Investigação

Inteligência artificial: o computador é capaz de ter moral

Publicado em 02 de Setembro de 2009   
Cientista português, sobrinho do lendário professor Moniz Pereira, desenvolve investigação inédita
Computadores também conseguem ter moral
O filósofo René Descartes, fundador da filosofia moderna, dizia que "a razão é um instrumento universal que pode ser usado em toda a espécie de situações". Em Portugal, existe um investigador do Centro de Inteligência Artificial da Universidade Nova de Lisboa (CENTRIA) que acredita nessa mesma lógica. E vai mais longe. A razão é tão universal que, um dia, os robôs terão, além da capacidade de raciocínio do homem, sentimentos e até moral. Luís Moniz Pereira decidiu investigar essa característica dos seres humanos e o seu último trabalho acaba de ser publicado no "International Journal of Reasoning-Based Intelligent Systems".

Dar livre-arbítrio ao computador era a ambição inicial do cientista português. Mas como se põe uma máquina a pensar com ética? Primeiro, Moniz Pereira programou 12 dilemas morais. "Testes clássicos com mais de 40 anos aceites pela comunidade de psicólogos" tirados directamente do livro "Moral Minds" de Marc Hauser, professor de psicologia da Universidade de Harvard, explica o investigador. Após programar possíveis decisões e resultados lógicos no computador, a máquina fez as suas escolhas. Resultado? O computador deu as mesmas respostas que um ser humano daria. No futuro, nada impede que um robô tenha moral.

Com as novas técnicas de programação que o investigador desvendou com o estudante indonésio Ari Saptawijaya, abriram-se as portas para estudar situações mais complexas. "Mostrámos que é possível simular o raciocínio humano e a moral num computador", conclui Moniz Pereira. Nesta área da inteligência artificial - a moral computacional -, "o robô analisa futuros possíveis e toma decisões, tendo em conta as suas consequências", acrescenta.

Um dia, máquinas programadas com fundamentos da moral humana vão ser capazes de tomar decisões autónomas. Irrealista? "De todo", responde Moniz Pereira. "A moral é um fenómeno natural como qualquer outro, e, por isso, passível de ser estudado em laboratório. Dentro de 30 a 40 anos será vulgar". A tese é uma resposta à tese criacionista. "A moral nasceu com a evolução, não é criação de Deus. É tão darwinista como os órgãos do nosso corpo", defende o cientista.

No mundo futuro de Moniz Pereira há lugar para cérebros artificiais.

Mais objectivos que homens A investigação em inteligência artificial em Portugal é vasta, mas a área da moral computacional é recente. Moniz Pereira estuda-a há três anos. "Quando começamos a ter robôs mais autónomos, a movimentar-se em situações imprevisíveis, temos de lhes dar regras de comportamento gerais". A evolução tecnológica leva a que o homem esteja cada vez mais dependente do computador. É o caso da exploração do espaço ou do fundo marinho, situações em que as máquinas não têm possibilidade de comunicar com os seres humanos e têm de decidir sozinhas e com rapidez. Os robôs podem até ser mais objectivos que o homem, uma vez que têm maior capacidade de memória e poder de cálculo, diz Moniz Pereira.

Mas vão os computadores superar a inteligência humana? "Os homens não vão ser mais inteligentes que as máquinas e vice-versa. A inteligência de ambos irá evoluir em conjunto", acredita Moniz Pereira. Mas, se isso acontecer, significa que o homem "conseguiu atingir níveis mais vastos de complexidade": as limitações do computador são as dos homens.

Para Moniz Pereira, tudo o que o homem é capaz de fazer, o computador também fará. "A ideia de que só o ser humano pode ter espírito, alma e outras características humanas é uma ideia antropocêntrica que está a prejudicar o progresso científico", admite. E a religião aproveita o senso comum para ser melhor aceite - acusa.

"Ao evoluir, o robô há-de seguir o caminho que nós seguimos". Se a ideia assusta, é porque "desconfiámos de nos próprios!"

A máquina pensa, a máquina aprende, tem consciência e até já mente. E se um dia perdemos o controlo do nosso duplo artificial? "Mania dos humanos", responde o cientista que já recebeu um doutoramento Honoris Causa da Universidade de Dresden: "A nossa condição natural é não controlar tudo. A crise dos mercados financeiros provou isso."

"O nosso conhecimento só cresce porque estamos rodeados de desconhecido e o computador é um instrumento amigo e útil, que nos permite conhecer-nos melhor e resolver problemas", refere o cientista. O medo de que a criatura se revolte contra o criador vem da noção de o próprio ser humano já o ter feito.

"Desde que fomos expulsos do paraíso e resolvemos gerir o nosso futuro, perdemos o controlo. Tanto que a evolução da espécie humana tem sido uma sucessão de guerras e tecnologia que fica fora do controlo, como aconteceu na central nuclear de Tchernobyl". "É o preço da liberdade", remata o cientista.

"Há coisas que estão para além do nosso controlo e imaginação. Não discutimos se devíamos ter criado a internet, pois não?".

A robótica inteligente está na moda e continuará a estar: "Os problemas do conhecimento e da tecnologia resolvem-se com mais conhecimento e mais tecnologia", conclui o investigador.


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