Entrevista
"É quase indiferente um governo de coligação ou minoritário"
por Ana Suspiro , Publicado em 24 de Setembro de 2009
O ex-ministro de Cavaco diz que seria um absurdo o Presidente dar explicações sobre as suspeitas de escutas, a dois dias das eleições.
Joaquim Ferreira do Amaral, ex-ministro das Obras Públicas de Cavaco Silva, defende que o Presidente da República não deve dar explicações sobre a suspeita das escutas em Belém antes das eleições, porque em vez de esclarecer poderia afectar o discernimento dos eleitores. De Manuela Ferreira Leite, com quem trabalhou no governo e em quem votou para a liderança do PSD, diz que uma das suas maiores qualidades pode transformar-se num defeito (a obstinação). Considera que José Sócrates revelou, como primeiro-ministro, uma "personalidade quase ofensiva" que era desnecessária. Defende ainda que um governo minoritário tem de se esforçar por ser melhor.
Cavaco Silva lidou bem com o caso das escutas ao demitir Fernando Lima sem dar explicações?
Penso que o Presidente tentou afectar a campanha eleitoral, o menos possível, com a demissão do seu assessor. Tudo o que disser agora sobre a matéria será centrar ainda mais o debate numa matéria que é lateral às eleições.
Mas o tema já domina a campanha.
O que há é especulação. A dois dias das eleições seria absurdo vir dar esclarecimentos. Só serviria para dar títulos aos jornais e não ia conseguir esclarecer nada em condições. Penso que matava a campanha e até o discernimento das pessoas para votarem. Mas terá de ser esclarecido porque, se for verdade, afecta a saúde da vida política.
As sondagens dão vantagem ao PS, mas a diferença não permite maioria absoluta. O que seria melhor para o país? Um governo minoritário ou uma coligação?
Acho que é quase indiferente. Há boas experiências de governos minoritários em Portugal. É muito difícil derrubar no Parlamento um governo sem alternativa, porque quem o faz é acusado de criar ruído. Um governo minoritário acaba por ter um à-vontade na governação similar a um maioritário. Há uma vantagem acessória: os governos minoritários têm de se esforçar por ser melhores e isso é muito importante. Quando um governo está bem instalado numa maioria, entra pelo facilitismo.
Recusa a visão de que nada é pior que um governo minoritário?
Julgo que não haverá instabilidade, mas é muito difícil fazer reformismo com governos minoritários. Um governo reformista precisa de ser maioritário. Este governo tentou fazer reformismo e depois parou. Julgo que o próximo governo não virá com ímpetos reformistas.
Qual é a sua apreciação do governo?
Sou crítico em relação ao governo, não por razões partidárias. O governo teve uma maioria absoluta, apoiada pelo Presidente da República, para fazer reformas e mudanças. Ao fim dos quatro anos, deixa uma situação pior do que encontrou em indicadores fundamentais como o emprego, o crescimento e a dívida. O argumento da crise não pode servir de desculpa. Talvez seja injusto, mas a realidade é esta.
E o eleitorado vai fazer essa leitura?
Uma parte vai, por isso é que não vai dar maioria absoluta ao PS. José Sócrates pode queixar-se da crise, mas a realidade que temos perante os nossos olhos de engenheiros é esta: o desemprego está pior, o endividamento está pior, o crescimento está pior. Outra crítica que faço é à própria atitude do primeiro-ministro. Errou na forma como nos quis dar a ideia de que era um homem de decisão que não se desviava do seu rumo. Mas fez isso à custa de uma exibição de personalidade antipática, com ar de quem não perdoa nada. E isso irrita. Não precisava de revelar esta personalidade quase ofensiva. É uma coisa de que as pessoas não gostam.
Quais são os pontos fortes e fracos
de Manuela Ferreira de Leite?
Trabalhei com ela e sei o que vale. É de uma extraordinária seriedade. Estou a falar de seriedade intelectual. Quando está convencida, está convencida e isto dá muita confiança a quem trabalha com ela. É a grande força dela. É inteligente, está muito por dentro dos mecanismos do poder e tem enorme capacidade de trabalho. Se for primeiro-ministro inspirará confiança, independentemente das opções estarem erradas ou não.
Mas tem pontos fracos.
Os pontos fortes mantidos de forma persistente podem tornar-se pontos fracos. Um deles é não ser susceptível de mudar de opinião. É obstinada. E depois de assumir uma visão dos problemas, dificilmente os vê de outra maneira.
E tem uma equipa para governo?
Quando as pessoas são respeitáveis como ela, toda a gente adere. O mais difícil para ela seria começar logo a tentar pôr alguma ordem na economia e esta é uma tarefa hercúlea. Não é pessoa para chegar ao governo e disfarçar.
Já sabemos que é contra o TGV. Mas o que pensa das outras obras públicas?
