Selecção
Veloso e Malta: "Eram fraquinhos e continuam a ser fraquinhos"
por Pedro Candeias, Publicado em 13 de Outubro de 2009
É possível não ganhar a Malta? É, e o Portugal dos seabrinhas sabe disso. Veloso esteve no empate de 1987 e não acredita em repetições
Foram os tempos do pós-Saltillo. A selecção disputou o acesso ao Euro-1988 com a segunda linha, porque os de primeira ou haviam sido afastados pela Federação ou tinham-se recusado representar Portugal. Com um seleccionador desconhecido e inexperiente, Ruy Seabra, os "seabrinhas" empataram com Malta (2-2), num dos piores resultados da história. António Veloso não se lembra se foi ou não titular. Mas foi. Hoje, fala de "facilitismo contra uma equipa muito inferior. E não acredita que o resultado possa repetir-se, amanhã, no último jogo da campanha de apuramento para o Mundial.
Em 1987, Portugal empatou com Malta a dois golos. Como é que isso foi possível?
O meu amigo diz isso e diz bem. Como é que isso foi possível! Malta era uma equipa bem inferior à nossa e nesses jogos mais fáceis o subconsciente entra em acção. Pensou-se que era fácil ganhar-lhes e as coisas fáceis, às vezes, tornam-se difíceis quando se pensa desta forma. Houve alguma sobranceria na forma como se abordou o encontro. E pronto. Aconteceu. Mas eles eram fraquinhos e continuam a ser fraquinhos. Devíamos ter ganho aquele jogo.
O António Veloso, que jogou nesse jogo...
[interrompe] Ai joguei?
Jogou, jogou. Foi titular.
[risos] Nem me lembro, veja lá. Também já foi há mais de vinte anos. Mas ainda bem que assim é. Prefiro que a minha memória vá apagando as coisas más [risos].
Do que se lembra? Dos golos do Jorge Plácido?
Agora que fala nisso... Sim, do Plácido que marcou dois golos. Foi no Funchal, não foi? E também me lembro do jogo fora [Dezembro de 1987], em que ganhámos à rasca [1-0, golo de Frederico], porque o campo deles não nos favorecia em nada. Aqueles não foram tempos fáceis para a selecção.
E Portugal tinha uma equipa de segunda linha, fraca.
Sim, é verdade. Houve alguns factores que contribuíram para os maus resultados na campanha [Portugal não se apurou para o Euro 88]. É verdade que os jogadores da selecção eram os possíveis [Bento, Carlos Manuel, Diamantino, Jaime Pacheco e João Pinto, entre outros, estavam castigados pela FPF]. Não havia rotinas de treino e nós poucos nos conhecíamos. Mas mesmo assim, devíamos ter ganho.
E Ruy Seabra a seleccionador, surpreendeu-o?
Já se falava que podia ser ele. O primeiro contacto não foi fácil porque ninguém o conhecia do futebol. E havia falta de experiência da parte dele. Foi uma fase difícil para todos nós na selecção [com Ruy Seabra, Portugal fez seis jogos: uma vitória, uma derrota e quatro empates; foi substituído por Juca depois desse empate].
O pós-Saltillo foi complicado para todos. Mas o pré-Saltillo não foi fácil para o António, por causa do caso de doping...
[interrompe outra vez] Que nunca se provou. Nem nunca ninguém esclareceu o que aconteceu. Só eu é que me interessei pelo caso porque sabia estar inocente. O problema é que há muitos interesses no futebol e acabei por não disputar o campeonato do mundo no México--86. A contra-análise provou que não tinha tomado nada.
Quais os interesses de que fala? Houve alguém que se mexeu para que o Veloso não participasse no Mundial?
Quem anda no Mundo do futebol sabe o que se passa. Há interesses vários de clubes, de empresários...
... Os empresários já eram influentes na altura?
Bem, nem tanto na altura, mas agora é evidente. O futebol é muito comercial. Mas a verdade é que para o meu lugar foi logo convocado um jogador [Bandeirinha, do FC Porto] antes de saber-se o resultado da contra-análise. Ninguém esperou que chegasse a confirmação de que estava inocente. Foi difícil para mim, porque perdi ao nível pessoal e desportivo, sempre massacrado por comentários de dopagem. Sofri coisas que não devia ter sofrido.
Havia amadorismo na Federação Portuguesa de Futebol?
Felizmente, as coisas agora estão melhores.
Então e agora? Acredita nesta selecção?
Acredito que Portugal já se devia ter qualificado para Mundial. Tem equipa e valor para isso. Houve dois jogos que correram mal: com a Dinamarca [2-3], em casa, em que francamente jogámos bem mas não soubemos controlar o adversário. E o empate, também em casa, com a Albânia [0-0]. Sabe o que é? É aquela mania portuguesa de facilitar e depois andar a correr atrás dos resultados. Mas acho que vamos conseguir chegar à África do Sul.
Com ou sem o seu filho, Miguel?
[risos] Como pai, quero sempre que o meu filho jogue pelo clube e pela selecção. E é lógico que gostava de vê-lo num campeonato do Mundo.
Esperava que ele tivesse jogado a titular contra a Hungria?
Bom, acho que toda a gente esperava. Muitos me perguntaram: "Então, pá, é verdade que o Miguel vai jogar?" E eu preferi sempre esperar para ver se ele era titular ou não. Tinha essa esperança. Mas o seleccionador já veio explicar a sua opção e temos de respeitar as decisões do treinador.
E quem é melhor? O Veloso pai ou o Veloso filho?
[gargalhada] Bom, ele é muito jovem ainda. O Miguel teve uma vantagem em relação a mim que é o facto de ter tido escola em futebol. Se bem que às vezes isso não quer dizer mesmo nada. O que posso esperar do Miguel? Bem, espero que ele venha a ser tão bom no seu tempo como o pai foi no tempo dele!
E que entre sempre com o pé esquerdo. Porque é por causa do Veloso pai, que era destro, que o Veloso filho é canhoto.
Sim, é verdade [risos]. É por culpa minha que ele se tornou canhoto. Obrigava-o a chutar de pé esquerdo quando era miúdo.
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Artigo: Veloso e Malta: "Eram fraquinhos e continuam a ser fraquinhos"
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