem à risca uma tabela com tempo para estar com os amigos, ver televisão, estudar e ainda com horas certas que devem dedicar ao amor. "Aprendemos até a fazer exercícios de relaxamento para não ficarmos nervosas antes dos testes", conta Joana Carvalho, de 14 anos.
Os métodos da mediadora não são muito diferentes das súplicas que pais e professores fazem aos filhos e alunos. O certo é que os conselhos de Margarida Brandão resultaram e a resposta para isso é simples: "O mediador tem a vantagem de não ser nem professor nem pai." E tudo o que os miúdos contam fica em segredo absoluto.
As confissões dos miúdos foram o elemento chave para descobrir as razões do insucesso escolar. "Os factores são semelhantes nas crianças das escolas do interior, litoral, norte ou sul do país", explica Ivone Miranda. Há causas como desemprego, pobreza, famílias desestruturadas, maus tratos infantis ou violência conjugal que não surpreendem os técnicos habituados a lidar com o fenómeno. Mas há outros motivos que apanharam os mediadores desprevenidos. "Cerca de 80% dos alunos diz que o problema não está nos professores e as maiores dificuldades prendem-se com questões de auto-estima."
Dificuldades tão simples como dentes estragados ou obesidade são suficientes para comprometer o rendimento escolar de uma criança. A vergonha é o início de tudo: "A fraca auto-estima fez com que os alunos se isolassem dos colegas e se afastassem da escola." Um problema de visão é outro factor de risco, que as escolas não conseguem detectar no meio de turmas com quase 30 crianças: "Muitas vezes a solução passou por marcar uma consulta de oftalmologia e arranjar um par de óculos para o aluno conseguir ver o que o professor escreve no quadro."
E é por isso que a iniciativa da EPIS tem em conta três vertentes do insucesso escolar - desenvolver a auto-estima e os métodos de estudo do aluno; trabalhar com as famílias sempre que estas representem parte do problema; e ainda encontrar apoio de instituições como centros de saúde, segurança social ou comissão de protecção de jovens em risco de cada município. "Procuramos obter respostas em todas as esferas para que não restem motivos que justifiquem o abandono ou insucesso."
Há dois anos, quando o programa da EPIS entrou na Escola do Bocage, a directora soltou um suspiro: "É mais um recurso com que podemos contar", desabafa Lígia Castelões Figueiredo. Muito mais aliviados ficaram os directores de turma, que têm a seu cargo entre 25 e 28 crianças por ano: "É muito trabalho para um só professor que tem de perceber sozinho o que se passa com cada miúdo." Os casos mais graves são os que têm prioridade e os restantes vão ficando para trás. O projecto da EPIS permitiu libertar o director de turma dos alunos mais problemáticos: "Cada um deles passou a ter um acompanhamento personalizado."
Para Filipa e Ana Rita, o projecto termina no Verão quando concluírem o 9º ano. "Nem quero pensar nesse dia", confidencia Ana Rita. O desabafo está longe de ser um drama: "Antes pensava que sozinha não ia conseguir, mas agora já sei que sou capaz." Melhor do que isso, é saber que a professora Margarida estará por perto. "Todos eles têm o contacto do meu telemóvel, sabem onde está o meu gabinete e podem vir ter comigo sempre que precisarem", conta a mediadora.
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