Há muito subsídio directo às pessoas que distorce a economia. Quando surgiu o problema do desemprego, teria distribuído recursos às câmaras para fazer pequenas obras. Teria sido a maneira mais barata para sustentar a queda do desemprego. O problema mais grave do PS nas obras públicas é a situação financeira do Estado que é insustentável.
Muito do endividamento está associado ao crescimento das parcerias público-privadas. Como a própria Lusoponte a que preside.
Isso não é correcto. A Lusoponte [concessionária das duas travessias do Tejo], vive da receita das portagens. Se um dia desaparecer o tráfego da ponte, o prejuízo é da empresa. Essa confusão levou a que se fizessem obras que não se pagam com as receitas que as empresas obtêm, mas com aquilo que o Estado dá. E isso é criminoso porque correspondeu a fazer obras a crédito, e ainda por cima com o pior crédito do mundo que é o intermediado por empreiteiros.
O PSD defende portagens nas Scut, mas não as introduziu quando pode e agora Manuela Ferreira Leite já recuou...
O PSD tem alguma responsabilidade porque de certo modo continuou as Scut. As Scut foram uma invenção desgraçada da banca, para quem são um bom negócio. E hoje já não há dinheiro para pagar a conta. Mais do que obras, deve reavaliar-se o financiamento. O que é grave no TGV é lançar e não ter dinheiro para o pagar.
Manuela Ferreira Leite fez bem em levantar o papão espanhol a propósito do TGV?
Os interesses espanhóis são evidentes, se bem que legítimos. Há um interesse pouco mencionado que é dos construtores espanhóis. Um grande construtor nacional que tentou fazer uma parceria com um grupo espanhol para o TGV contou que os portugueses queriam fazer a linha até Caia e os espanhóis faziam daí até Madrid. E o espanhol explicou que não: do Caia até Madrid é espanhol. Do Caia até Lisboa é ibérico.
Há um grupo espanhol bem posicionado para ganhar a travessia do Tejo.
Estão convencidos de que vão ganhar muita coisa. E como não têm agora grandes obras, o sonho deles é que Portugal se endivide para lhes dar mercado. Não nos podemos zangar. Temos é de defender bem os nossos interesses. Quando era ministro das Obras Públicas, fui pressionadíssimo para pôr o TGV em Portugal, nomeadamente por França que queria vender tecnologia [comboios]. Respondi: "Percebo que seja o vosso interesse, mas não é o meu." E a conversa acabou.
E o aeroporto?
O aeroporto precisa de ser revisto porque todos os prazos estão desactualizados. Houve uma queda do tráfego aéreo e é preciso rever a situação.
Enquanto ministro lançou o primeiro grande pacote de auto-estradas. Como vê as novas concessões?
Na altura o país estava no grau zero e não podia continuar assim. A aposta teve sucesso e houve seguidores, mas esta política de novos projectos é quase criminosa no estado em que o país está. Está afastado da política. Pensa voltar?
Nunca ninguém sai da política. Acho que já dei o meu contributo. Fiz coisas que se tivesse liberdade não teria feito, como ser candidato a Presidente da República, mas não fechei as portas. Se houver uma oportunidade, uma necessidade, posso ver. Mas não o procuro. É difícil para quem ocupa cargos na economia, porque há problemas de compatibilidade. Estou há muitos anos na Semapa e acompanhei a privatização da Portucel, que foi um sucesso. Aliás, não consigo compreender porque é que as privatizações pararam.
Na campanha só se fala de nacionalizações [Bloco de Esquerda]...
O que é extraordinário, porque as privatizações são uma história de êxito. No meu ponto de vista, pararam por razões ideológicas. Quando o PS começou a ter dificuldades com a esquerda teve de começar a fazer concessões ideológicas.
Que privatizações defende?
A situação das empresas de transportes é insustentável, continuam a endividar--se e a ter gestão de empresa pública, com algumas excepções. A privatização das grandes empresas de transportes e da TAP deve estar em cima da mesa. A TAP vai falir se continuar assim. Eu não dormia descansado com o problema da TAP para resolver à minha frente.
Santana Lopes foi uma boa escolha para a Câmara de Lisboa depois do que aconteceu enquanto primeiro- -ministro?
Correu muito mal, mas metade da responsabilidade não foi dele. Na minha opinião, o Presidente da República foi premeditado no que fez, acho que deu uma machadada no prestígio do cargo. Não deitou logo abaixo o governo, esperou que o PS encontrasse um líder. Quando o governo já estava a funcionar normalmente, se bem que com algumas asneiras, deitou-o abaixo. E porquê? Porque sim. Não tinha razões objectivas para o fazer. O que havia era uma sensação clara do Presidente que era uma oportunidade de pôr o PS no governo. Criou um precedente tremendo. Porque um futuro presidente que queira derrubar um governo poderá ser tentado a fazê- -lo se as sondagens forem negativas.
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