Como se caça uma cabeça?
Com uma estratégia muito clara de procurar em cada pessoa o conjunto de competências necessárias para fazer um bom trabalho.
Se é preciso um bom palhaço para um circo, como o encontra?
Tentamos pensar quais os negócios similares e procuramos pessoas que já desempenhem aquela função, ou uma função anterior àquela. Mas isto não é suficiente, porque as pessoas não são autómatos. É importante ter a capacidade humana e a profundidade para perceber que tipo de competências cada indivíduo tem, quem é aquela pessoa.
Qual o critério para perceber que aquela é a pessoa certa?
A pesquisa demora normalmente entre quatro e seis semanas. É um exercício acelerado de conhecimento de um indivíduo. Há várias formas, vários inputs, que nos dão referências e pistas que confirmam (ou não) as sensações com que ficámos na entrevista. O enquadramento de uma entrevista normal é descobrir as competências de cada um e saber se é mais criativo, mais analítico, mais objectivo ou subjectivo, introvertido ou extrovertido.
Como é que isso se faz? Pedindo a cada um que fale sobre si próprio?
Sim. Fazemos um conjunto de perguntas e, na verdade, muitas vezes nem sequer estamos interessados na resposta. Estamos mais interessados na forma como a pessoa se posiciona perante o desafio da pergunta e as coisas que nós intuímos.
Qual é a pergunta que mais faz?
O que eu mais faço é pedir que completem uma frase simples como, por exemplo, "Você existe para...." e depois cada um tem de procurar um verbo de acção, e apenas um, para se definir. Esta é a pergunta que faço sempre, em qualquer entrevista, normalmente no final de um processo em que primeiro estudo o background do entrevistado, a sua história de vida, os marcos mais importantes no seu percurso, e tento, no fundo, saber o que é estrutural e estruturante naquela pessoa. Depois, através de jogos de palavras, tento compreender como é a individualidade daquela pessoa.
É fácil, essa interpretação?
Muitas vezes é mais fácil perguntar ao próprio o que acha que os outros diriam dele do que saber o que ele pensa sobre si mesmo. Aqui tento apanhar adjectivos e fazer um primeiro esboço. Depois ofereço-o ao entrevistado, que assim consegue corroborar. Se eu consegui, ou não, tirar uma boa "fotografia" depende da minha intuição e treino, até porque este processo é uma radiografia instantânea, um snapshot. É muito difícil, em apenas uma hora, conhecer uma pessoa em profundidade. É um trabalho em que se vai ganhando uma rotação, em que se usa a psicologia. Começamos a estabelecer paralelismos: normalmente as pessoas muito curiosas são também muito criativas e estabelecemos uma teia tácita entre dependências de factores.
As pessoas gostam de ser interpeladas a esse nível?
Gostam, porque é muito raro. As pessoas raramente param para pensar sobre elas. Quando começamos este jogo usando fontes externas, perguntando o que os outros dizem ou apontando um ou outro aspecto que a astrologia ou a grafologia sublinham sobre a sua personalidade, tudo isto são elementos suficientemente abstractos e fascinantes, que tornam mais fácil um discurso sobre si próprio. As pessoas gostam disso, mas acho que ainda gostam mais quando isso lhes é devolvido.
Há técnicas específicas ou é puramente intuitivo em quem tem esta vocação?
Há aqui dois fenómenos: o fenómeno da ressonância, que é a pessoa estar a falar e poder ouvir-se, e outro é um fenómeno mais metafórico ou poético, em que conseguimos reagrupar todo o conjunto de factores que aquela pessoa foi revelando. Nestas conversas acabamos por dizer às pessoas algo que é completamente intuitivo. Neste sentido isto é uma vocação ou um dom que se tem. As pessoas, realmente, gostam de ser ouvidas e avaliadas. Gostam de perceber qual é a nossa perspectiva e de ter um feedback. Temos de ter a humildade de oferecer aquilo que foi gravado, até porque nós podemos ter erros de observação, e isso dá a cada um oportunidade de corrigir a nossa visão.
As pessoas apaixonam-se por essa sua intuição?
Não sei. Acho que as pessoas me respeitam porque entrego a melhor verdade possível a cada pessoa. Por vezes entrego um bocadinho mais verdade do que devia, mas procuro fazê-lo com cuidado, porque as pessoas podem não estar preparadas e isso pode magoá-las.
E a si, quem lhe entregou toda essa verdade?
