Entrevista

José Miguel Queimado "Não é proibido acreditar nos sonhos" - vídeo

Publicado em 24 de Agosto de 2009   
Homem de negócios e sonhador altruísta, aos 15 anos passou o Verão a trocar baterias de carros eléctricos na EXPO 98. As baterias eram do seu tamanho
José Miguel Queimado

Fez um negócio da China... com chineses. Como foi isso?

 

Comecei a trabalhar com uma grande empresa chinesa e fui ganhando alguma confiança da parte da direcção, que tinha pouca interacção com estrangeiros. Eu falava chinês e ao fim de um ano a trabalhar em projectos em que o meu envolvimento era marginal eles desafiaram-me para encabeçar algumas associações mais importantes e deram-me, numa última fase, a oportunidade de liderar a criação de uma nova empresa.

Uma empresa em que área?

Era uma marca de roupa para jovens adolescentes e jovens profissionais, para usar no quotidiano. Desenhada por portugueses, em Xangai, para o mercado chinês.

Porque é que sabia falar chinês?

A minha história com a China começou porque me interessava muito pela cultura chinesa e achei giro estudar a língua. Na universidade inscrevi-me numa cadeira de Mandarim. Cheguei mesmo a pedir a amigos chineses que fossem meus explicadores e fazíamos uma troca, eu falava inglês com eles e eles ensinavam-me chinês.

Onde vivia nessa altura?

Em Londres, numa residência de estudantes. Estudava e trabalhava.

Saiu do liceu em Lisboa e foi fazer a universidade fora?

Sim, fui para França, estudar Ciência Política. Depois fiz um ano em Londres, no King's College, e um estágio no City Group (foi nesse ano que comecei a trabalhar para a empresa chinesa) e consegui uma bolsa de estudos para fazer um mestrado em Georgetown, em Washington.

Sempre em Ciência Política?

Não, aí já era Economia Política. Nessa altura comecei a estudar finanças, porque era uma área academicamente muito interessante, é uma matemática muito técnica mas muito engraçada. Tinha uma fixação pelo Banco Mundial, queria ser conselheiro, e comecei a fazer candidaturas para o Banco Mundial assim que saí do liceu, mas fui sempre recusado.

Porquê o Banco Mundial?

Não sei, acho que queria identificar-me com uma causa e gostava do lado técnico. O Banco Mundial tem uma missão com a qual me identificava. Foi engraçado, porque isso levou-me por outros caminhos completamente diferentes, ou seja, por ter esta fixação e por tentar sempre ir para o Banco Mundial (e falhar anualmente a entrada!) decidi que queria ir para banca de investimento. Pensava que se entrasse na banca de investimento o Banco Mundial ia deixar de me negar a entrada [risos].

Até hoje o Banco Mundial ainda não disse que sim?

[Sorrisos] Entretanto deixei de me candidatar, porque comecei a achar muita piada à banca de investimento. A partir destas instituições também temos um envolvimento intenso na sociedade. Provavelmente até se aprende mais assim.

Quem não é dessa área acha que a economia e as finanças são muito áridas...

Comecei pela Ciência Política, depois veio a Economia Política e só mais tarde as Finanças. Foi a curiosidade intelectual que me levou a gostar de banca de investimento. Aquilo era técnico e desafiador, preciso e potente, na medida em que cria e faz as coisas acontecerem.

Mas muito num esquema matemático, ou não?

O lado que mais me interessou foi o técnico e académico. Havia de facto uma certa distância em relação às pessoas, mas, na minha óptica, estava na idade de aprender o lado técnico e difícil das coisas. Deixaria para mais tarde a escolha da distância a que queria estar das pessoas, com as ferramentas que aprendi no sector privado.

Neste momento, com a Associação Acredita Portugal, está finalmente mais próximo das pessoas?

Procurei sempre estar ligado a associações de estudantes. Gostava muito de ser o representante dos estudantes e em todas as universidades tentava envolver--me. Em Londres envolvi-me muito na política estudantil e acabei a trabalhar para um membro do governo, o Steve McCabe, no tempo de Tony Blair. Isso fez com que eu trabalhasse nas eleições de Maio de 2005. Aliás, esse era o trabalho que tinha antes de começar a trabalhar para a empresa chinesa e durante algum tempo trabalhava para os dois. Para ganhar dinheiro, ia duas vezes por semana a Westminster colaborar no planeamento da campanha.

