Saúde e Beleza

Contra o botox e as mulheres palito das revistas

Publicado em 03 de Outubro de 2009   
Consumidores devem ser informados quando as imagens são manipuladas ou "retocadas", defendem os legisladores ingleses e franceses
Keira antes do Photoshop. Depois, as curvas ficaram maiores
A beleza falsa deve ser banida da imprensa para não contagiar mulheres e adolescentes que, a todo o custo, perseguem a perfeição. Este é o próximo cavalo de batalha de legisladores franceses e ingleses que pretendem desincentivar o uso do botox e da lipo-aspiração usados pelos manequins profissionais. A proposta é ousada - os anúncios contendo fotografias alteradas de modelos seriam obrigados a conter um desmentido.

"Quando raparigas e mulheres olham para essas fotografias nas revistas, acabam por se sentir infelizes com elas próprias", conta Jo Swinson, deputada britânica do Partido Liberal-Democrata, a terceira maior força partidária que defende a proibição total das imagens alteradas em anúncios dirigidos a crianças com menos de 16 anos.

Em França, na semana passada, Valérie Boyer, legisladora do partido do Presidente Nicolas Sarkozy, apresentou uma proposta de lei semelhante na Assembleia Nacional francesa, a Câmara Baixa do Parlamento. Defendeu que as imagens alteradas estavam a prejudicar a capacidade de as raparigas controlarem os seus próprios destinos. "Fotos desse tipo podem levar as pessoas a acreditarem em realidades que, muitas vezes, não existem", defende.

Nas cidades francesas, onde os cartazes publicitários nas montras das farmácias podem raiar o obsceno, existe uma crescente preocupação com os distúrbios alimentares e muitas raparigas ficam obcecadas com o desejo de emagrecer. Antes disso, Valérie Boyer tinha subscrito uma proposta de lei destinada a banir websites que aparentavam promover a anorexia e a bulimia. Mas essa proposta perdeu ímpeto, depois de ter sido aprovada pela Assembleia Nacional no ano passado. Na sua cruzada para libertar os meios de comunicação de imagens enganadoras, Valérie Boyer quer ir ainda mais longe do que os liberais-democratas britânicos.

A sua proposta exige legendas que funcionariam como uma espécie de aviso colocado nas imagens retocadas de anúncios impressos, bem como nas publicadas para fins editoriais. As multas previstas para quem desrespeite a legislação são de 37500 euros, ou até 50% do custo de um anúncio.

Manipulação Alterar fotografias é considerado eticamente desonesto em muitas redacções, mais isso não impediu que ocorressem casos flagrantes nos meios de comunicação franceses. Em 2007, por exemplo, o "Paris Match", uma revista com boas ligações nos meios políticos, publicou uma fotografia de Sarkozy a fazer canoagem durante umas férias no Novo Hampshire (EUA). A foto do presidente de tronco nu teve direito a uma massagem digital para fazer desaparecer o pneu. Uma revista rival revelou o embuste, publicando imagens do antes e do depois.

Nem todos os casos de retoque são tão evidentes. Mas pequenas melhorias - uma ligeira correcção cromática, uma suavização de textura - são comuns mesmo em fotografias noticiosas, explica Derek Hudson, repórter fotográfico que trabalha em Paris, esclarecendo que "faria um pé de vento" se um editor alguma vez fizesse o mesmo com o seu trabalho. Nas revistas de moda, claro, o retoque é incontornável. "Nunca vi e, provavelmente, ninguém verá uma fotografia de moda sem retoques", assegura Hudson.

No Reino Unido, a presente campanha dos tablóides contra o emprego de mulheres demasiado magras em passagens de modelos e reportagens fotográficas tem sido alimentada por exemplos de fotografias que foram objecto de alterações para adelgaçar as figuras femininas ou famosas do mundo do espectáculo. Um exemplo ilustrativo é uma capa de 2003 da revista "GQ" britânica, em que a actriz Kate Winslet aparece vários tamanhos abaixo do que é na realidade. Alguns editores de revistas, no entanto, dizem que estão a caminhar em direcção oposta, porque os consumidores já não querem ver mulheres-palito.

"Passei os primeiros 10 anos da minha carreira a fazer com que as raparigas parecessem mais magras" - disse recentemente Robin Derrick, director criativo da "Vogue" britânica, ao jornal "The Times"- "E os últimos 10 a fazer com que parecessem mais cheias."

Alertas em vários graus Quanto aos detalhes, até a deputada Jo Swinson reconhece "serem precisos retoques, para fazer uma boa fotografia". Ao abrigo da sua proposta de lei, todas as fotografias de publicidade seriam classificadas, numa escala de um a quatro, consoante o grau de retoque. Um um poderia representar uma simples alteração de luz, por exemplo; um quatro poderia ser um aviso de cirurgia cosmética digital. E a etiqueta teria de explicar as alterações. "Se as pessoas fossem obrigadas a descrever o que tinham alterado, talvez fosse menos provável que as retocassem", diz Jo Swinson.

Ao contrário de Valérie Boyer, Jo Swinson defende que esse sistema poderia ser imposto sem necessidade de legislação. Diz que esperava poder trabalhar através da Advertising Standards Authority, que fiscaliza o conteúdo dos anúncios no Reino Unido, para assim incitar os publicitários a adoptarem a medida. Os liberais-democratas têm estado a tentar pressionar a autoridade das normas e padrões, financiada pelos anunciantes, por meio de um website que incita os consumidores a queixarem-se de exemplos de anúncios obviamente alterados.

Esse website deu destaque a uma campanha lançada este Verão sobre os cosméticos Olay, na qual a modelo Twiggy parece ter sido revestida com a pele de uma mulher mais nova, e um anúncio do perfume Chanel Coco Mademoiselle em que a actriz Keira Knightley apresenta um busto aparentemente ampliado. Keira Knightley já troçou de tais ampliações, vistas nos anúncios de promoção do filme "King Arthur", que protagonizou.

Matt Wilson, porta-voz da Advertising Standards Authority, diz que, das 26 mil queixas feitas pelos consumidores ingleses durante o ano passado, cinco estavam relacionadas com a utilização de aerógrafos. O responsável diz que a agência já tinha instrumentos suficientes para lidar com todo o tipo de anúncios enganadores e não só com os que recorrem aos retoques. "O uso do aerógrafo e demais técnicas de pós-produção em todos os meios de comunicação é uma prática vulgar e vulgarizada", denuncia. "Examinamos cada anúncio segundo o seu mérito próprio, caso a caso", conclui Wilson.

Matt Wilson conta ainda que não se lembra de nenhum caso em que um anúncio com uma fotografia manipulada tenha sido objecto de sanções no Reino Unido. Mas diz que a autoridade das normas e padrões já repreendeu a L'Oréal por publicidade enganosa, relativamente a um anúncio em que a actriz Penélope Cruz promove um produto chamado Telescopic Mascara; ao mesmo tempo que declara que o rímel pode dar a quem o utilize "até 60% de pestanas mais compridas", o anúncio é omisso no pormenor de Penélope Cruz estar a usar pestanas postiças.

Sendo a ilusão e o engano tão omnipresentes, o fotógrafo Hudson está convencido de que as pressões contra as alterações e manipulações não tem o efeito desejado. "Infelizmente, vivemos num mundo retocado", remata o repórter fotográfico.

Exclusivo i

The New York Times



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