Felizmente tenho imensas pessoas que a vão entregando. Não é nada que eu tenha herdado, é uma coisa que eu próprio vou construindo. Tenho uma grande amiga que foi responsável por muitas das coisas que fiz na vida, por me aconselhar numa fase em que tive de lidar comigo mesmo, e tenho outros mentores divididos por temas, pessoas que me inspiram. Aprendi a descontaminar a radiação que acontece quando ajudamos pessoas que estão em circunstâncias de transição (muitas delas estão infelizes ou frágeis), porque preciso da energia que tenho de lhes dar. Essa energia vem da minha equipa e do facto de conseguirmos ter uma relação harmoniosa. Também vem da certeza de crescer, fazer crescer os que estão à minha volta e sentir-me reconhecido por isso.
É importante identificar as pessoas que lhe dão e tiram energia?
É essencial ter essa consciência e procuro cada vez mais estar com aqueles que me trazem uma boa energia, que não são sanguessugas de energia.
Há pouco enunciava a sua pergunta mais comum e agora pergunto: o Tiago existe para...?
Eu acho que o verbo de acção que se aplica a mim é "influenciar".
Influenciar a um nível social, profundo, ou influenciar individualmente, ao nível da mudança interior?
A nível social. Acho que a minha bitola de check-out quando morrer vai ser perceber se fui capaz de influenciar o mundo no sentido de contribuir para o tornar um lugar melhor. Acho que tenho um conjunto de competências que me ajudam a fazer isso. Sou uma pessoa criativa, sou um empreendedor, e tenho que me reinventar. Em cada três anos entro num ciclo de reinvenção...
Isso é a filosofia "killing projects", de Ram Charan?
Sim, também. Nós temos ciclos, somos como as marés, isso está na natureza de cada um. Eu sou um criador, tenho de tangibilizar coisas, tenho de envolver pessoas, tenho de envolver emoções. Gosto da ambiguidade.
Em que sentido?
Ambiguidade é não ter certezas sobre nada. A ambiguidade estimula-me, porque cria uma pressão tal que me torna mais efectivo, mais potente do ponto de vista da aquisição das minhas competências.
Está sempre a falar em talentos e competências. Pode definir uns e outros?
O talento mede-se por competências. Mas o talento é uma habilidade.
O talento é um dom e a competência é qualquer coisa que adquirimos?
Ainda bem que faz essa pergunta. Acho que na próxima geração devíamos deixar de falar em competências. É que ser muito competente nada tem a ver, etimologicamente, nem conceptualmente, com competência, isso é um engano enorme. As pessoas nunca conseguem perceber muito bem o que é talento, por causa dessa confusão etimológica. O talento é uma habilidade (gosto de usar a palavra habilidade porque as pessoas a associam a infantilidade) inata, intrínseca, que cada um de nós transporta desde a nascença.
É um dom?
Sim, é um dom, é uma vocação. É, por exemplo, a habilidade de fazer os outros rirem, é a capacidade de pensar no abstracto, é a capacidade de estruturar as coisas.
É aquilo que fazemos naturalmente, sem esforço, que nos revela no nosso melhor?
Sim, exacto. Tem de ter estas características: ser intrínseco, inato, ser algo que cria valor em qualquer circunstância. Quero dizer, não importa em que função estamos porque, por definição, o que fazemos é aquilo (influenciar, persuadir, criar, fazer rir). E é qualquer coisa que nos diz que sempre que fazemos uma boa escolha na vida a experiência prova que essa escolha funciona quase como um recreio para o nosso talento. Ser competente é algo completamente diferente, significa que somos muito efectivos, que aprendemos uma especialidade, uma perícia, qualquer coisa que nos torna competentes porque sabemos mais que todos os outros sobre aquele assunto.
E isso consegue-se através de esforço, rotina, regras e método?
É esforço e rotina, mas obviamente não tem de estar desligado da componente motivacional. Quando adquirimos uma competência como, por exemplo, usar o Excel para analisar contas, isso pode estar ligado ao talento que é o gosto que eu tenho por encontrar falhas ou analisar questões. Ou seja, há um talento que me motiva a utilizar uma ferramenta ou uma metodologia específica para conseguir tornar essa competência realista e objectiva. São coisas muito diferentes, mas que suscitam uma confusão enorme nas pessoas.
Podemos concretizar em exemplos e histórias de pessoas concretas?
O que estamos a tentar ilustrar é a diferença entre o que a pessoa faz e o que são os seus talentos. Há um exemplo muito simples, que é Fernando Pessoa, que na verdade não era um contabilista, mas sim um poeta, um escritor, um pensador e um astrólogo. Também há o Júlio Iglésias, que afinal não era guarda-redes, mas sim um cantor. E a Barbara Hendrix, que estudou Química, mas o que faz bem é cantar. E depois há outros casos com os quais lido diariamente, de pessoas que tiraram, por exemplo, o curso de Conservação de Manuscritos Antigos mas que na verdade são empreendedores, designers e criativos que fazem objectos que poderiam ser vendidos em qualquer museu de design do mundo. Ou aquela pessoa que era modelo e agora produz vinho.
