Cinema

Stieg Larsson: O homem que adorava as mulheres

por Joana Stichini Vilela, Publicado em 24 de Setembro de 2009   
A trilogia que vendeu mais de 15 milhões de livros chega hoje às salas de cinema portuguesas
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Lisbeth Salender, heroína de Millennium

Reconheçamos: se a víssemos no metro, afastavamo-nos; se lhe conhecessemos a história, fugíamos sem olhar para trás. Na literatura, a conversa é outra. Aos 20 e poucos anos, 42 quilos de peso, múltiplas tatuagens e maior número ainda de piercings, a detective sociopata Lisbeth Salander acaba de entrar para o panteão dos deuses do policial.

O responsável é Stieg Larsson, o autor que morreu um ano antes da publicação do primeiro dos três volumes que se tornariam um dos maiores fenómenos literários dos últimos anos, a trilogia "Millenium". Aos mais de 15 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo, a saga chega hoje às salas de cinema portuguesas com o filme "Millenium 1 - Os Homens Que Odeiam as Mulheres".

O escritor sueco não era um destes homens. Pelo contrário. De tal forma que, em vez de fazer do seu protagonista, o jornalista Mikael Blomkvist, um herói, tornou-o um pachola. A verdadeira dura é Lisbeth, a hacker de ar andrógino, bissexual e violenta. A mesma mulher que não hesita em imobilizar e amarrar a uma cama o homem que a atacou, para depois lhe tatuar no corpo qualquer coisa como, "Sou um porco sádico, um prevertido e um violador". O requinte vai ao ponto de o avisar. "Fica quieto. É a primeira vez que uso isto". Larsson dizia ter-se inspirado em Pipi das Meias-altas. Irresistível, não?

Para grande parte dos críticos, desejosos de encontrarem a chave do sucesso global de Larsson, Salander é o grande trunfo. Não se encontra na literatura mais ninguém como ela, argumenta o jornal britânico "Telegraph". "Ela é provavelmente a personagem mais original nos livros policiais desde Ripley de Patricia Highsmith", reforça.

ATLÉTICAS, FORTES E BOAS

Num artigo para o "El Pais", o conceituado escritor peruano Mario Vargas Llosa ("Travessuras da Menina Má") reconheceu-se arrebatado pelas 2100 páginas de mistério. "Enquadra-se na mais antiga tradição literária ocidental, a do justiceiro", concluiu. E alongou-se no elogio à galeria de mulheres notáveis, que, argumenta, conquistaram não só a igualdade, mas também a superioridade.

"É difícil não ter sonhos eróticos com Monica Figuerola, a polícia atleta e gigante para quem fazer amor é também um desporto, talvez mais divertido que a aeróbica mas não tanto como o jogging", escreve Vargas Llosa. "E que dizer da directora da revista 'Millenium', Erika Berger, sempre elegante, dextra, justa e sensata em tudo o que faz, as reportagens que encomenda, os jornalistas que promove, os poderosos que enfrenta, e as quecas a que se dedica com o marido e com o amante, equitativamente."

O SANTO
Para surpresa de muitos fãs, há dias o observatório espanhol contra a violência doméstica reconheceu "Millenium" como uma obra contra "a violência do género". A viúva, Eva Gabrielsson, que foi receber o prémio, concordou. O autor sentia a violência contra as mulheres como "um ataque pessoal, um ataque aos seus princípios", disse.

Muito mais do que escritor, Stieg Larsson foi jornalista e activista político. Editava a revista da fundação anti-fascista que criara, a Expo. Dedicava-se a denunciar as poderosas organizações da extrema-direita sueca. E por isso terá sofrido várias ameaças de morte. Quanto aos livros, escrevia-os à noite, para descomprimir. Só com o terceiro já quase concluído - e a intenção de escrever 10 - abordou uma editora.

Quando morreu, aos 50 anos, vítima de um ataque cardíaco fulminante depois de subir seis lances de escadas, até houve quem suspeitasse de envenenamento. "Parece ter sido uma espécie de santo", avançou o editor britânico ao "Telegraph". "Não acredito [que tenha sido envenenado]. Acho que se matou por trabalhar demais. Era obsessivo." Um velho amigo, Graeme Atkinson, descreveu-o ao "The Guardian", como um socialista revolucionário, mas "do género notavelmente generoso e democrático".

FINAL IRÓNICO

Os literários não foram os únicos capítulos que Larsson deixou por fechar. O mais dramático terá sido o da relação com Eva Gabrielsson. Os dois nunca se casaram por temerem pela segurança dela. Agora, de acordo com a lei sueca, a mulher de quem Larsson mais adorou, não tem direito a receber nada pelos direitos dos livros.



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