Como foi essa experiência?

Foi giríssima! Vi por dentro como funciona uma democracia (e funciona muito bem!), os poderes executivo, legislativo e judicial estavam concentrados num só edifício, juntamente com as duas câmaras (Câmara dos Lordes e Câmara dos Comuns) e assistia às sessões parlamentares, que são interessantíssimas, muito estimulantes, e atraem muitos visitantes.

Qual era o seu papel? Qual foi a sua mais-valia para ser contratado?

O que o McCabe me confessou a posteriori foi que eu tinha sido contratado pelo meu desempenho nas eleições de estudantes. Tinha estado na China, onde estive a aprender, a passear, fiz inclusive um estágio no BNU de Macau, e quando cheguei entrei para uma universidade em Londres, onde me candidatei logo às eleições estudantis. Houve uma campanha muito mediática para essas eleições e eu joguei com o facto de ser o único desconhecido - não era o presidente da associação de estudantes chineses, nem o capitão da equipa de rugby - os meus cartazes diziam mesmo "who is the Portuguese?" - e a minha intenção era criar alguma curiosidade à volta desse candidato desconhecido.

As eleições correram bem?

Sim, ganhei. O McCabe provavelmente achou piada à força e energia da campanha, e como tinha de preparar as eleições de 2005 precisava de alguém para lhe dar assistência no trabalho de office. Isto significa que o ajudava diariamente a lidar com as pessoas da área que ele representava, uma vez que era membro do governo mas também parlamentar (à imagem de todos os membros dos governo britânico). E ajudava-o também no planeamento da campanha.

E ele foi reeleito?

Foi reeleito e continua no governo, como membro do Parlamento.

Ficaram amigos?

Ficámos muito amigos e eu considero-o um mentor. Tive a enorme sorte de conhecer alguém que encarna os valores de uma política quase do século XIX, que já quase não se vêem. Ele veio da Assistência Social, o que não é nada típico, e entrou para a política com 40 anos. Preocupa- -se muito com as pessoas e é um homem extremamente moral. A mim mostrou- -me um lado da política em que é difícil acreditar, porque a tentação mais fácil é cair no cinismo em relação à política e aos políticos. Ele continua no seu posto, agora com uma posição de maior responsabilidade no governo, em que é Chief Whip - tem como função assegurar a disciplina dentro do partido.

Continua a ter contacto com ele?

Continuo. Quando vou a Londres conversamos e bebemos um copo no bar de Westminster.

Ele tem pena que se tenha vindo embora?

Não, ele quis que eu seguisse o meu caminho, sabia que a minha passagem era transitória. Escreveu recomendações para eu entrar em universidades e continua a ser uma referência para mim, alguém que me dá conselhos que prezo muito.

Aos 22 anos fazia negociações com parceiros americanos, chineses e europeus. O facto de ser tão novo era surpreendente para os outros?

Estatisticamente, houve mais problemas com a minha idade quando lidava com pessoas na Europa do que com americanos. A idade parecia ser maior entrave em reuniões com líderes europeus do que nos Estados Unidos, onde o enfoque era no produto e na equipa que estávamos a vender e menos no interlocutor. Senti que lá me reconheceram mais rapidamente pela pessoa que eu era, independentemente da idade.

Acha que é, ou foi, um menino prodígio?

Não [risos].

De onde lhe vem a certeza?

Já tive oportunidade de falar com muita gente e não há nenhuma faceta em mim que me faça sentir diferente ou melhor que as outras pessoas. Todos temos forças e fraquezas e eu sou essencialmente esforçado, como toda a gente pode ser. Se calhar sou é um bocadinho exagerado, porque me esforço muito [risos]. Ou então tenho só muita curiosidade e muita vontade de fazer coisas.

Sempre foi assim? Quando queria obsessivamente ser conselheiro do Banco Mundial e isso o fez correr mundo já sentia essa força interior?

Todos nós tivemos uma história diferente em miúdos e eu, por alguma razão, saí com muitas ganas [risos]. Mas não vejo nada de diferente em mim. Sempre que fiz testes de Matemática esforcei-me muito; sempre que fiz testes de Literatura aquilo correu-me médio/médio-mal. Ou seja, sempre fui um aluno médio.

Einstein também [risos].

