Tapetes de Arraiolos made in China matam tradição

Publicado em 27 de Agosto de 2009   
Não precisa de ser uma fada do lar para ver a diferença: Arraiolos que parece ponto cruz feito com lã não teve mão de tapeteira. A certificação está para sair há seis anos
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Se o metro quadrado de Arraiolos custar menos de 200 euros é razão para desconfiar
Arraiolos são os tapetes. A associação é automática e - excepção feita ao castelo circular - era por eles que antes se rumava à vila do Alto Alentejo. Um passeio pelas ruas do centro chega para perceber as queixas da cooperativa e do recém-criado Centro de Apoio às Tapeteiras de Arraiolos (CATA). Há muito que a tradição - que bordou o primeiro tapete no século XVI - deixou de ser levada a sério por fabricantes e compradores. Até no berço dos Arraiolos já se vendem tapetes feitos à máquina.

A prova está ao alcance de qualquer leigo, explicou ao i a Fraternidade Cooperativa de Artesanato de Tapetes de Arraiolos (Fracoop). Nos pontos enviesados, o tapete de Arraiolos é muito mais do que uma tela de ponto cruz, em que o bordado parece uma construção quadradinho a quadradinho. A lã dobra-se entre os buracos da tela, com uma destreza que não é fácil quando as máquinas substituem as tapeteiras. Segundo esta regra, os tapetes na montra da Casa Quintão, mesmo no centro de Arraiolos, são alguns dos que accionam o alarme. Para a cooperativa, o problema não é haver tapetes ditos de Arraiolos feitos em linha de montagem, mas o facto de há anos se estar à espera de uma certificação que distinga os verdadeiros dos "outros".

É uma espera de quase seis anos. A lei que cria o Centro para a Promoção e Valorização do Tapete de Arraiolos - e foi aprovada no início de 2002 - está por pôr em prática desde Novembro de 2003. A troca de faxes entre a Câmara Municipal de Arraiolos e o Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social é reveladora. Os estatutos que abriam portas à certificação do produto regional foram entregues para aprovação em Novembro de 2003. Não houve resposta. "A situação que o sector atravessa é já de si suficientemente grave para demoras desta natureza. Diariamente, o mercado é inundado com falsos produtos que, em concorrência desleal, põem em causa a economia local, regional e nacional, comprometendo o futuro de um património histórico", lê-se num documento de Março de 2004. APTACA e PROTAR, as associações de produtores que assinam o faxe, entretanto desapareceram.

Made in China Ninguém diz quem vende os tapetes feitos no estrangeiro, apenas que são concorrência ilegítima. Serem "baratos de mais" e não passarem a prova dos pontos na diagonal são algumas das pistas.

O i lançou-se numa pesquisa de mercado e encontrou uma empresa sedeada em Hefei, a chinesa Anhui Native, com "Arraiolos" no catálogo. Outra fabricante chinesa, a Beijing Silver Stone, respondeu ao pedido de informações por email esclarecendo que basta enviar a fotografia do tapete de Arraiolos desejado para ter um orçamento. Sem obstáculos ou complicações.

Origens "Há tapetes que vêm da China e do Brasil. Há clientes que falam de tapetes a 160 euros o metro quadrado, o que é impossível", diz Avelino Pé-Leve, sócio fundador do Centro de Apoio às Tapeteiras de Arraiolos (CATA). Na Fracoop o sentimento é o mesmo: a 210 euros, preço mínimo praticado, "já não se ganha praticamente nada. Não cobramos mais, mas os preços das lãs e das telas aumentaram razoavelmente", dizem. Segundo as regras do CATA, o metro quadrado não pode baixar dos 240 euros.

A crise abalou o sector mas a óbvia necessidade de manter a tradição e garantir direitos às tapeteiras levou a associação sem fins lucrativos a desenvolver um certificado de origem com um selo de controlo por tapete para despistar imitações. Apenas duas empresas e 51 tapeteiras aderiram, lamenta Avelino Pé-Leve.

Se para a cooperativa a lei pode recuperar o sector, o fundador do CATA considera que a sua aplicação vai piorar as coisas. A política da associação é que só sejam credenciadas tapeteiras e fabricantes sedeados em Arraiolos ou originários do concelho. "A nova lei vai permitir que os tapetes de Arraiolos sejam feitos em qualquer lugar, desde que cumpram a tradição. Quem é que vem a Arraiolos se tiver tapetes certificados à venda no Porto?"


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