Pressões políticas

Administrador da TVI votou contra fim do jornal da Manuela

por Adriano Nobre , Publicado em 04 de Setembro de 2009   
O administrador-delegado da TVI discordou da decisão da Prisa. Mas o accionista espanhol não recuou
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Acabou. Os 1,2 milhões de telespectadores que acompanhavam as edições de sexta-feira do Jornal Nacional da TVI não voltarão a ouvir a frase "Boa noite, eu sou a Manuela Moura Guedes e este é o Jornal Nacional". Uma decisão editorial, argumenta o grupo espanhol Prisa, dono da TVI. Mas a poucas semanas das eleições legislativas o tema transformou-se de imediato em facto político. E pode assumir contornos problemáticos para José Sócrates, que há cinco meses acusou este noticiário de "jornalismo travestido" e de "caça ao homem".

De acordo com as informações recolhidas pelo i, a suspensão do noticiário apresentado por Manuela Moura Guedes teve decisão com sotaque exclusivamente castelhano: o administrador-delegado da Media Capital, Bernardo Bairrão, não concordou e bateu-se pela continuidade do formato, cujo regresso estava agendado para esta noite. "O Bernardo Bairrão foi a única pessoa que veio falar comigo, para dizer-me que tinha pena e que lutou pela continuidade do programa", confirmou Manuela Moura Guedes ao i.

O atraso na emissão dos spots de promoção deste noticiário foi o primeiro indicador de que a administração da Prisa estaria a ponderar suspender o noticiário. Na noite de quarta-feira, Bairrão terá confidenciado aos elementos da direcção de informação da TVI a sua apreensão. E circularam os primeiros rumores sobre a intransigência espanhola: o administrador Manuel Polanco ameaçou vir de imediato a Lisboa se não fosse formalizada a suspensão do noticiário. Ontem, chegou a confirmação oficial: Moura Guedes saía do ar. Acto contínuo, toda a direcção de informação apresentou a sua demissão em solidariedade e em protesto contra o que considerou ser uma ingerência editorial.

A repercussão destes acontecimentos teve poucas reacções oficiais: a administração da Media Capital confirmou apenas ter recebido os pedidos de demissão do director de informação, João Maia Abreu, do director-adjunto, Mário Moura e da subdirectora, Moura Guedes.

Além do final do noticiário, a administração da TVI confirmou apenas que "João Maia Abreu aceitou manter-se interinamente em funções até ser nomeada uma nova direcção de informação". Mais tarde, e "face às especulações que surgiram" sobre as motivações da Prisa para suspender o programa, a Media Capital emitiu novo comunicado a garantir "o respeito pela liberdade de expressão, independência, rigor e profissionalismo" da sua informação.

Por explicar ficou o racional de negócio da suspensão do noticiário mais visto da TVI: contactada pelo i, a administração da Prisa disse que "não há mais informações a prestar" e remeteu esclarecimentos para a Media Capital. Mas a Media Capital não esclareceu. Nem negou que na base da decisão possam ter estado as três peças que o noticiário hoje iria emitir sobre o caso Freeport. O mesmo caso que gerou as críticas de Sócrates.

Facto político Um "escândalo do ponto de vista político, empresarial e da liberdade de informação", criticou o ex-director-geral da TVI, José Eduardo Moniz. "Absolutamente inaceitável", reclamou o presidente do regulador dos media, Azeredo Lopes, lamentando o timing da suspensão do noticiário, pela sua "objectiva interferência no processo eleitoral", e anunciando a abertura de um inquérito a esta decisão. "É difícil perceber a inteligência desta decisão", disse o comentador da TVI, Miguel Sousa Tavares. Vasco Pulido Valente foi mais longe: cancelou a sua colaboração com a TVI. "Este é um acto que não se pode praticar a um mês de eleições", disse ao i.

As reacções surgiram de todos os quadrantes. Mas numa altura em que o PSD acusa o PS de provocar "uma asfixia democrática" no país, a "decisão editorial" da Prisa teve sobretudo impacto político. E um destinatário comum nas críticas: "Temos um governo que convive mal com a liberdade de imprensa. Portugal e a democracia estão de luto", acusou o vice-presidente do PSD, Aguiar Branco. "É um acto de censura, um acto socialista, com um aliado socialista que é a Prisa", defendeu Paulo Portas. PCP e BE também apontaram baterias ao PS.

Sócrates teve de reagir: "Nem eu, nem o PS, temos qualquer coisa a ver com esta decisão. São absolutamente injustas as acusações que estão a fazer sobre essa pretensa influência na administração da TVI", defendeu, acusando a oposição de estar "a fazer uma campanha de calúnias". "O vice-presidente do PSD não pode julgar-me à sua medida", disse, recordando o afastamento de Marcelo Rebelo de Sousa da TVI durante o governo PSD.

Sobre as críticas que lançou ao noticiário de Moura Guedes, Sócrates diz agora que teve "legitimidade" para fazê-las. A mesma legitimidade que reclama agora para "pedir explicações" sobre esta decisão. "Queremos que a Prisa explique. Faço esse pedido com a autoridade moral de quem foi vítima do jornal", apontou Sócrates, que não escondeu a sua preocupação face às possíveis consequências políticas desta decisão. "O PS não pode pagar por isto. Não quero a mínima suspeita".


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