Como se chega à profundidade do conhecimento de si próprio para perceber que, sendo modelo, o talento é produzir vinho?
Não sei, acho que as pessoas acabam por ter uma lógica muito universal e têm de ser capazes de acreditar que tudo é uma questão de escolhas. Muitas vezes foi- -lhes oferecida a verdade sobre quem são, o problema é que não acreditam que podem escolher. As pessoas não sentem legitimidade para isso e acham que o testemunho que lhes foi passado foi o da sobrevivência, que o que interessa é pagar o crédito à habitação, levar os miúdos à escola, e isso é o suficiente.
É precisa coragem e circunstância para elevar esse patamar?
Acho que, fundamentalmente, é preciso muito amor e auto-estima. É preciso um modelo inspiracional, e também ajuda de pais capazes de darem um apoio inicial, emocional e económico, garantir o básico de vida. Mas também conheço pessoas que ganham milhares de euros e oiço-as dizer que não podem escolher porque têm compromissos, e isto é uma lógica muito curta, é querer acreditar que se não tiverem um Audi A6 os vizinhos vão reparar. A vida não é só feita de questões económicas. Ou seja, há um patamar mínimo para se garantir que as escolhas podem ser feitas e depois há um patamar que deixa uma história, um legado aos nosso filhos.
Qual é o maior legado que se pode deixar?
Todos temos de deixar um mínimo de estabilidade, um mínimo de opções, mas também educar as pessoas para que elas tenham consciência de que são os actores principais das suas próprias vidas. O contexto é para ser fabricado, é plasticina. O contexto não nos condiciona, nós é que condicionamos o contexto. As pessoas têm de aceitar uma destas duas verdades: ou jogam o jogo da vida para serem felizes e, para isso, obviamente, têm de garantir um patamar de sobrevivência, ou então vivem permanentemente concentradas na sobrevivência, porque nunca chegam a supraviver. Por mais dinheiro que tenham, não conseguem chegar ao fim da vida com a satisfação de deixar uma história, uma inspiração para os que vêm a seguir.
Dizer às pessoas "você é o actor principal da sua própria vida" parece simples e óbvio, mas é radical. Que sentimentos provoca?
A vida hoje demora 80 anos e cada um de nós pode fazer tantas coisas... As pessoas é que não acreditam que podem fazer muitos papéis. A vida tem vários capítulos. Eu não acredito nessa definição de "se eu falhar, bolas, que chatice!" Acho que há várias oportunidades na vida e as pessoas é que têm de ver qual é a história que querem escrever. Depois, como é que o "actor" se porta na cena A, B, C ou D, isso já é um exercício de consistência.
De consistência e maturidade, também?
O sucesso da vida não é mais do que consistência. É um conjunto muito alinhado, muito coerente, de uma estratégia. Nós escolhemos uma estratégia em determinada altura da vida e depois o importante é mantê-la independente e sem grandes desvios.
Sente que é o actor principal da sua própria vida?
Não tenho a menor dúvida! Acho que já provei isso várias vezes.
Quando tem dúvidas, duvida sobre o quê?
Tenho muitas dúvidas, mas fundamentalmente tenho dúvidas sobre se consigo, da forma mais adequada, mostrar às pessoas que podem ser felizes.
E tem conseguido?
Tenho conseguido nalguns casos, mas a certa altura compreendi que o importante não é fazer isso em massa, é fazê--lo paulatinamente, caso a caso, olhos nos olhos.
Sente-se mais feliz por isso?
Isso dá-me imensa felicidade. É uma coisa que me inspira, que me faz sentir único.
O seu talento é multiplicar os talentos dos outros?
É estar ao serviço dos outros e aprender com eles. Ensinam-me imenso. Eles inspiram-me e eu inspiro-os.
Como homem, como pessoa, como pai, o que é que o inspira?
O amor incondicional inspira-me. Quando temos filhos, apercebemo-nos de que o amor incondicional acontece. Amamos os nossos filhos integralmente e isso redefine para nós, pais, o que é o amor. Eu gosto imenso de ver os talentos dos meus filhos, gosto de respeitar a individualidade deles, gosto de brincar, gosto de ter a idade deles interiormente.
Se não fizesse o que faz o que gostaria de ser?
Gostava de ser realizador de cinema.




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