Eleições

Pode ser bom perder as eleições. Saiba porquê

por Ana Sá Lopes, Publicado em 03 de Setembro de 2009   
"Se a família política de Cavaco ganhar as eleições isso prejudica a reeleição do Presidente", diz o dirigente do PS, o soarista Vítor Ramalho
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Vida tão estranha: perder as próximas eleições pode significar ganhar, a prazo, com maioria absoluta. A vitória do PS tende a favorecer a reeleição de Cavaco Silva, assim como a vitória do PSD estimula que em 2011 venha a ser eleito um candidato presidencial de esquerda. Confuso? Um bocado, mas a um mês das legislativas é desta realpolitik que se fala nos bastidores do PS e do PSD. Tempos interessantes.

O dirigente do PS Vítor Ramalho assume sem complexos que a vitória do PSD pode ser negativa para Cavaco Silva. "Se o PSD ganhar as eleições, tenho a certeza de que vai prejudicar a reeleição de Cavaco Silva."

Para o presidente da Federação de Setúbal do PS, o próximo governo tem que governar "num período de tremenda crise, com uma situação financeira e económica gravíssima". Vítor Ramalho é economista e afirma ter a certeza de que "as consequências da crise vão sentir-se mais do que neste momento": "A crise não acabou. O próximo governo vai sofrer um desgaste sério, qualquer que ele seja." Com a agravante de não haver maiorias absolutas à vista: mesmo uma maioria natural PSD/CDS parece a Vítor Ramalho um cenário "remoto".

"Cavaco Silva sofrerá o mesmo desgaste que o governo, porque um governo liderado por Manuela Ferreira Leite pertence à família íntima do Presidente da República", sustenta o dirigente do PS. Na mesma linha de raciocínio, uma vitória do PSD com uma esquerda maioritária no Parlamento, mas liberta dos constrangimentos de ser governo num momento de crise, abre a porta a uma candidatura triunfal de esquerda nas presidenciais.

Na opinião de Vítor Ramalho, desde sempre "soarista", esse candidato não será necessariamente Manuel Alegre. "Pode haver muitos candidatos que façam o pleno da esquerda, mas é difícil que um deles seja Manuel Alegre. O candidato que pode unir a esquerda não poderá ser nenhuma figura cuja ligação a uma parte da esquerda seja mais profunda do que à outra parte", considera Ramalho, considerando que a aproximação de Manuel Alegre ao Bloco de Esquerda, rival directo do PCP, pode ter alienado o apoio oficial dos comunistas.

Vítor Ramalho diz em voz alta o que muitos, mesmo dentro do PSD, afirmam em voz baixa. A menos que seja possível constituir um bloco central perfeito - o que está longe de estar adquirido - uma vitória do PSD sem maioria pode não servir os interesses da reeleição de Cavaco Silva, por muito que o Presidente da República não goste de José Sócrates e as relações entre os dois tenham atingido o ponto zero, desde a acusação de Cavaco ao PS de "falta de lealdade" a propósito do Estatuto dos Açores.

Dois anos de governo Marcelo Rebelo de Sousa lançou para o debate político a iminência de um governo de curta duração, quando, em reacção ao programa do PSD, afirmou que o texto era bom para estas eleições "e também para daqui a dois anos". Mas ontem o maior adversário interno de Manuela Ferreira Leite, Pedro Passos Coelho, veio considerar esta ideia "fantasista e falaciosa", lembrando que a história (Cavaco Silva 1985-1987) não se repete e que sonhar que um governo minoritário se pode transformar, daqui a dois anos, em governo maioritário é um erro.

Segundo Pedro Passos Coelho, ganhar as eleições sem maioria não é favorável, a prazo, ao PSD, porque terá de combater uma crise sem apoio parlamentar que o tornará impopular e derrotável a breve trecho. "Deixemo-nos de romantismos serôdios. Tal situação não tem nada de muito desejável nem de particularmente virtuoso, quer para o PSD, quer para o país."

Resta dizer que, inversamente, a eleição em Setembro de um Sócrates fragilizado, sem maioria absoluta, é o melhor que pode acontecer a Cavaco. O Presidente aumentará de forma exponencial os seus poderes, o que favorece a sua reeleição em 2011. E nessa altura, com Sócrates desgastado até ao tutano, talvez o país esteja pronto para receber o PSD com maioria absoluta. É neste cenário que "trabalham" muitos social-democratas que sonham substituir Ferreira Leite.


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