visto de fora

O caso Polanski

por Bernard Henri-Lévy, Publicado em 13 de Outubro de 2009   
Abusar sexualmente de uma rapariga de 13 anos é, sem dúvida, um crime grave. E o génio artístico do autor de um crime nunca constituiu atenuante
Opções
Polanski com a mulher, a actriz Sharon Tate, em 1969

Roman Polanski poderá ser extraditado para os Estados Unidos, após a sua detenção-surpresa na Suíça, no dia 26 de Setembro. Trata-se de uma pessoa conhecida, o que torna ainda mais premente que se digam duas ou três coisas.
A "relação sexual ilegal" de que Roman Polanski se considerou culpado há 32 anos não é, apesar de tudo, um crime contra a humanidade, como clama quem o perseguiu nos últimos dias. Sim, é um crime. Mas a enormidade de um crime pode medir-se em graus. É um insulto ao bom-senso, um insulto à razão, negá-lo, misturar as coisas, tentar convencer toda a gente de que uma violação é um crime de escala equivalente a, por exemplo, o brutal assassínio de Sharon Tate, a mulher, grávida, de Polanski, ocorrido em 1969. Quem ponha os dois actos no mesmo prato da balança corre o risco de ver Polanski forçado a juntar-se a Charles Manson, arquitecto do assassínio de Sharon Tate, na prisão estadual da Califórnia em que este está a cumprir pena e de onde, a partir de 1 de Janeiro de 2010, poderá, ao contrário de Polanski, sair em liberdade condicional.
Este caso é particularmente desprovido de sentido por a principal queixosa, agora com 45 anos, ter decidido perdoar a Polanski, seguir em frente e, se possível, esquecer. Mas não: estes incansáveis defensores dos direitos da vítima sabem melhor que a própria vítima o que esta quer e sente. Estamos perante pessoas que prefeririam prejudicar a vítima a abandonar a caça, num desejo quase embriagado de ver o castigo ser aplicado. É vergonhoso.

Pode perguntar-se se, no caso de a vítima retirar a queixa, não caberá à sociedade, isto é, ao juiz, tomar conta do assunto? Sim, sem dúvida.

 

De um ponto de vista estritamente jurídico, compete de facto a uma sociedade justa assegurar isso mesmo. No entanto, não seria a primeira nem a última vez que a perspectiva estritamente judicial poria de lado os pedidos de compaixão e a inteligência.
Nunca me abstive de observar que as leis dos Estados Unidos, país que amo, integram costumes e castigos que distorcem o puro ideal democrático.
Será que o estatuto de celebridade de Polanski lhe proporcionou algum tipo de refúgio, como já se ouviu dizer? Não, claro que não. Passei a vida a tentar tirar do esquecimento a injustiça sofrida pelas vítimas sem nome e sem rosto, e teria exactamente o mesmo discurso sobre a situação de Polanski ainda que ele não fosse quem é - com a ressalva de que não teria de estar a defender esta posição. Porque Polanski não teria sido detido. O processo dele teria sido enterrado há anos. A "celebridade" de Roman Polanski não o está a proteger; está a prejudicá-lo. Não se trata de Polanski se estar a esconder por detrás do nome; é precisamente o nome que atrai a atenção sobre a sua pessoa. A presença do realizador no tribunal configurará mais um carnaval político-mediático que um julgamento justo.
O cerne de tudo isto reside na nuvem de "vigilantes" que esconde as verdadeiras questões em apreciação e transforma comentadores, bloguistas e cidadãos em juízes ajuramentados pelo Grande Tribunal da Opinião. Uns avaliam o crime, outros o castigo.
Há uma estranha sensação de ultraje da parte de quem não encontra pecados quando uma pessoa verdadeiramente poderosa persegue a juventude (ah, as escapadelas de Silvio Berlusconi)...
Estas pessoas parecem tornar-se implacáveis só quando têm diante delas uma pessoa como Polanski, que não tem outra arma senão o seu talento. São um tipo bem singular de moralistas - o tipo que retira um prazer maléfico de repetir à exaustão os pormenores deste assunto sórdido para atirarem pedras.
Estes apelos duvidosos à justiça, este linchamento, são, para a ordem pública, muito mais perigosos do que o facto de Roman Polanski continuar em liberdade.
Esta tenacidade da parte dos coscuvilheiros, este desejo de ver a cabeça do artista espetada num chuço são a própria essência da imoralidade.
Das duas uma, meritíssimos. Ou Polanski é um monstro - e nesse caso não deveria ter recebido um Óscar nem um César; devíamos ter-lhe boicotado os filmes; e deveríamos tê-lo entregado às autoridades helvéticas de todas as vezes que passou férias com a família na Suíça -, ou então não é. E se o leitor, como eu, nunca achou deslocada a presença dele nas passadeiras vermelhas dos grandes festivais do mundo inteiro; se achar, como eu, que é uma rematada hipocrisia a dos acusadores que, sequiosos de estrelato, acordaram uma manhã para congeminar um plano sobre a melhor maneira de o entregarem, qual troféu, ao tribunal da condenação pública, então, a exemplo do que fez a vítima dele, temos de fazer um apelo para que seja por fim deixado em paz.

Filósofo, escritor e jornalista



Qual a sua reacção:
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Comentários

Dê a sua opinião