Nobel da Literatura: os fantasmas que Herta Müller venceu

por Joana Stichini Vilela, Publicado em 09 de Outubro de 2009   
Filha de um oficial das SS, viveu 30 anos sob a ditadura de Ceasescu
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Müller não acreditava na vitória:
Um Prémio Nobel da Literatura desperta poucos consensos, mas deste resultaram pelo menos dois. Primeiro: a atribuição do galardão à romeno-alemã de 56 anos, Herta Müller, é "surpreendente", acordaram críticos, tradutores e a própria autora. Da lista de favoritos constavam nomes bem mais sonantes entre nós, como o do norte-americano Philip Roth, o do israelita Amos Oz e até, por razões óbvias, o de António Lobo Antunes.

Segundo: diz quem a conheceu, nas várias vezes que esteve em Portugal, que este é daqueles casos em que obra e mulher são um só. Atributos que encaixam a ambas: "politicamente empenhada", "dura", "fria", "difícil", "marcada pelo passado".



Ceausescu Herta Müller nasceu na Roménia e cresceu sob a ditadura comunista de Nicolae Ceausescu. A família faz parte de uma minoria de romenos--alemães que não regressaram à Alemanha depois do final da Segunda Guerra Mundial. Em 1982 viu o primeiro livro, um conjunto de contos intitulado "Niederungen" (1982), censurado. Pouco depois foi proibida de voltar a publicar por ter criticado o regime. Em 1987 exilou--se em Berlim-Oeste com o marido, o poeta Richard Wagner.

Ontem, quando soube que se tornara a 12.a mulher da história a receber o Nobel da Literatura, revelou-se incrédula: "Agora estou a pensar que quem ganhou não fui eu, foram os livros, e não a minha pessoa, e julgo que é a melhor forma de lidar com a situação." Trata-se, avançou, de um prémio à sua escrita e ao facto de "ter vivido 30 anos sob uma ditadura e ter fugido dela." Ao contrário de outros amigos seus, que não sobreviveram, quis frisar.

"Nos meus livros reflecti sempre sobre como uma mão-cheia de poderosos usurpa um país, a ponto de o país desaparecer e ficar só o Estado", explicou. "Os autores não escolhem os seus temas, são eles que vão ao seu encontro."

Pesadelo nazi As palavras não terão sido exactamente estas, sublinha a especialista em literatura alemã da Universidade Católica Isabel Gil, mas nunca lhes esqueceu o sentido: "Quando caminho pelas cidades europeias sinto o peso da tua presença." Foi Herta Müller quem as proferiu, em 1993, numa conferência em Coimbra. "Quando diz 'tua' refere-se ao pai, que foi das SS", explica a professora. "É aquela sensação de ser filho do carrasco." Outro fantasma.

"Ela é uma pessoa muito marcada", recorda Alexandra Lopes, uma das duas tradutoras da sua obra em português ("A Terra das Ameixas Verdes"), que também a ouviu em Coimbra. "Falava das pessoas que ao viverem a opressão ficam marcadas para toda a vida. Podem recuperar, mas não há regresso ao que eram." Isabel Gil reforça: "Tem uma personalidade-limite. Parece alguém que se sente sempre excêntrica ao sistema. Mesmo estando dentro dele, consegue olhá-lo de fora."

Em Portugal Herta Müller é uma quase desconhecida, não só do grande público mas também de grande parte da crítica portuguesa. Só dois dos seus livros estão traduzidos (ver caixa). A temática não será a mais apelativa, arrisca o crítico João Barrento, que nos anos 90 sugeriu aos Livros Cotovia a tradução de "O Homem É Um Grande Faisão sobre a Terra". "Lembro-me de o ler deliciado numa esplanada em Copenhaga", conta. "A Herta Müller tem uma prosa conseguida, lapidada, cristalina, com ecos de surrealismo."

E difícil, acrescente-se. Tanto de ler como de traduzir. "Não é um texto fluente, como por exemplo o do LeClézio, que ganhou o ano passado", avança Isabel Gil. "É uma obra obsessiva, atormentada." A prosa é concisa, com frases curtas e duras. Müller não só usa e abusa dos regionalismos como inventa termos. "Através da aglutinação de palavras, cria conceitos novos, que dão grande pertinência e profundidade ao texto, dificilmente traduzíveis para português."

A Academia Sueca resumiu a decisão dizendo que Müller "retrata a paisagem dos espoliados com a concentração da poesia e a franqueza da prosa". O crítico José Mario Silva interpreta: "Está em sintonia com a visão humanista implícita, desde as origens, nos critérios de atribuição do prémio."


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