televisão

Isto não é bobagem - soltem a parede

Publicado em 24 de Setembro de 2009   
Atirar concorrentes à água resulta. Depois dos Jogos sem Fronteiras, as televisões apostam em programas simples de entretenimento que dão share e são mais baratos
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Diana Chaves
Marco Horácio não tem pescoço, mas tem piada. Diana Chaves usa uns calções curtinhos. No "Salve-se Quem Puder" há seis concorrentes enfiados nuns fatos de spandex - fibra sintética que até os mais torneados usam sem pudor - prontos a fazer as figuras mais ridículas para acabar dentro de água, ou então ganhar umas fantásticas... colunas para PC. O programa em prime time diário na SIC vai prolongar-se até à primeira semana de Outubro. Bobagem? "It's a crazy, crazy night/Having you here right by my side...", um dos desbloqueadores musicais do programa é a resposta na ponta da língua.

A metade do preço de uma novela brasileira, estes formatos são apostas seguras nas grelhas dos canais. Porquê? Os críticos explicam: entretenimento puro, simples e para toda a família, que conseguir agarrar as crianças, donas do comando em tempo de férias. E é moda para durar? " Tivemos resultados muito bons até aos 45 anos, foi um líder destacadíssimo", diz Nuno Santos, director de programas da SIC. Hoje, os números caíram - as novelas e o Gato Fedorento são líderes de audiência -, mas a receita continua.

Em Portugal, a produção contou com o apoio de 80 pessoas. A temporada teve 75 episódios e chegou para bater audiências (ver quadro). Em Junho e Agosto, o share chegou aos 30% e o programa esteve no top cinco dos mais vistos, conseguindo superar os recordistas "Morangos com Açúcar". Na semana passada, só num dia conseguiu chegar aos 10%.

Para Eduardo Cintra Torres, o facto de as "pessoas serem empurradas para dentro de água, uma experiência comum a pessoas de todas as idades e propulsora do riso" é uma boa explicação para o sucesso. Já faz rir pelo menos desde 1996, quando José Figueiras apresentava o "Ai, os Homens". Lembre-se: um júri feminino empurrava rapazes seminus para dentro de uma piscina quando estes não estavam a altura de um verdadeiro Adónis. "Tem outro trunfo que é o Marco Horácio, com experiência de stand-up e teatro, que não dá qualquer importância nem a si nem ao programa; e a Diana Chaves, que se revelou uma boa compère", acrescenta.

Francisco Rui Cádima, especialista em televisão, defende que o formato veio preencher "um espaço que estava ocupado com a monocultura dos concursos da RTP, alguns programas de reportagem e telenovelas. O sucesso tem a ver com o facto de ser um concurso com características lúdicas e competitivas, mais popular e com um público mais jovem e infantil". Mas a televisão funciona por ciclos. "É uma questão de oferta e procura. Tudo depende do sucesso que tiver", diz Cintra Torres."Podemos ter um pequeno ciclo de programas com estas características, pois pode entusiasmar os concorrentes, mas é um formato de Verão", diz Cádima. No toca a entretenimento, no entanto, as novelas continuam a ser o produto preferido, concordam. Depois a comédia, ressalva Cintra Torres. "Veja-se por exemplo o caso dos Gato Fedorento, que também tiveram muito a ganhar depois de terem agarrado as crianças."



Aposta ganha O público delira quando Marco Horácio grita "bobagem". Delira também quando diz "megabob", bobagem ao contrário. Seguem-se seis segundos da música "Tutti Frutti Summer Love", levezinha e pegajosa. Quando alguém diz "sacanagem" entra o tema da personagem Norminha, da novela "Caminho das Índias", o forró "Você não vale nada". Tudo obra de Marco Horácio. Gastam-se assim uns bons minutos do programa de três quartos de hora depois do "Jornal da Noite", agora, na rentrée, depois dos "Ídolos" e dos Gato Fedorento. Entre desbloqueadores musicais e exibições das qualidades mais bizarras dos concorrentes, a palavra de ordem: "Soltem a parede!"

O jogo tem seis rondas em que paredes de esferovite desafiam os participantes a transformarem-se em peças de "tetris humano" - nome de código do gameshow "Hole in the Hall" nascido no Japão e exportado para mais de 40 países. Quando não conseguem, são empurrados para dentro de uma piscina, o que sucede quase sempre. Para Marco Horácio, não há "grande ciência. O formato original já era engraçado. Ver pessoas a cair a levar com coisas em cima é sempre interessante. Depois os concorrentes e famosos que participaram foram sempre disponíveis e dedicados".

Em Portugal, optou-se por programas diários. Os bónus (bóias, raquetes e guarda-chuvas que dificultam as tarefas aos concorrentes) são também invenção nacional. O resto é padronizado, revelou ao i fonte da produtora FremantleMedia. A piscinas têm sempre 1,5 metros de profundidade e há 300 a 400 paredes diferentes. O programa deverá regressar no próximo Verão, antecipa Nuno Santos. "Fizemos uma boa adaptação ao lado mais bem disposto dos portugueses. Depois acertámos na dupla de apresentadores, houve uma química natural".


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