A portuguesa com jogo de cintura para os árabes - vídeo

por André Rito, Publicado em 19 de Setembro de 2009   
Joana Martins foi para o Egipto há três anos. Hoje é uma diva da dança do ventre
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Fez o conservatório de dança, estudou teatro e trabalhou na televisão. Aos 25 anos, a carreira de actriz parecia ganhar forma. Até que se cruzou acidentalmente com a dança oriental, também conhecida como dança do ventre. Hoje, três anos depois, Joana Martins vive no Cairo, adoptou um nome árabe, e é das bailarinas mais famosas do Egipto.

"Nunca tive nenhum interesse especial pela cultura árabe. Até porque em Portugal há uma enorme ignorância em relação ao mundo islâmico", começa por explicar Joana Saahirah, nome que adoptou pouco depois de emigrar para o Egipto, em 2006. Antes disso, esta portuguesa nascida em Lisboa fez um pouco de tudo: do palco à televisão, passando pelo ballet clássico e canto.

Há oito anos, a curiosidade levou-a a experimentar uma aula de danças orientais, no Festival Andanças. Nascia assim uma paixão que dura até aos dias de hoje. "Foi algo que surgiu totalmente por acaso, mas com que me identifiquei profundamente", justifica a bailarina. "Há coisas que não se ensinam, e, de certa forma, acho que este tipo de linguagem corporal é uma coisa inata em mim."

Jogo de cintura Antes de emigrar, Joana viveu um ano intenso entre Madrid e Nova Iorque, onde foi aperfeiçoando a técnica. Pelo meio fez uma incursão ao Cairo e participou num festival internacional dedicado à dança do ventre. Terá sido aí que o desejo de se mudar começou a desenhar-se, mas foi depois de um espectáculo em Portugal que se virou para a mãe e disse: "Vou viver para o Cairo."

"Foi uma decisão tomada às escuras, não conhecia ninguém, muito menos o mercado da dança local. Mas para mim fazia todo o sentido", recorda. Pouco depois de chegar, a bailarina começou a actuar com grupos de folclore egípcios, enquanto vivia numa casa alugada com um visto de turista. Apesar da lei local proibir a actuação a solo de bailarinas estrangeiras, trabalho nunca faltou lhe faltou: fez videoclips e dançou com vários grupos. O sonho de ter uma orquestra a tocar para si ficaria para mais tarde. Por agora era importante sobreviver, tarefa quase estóica para uma mulher estrangeira, "sem marido a sustentar, nem família por perto".

"Numa sociedade árabe, num país como o Egipto, uma dançarina estrangeira é um isco", garante. Por outro lado, "isso também fez disparar o meu instinto de sobrevivência: aprendi árabe em menos de um ano. E a ser o mais discreta possível".

A discrição de Joana não contempla os véus tradicionais que as mulheres muçulmanas utilizam para esconder a pele, mas obriga-a a um jogo de cintura diário, quase tão apurado como a sua técnica para a dança oriental. "Encontrei um meio termo, não me visto como em Portugal, mas procuro usar roupas que evitem o assédio constante", explica. A tarefa não é fácil, e a adaptação ao mundo islâmico já lhe trouxe alguns dissabores: chegou a ser presa em Oman por mandar calar um taxista e foi "censurada" por beber um batido de morango em pleno ramadão, durante o período de jejum. "Houve uma altura em que era um sacrifício sair de casa, só mesmo para trabalhar."

A patroa estrangeira Em menos de três anos, Joana Bellydance, como também é chamada, passou de desconhecida a uma das mais respeitadas bailarinas do Cairo. Hoje tem uma equipa de quase vinte pessoas e realizou finalmente o seu sonho de ter uma orquestra a tocar exclusivamente para ela. O segredo dela não passa, no entanto, por concessões ao mundo árabe. Muito pelo contrário: "Ser uma bailarina é estar nos antípodas daquilo que deve ser uma mulher no Islão. Não apenas porque me exponho fisicamente, mas porque trabalho e sou a patroa. E isso é a inversão total dos valores muçulmanos."

Tal como é o ajeitar das gravatas dos músicos antes de cada espectáculo, ou não permitir que algum homem do seu staff apareça com a barba por fazer. E eles, como reagem? "Há um grande conflito interior: por um lado estão numa actividade considerada haram [ilícita, segundo as leis do profeta Maomé], por outro a sobrevivência depende muito do trabalho. E numa sociedade que atravessa imensas dificuldades económicas o alimento para a família fala sempre mais alto."

Não foi o que aconteceu com o seu motorista, despedido recentemente por recusar trabalhar no Ramadão: "Fiquei agarrada. Tudo porque a hora do trabalho coincidia com a hora em que se quebrava o jejum."

Dançar no Nilo O dia-a-dia de Joana no Cairo divide-se entre as aulas de dança- que dá num estúdio em sua casa - e o trabalho. Actualmente, apresenta-se todas as noites num cruzeiro pelo Nilo, propriedade do Hotel Mariot. A pressão é constante e não há lugares cativos. "No Cairo parte-se do princípio que uma estrangeira não sabe dançar como uma egípcia, estamos constantemente a ser postas à prova." Não apenas pelas centenas de bailarinas locais, como pelas estrangeiras que todos os dias chegam à capital à procura de uma oportunidade.

Com uma personalidade vincada, e a transpirar confiança por todos os poros, Joana está hoje altamente cotada no mercado egípcio. "Agora sim, começo a ganhar bem, tenho uma casa a acabar de construir, e viajo bastante em trabalho." Voltar a Portugal? "Cá não há mercado."

Quer aprender dança oriental? Vá a www.joanabellydance.com e marque uma aula com Joana Martins enquanto ela está em Portugal


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