Acredito no poder do esforço e no poder de fazer as coisas acontecerem. É uma espécie de esperança, uma maneira de pensar e de acreditar que podemos fazer muita coisa e que, com um bocadinho mais de esforço, podemos ir sempre mais longe. Provavelmente, é esta a minha mais-valia num mundo de gente muito mais brilhante que eu.

Foi essa convicção profunda de superação que o levou a formar a Associação Acredita Portugal [www.acreditaportugal.pt], quando regressou ao país há um ano?

Acredito piamente que com mais esforço conseguimos sempre ir mais longe, e por isso achei que seria um contributo interessante pôr uma ideia muito simples num formato muito simples.

Como nasceu a ideia da Associação?

O slogan da marca de roupa que nós tínhamos era: "You can." Ou seja, foi uma coisa pré-Obama, mas posso dizer que há também uma coincidência nas ideias e naquilo que eu acredito ser possível para Portugal. Isto passa por centrar a atenção na pessoa individual e naquilo que cada um pode fazer. Desde 2005 que já havia ideias e um grupo para fazer uma associação que potenciasse a confiança dos portugueses, e isso aconteceu finalmente no ano passado. Corri Portugal de norte a sul para divulgar a Associação, e agora acabámos de fazer o mesmo, mas de bicicleta.

A equipa é formada por amigos seus?

Sim, amigos e ex-alunos do Liceu Francês, onde estudei. Formámos uma equipa a que se foram juntando outras pessoas, mas não é um grupo assim tão grande.

O que vos une?

Temos uma visão muito clara de alguns problemas, estamos unidos em relação ao que devia ser uma mensagem de esperança, de força, uma mensagem que faça as pessoas acreditarem que parte da solução para os problemas está nelas. É libertador que alguém nos diga que há uma solução e que essa solução até pode estar nas nossas mãos. Em vez de ficarmos anos à espera que a sociedade ou entidades exteriores resolvam todos os problemas, temos de acreditar em nós. Isso pode ser uma mensagem muito forte, de esperança, capaz de desencadear forças importantes.

Qual foi o sentimento que prevaleceu ao atravessar Portugal? As pessoas ficam tocadas com alguém que, por se transcender, lhes dá motivação para elas próprias se transcenderem?

Acho que sim. Confesso que no Verão passado, na primeira metade da corrida, não tinha esse efeito sobre as pessoas. Havia mais uma ideia de cepticismo, parecia uma coisa um bocado tola, juvenil, que talvez não lhes parecesse fazer muito sentido. Acho que ainda não tinha feito quilómetros suficientes para incutir esperança nas pessoas. A partir da segunda metade comecei a sentir que já tinha esse efeito, as pessoas já me identificavam. Alguns percebiam que estavam a ver uma coisa não quotidiana e isso interpelava-os, incentivava-os a pensar de uma maneira não quotidiana. Acho que houve paradigmas que mudaram um bocadinho.

Viu isso reflectido no site da Acredita Portugal e na adesão das pessoas?

Sim, sobretudo porque a seguir a Associação replicou a fórmula. Não replicou a maratona, mas o questionar das decisões que nos conduzem na vida. Lançámos um concurso para recolher os sonhos dos portugueses, de norte a sul, e isso também provocou um efeito de introspecção que nasce sempre que se pergunta a alguém se tivesse um desejo, qual seria. A pergunta obriga a olhar para a vida e a pô-la em perspectiva, coisa que não fazemos todos os dias.

Quais são os sonhos dos portugueses?

Há dois tipos de sonhos, com os quais tivemos contacto durante a maratona. Perguntávamos às pessoas qual era o seu desejo para Portugal, e aí tivemos muitos sonhos que traduziam literalmente as suas dificuldades diárias; havia uma preocupação muito recorrente com a situação económica e mais especificamente com a pobreza pessoal, a pobreza local e a falta de emprego. No meio de sonhos muito ligados às dificuldades diárias havia alguns mais aspiracionais, do tipo: Portugal deve ser genial no mundo. Achei giro, porque entre a dificuldade no terreno e a visão messiânica de Portugal não havia muita coisa no meio.

E mais sonhos individuais?

Na categoria de sonhos individuais houve muitas pessoas a dizerem que sempre quiseram fazer qualquer coisa e nunca tinham tido oportunidade de contar a ninguém, mas nesses casos eram mais confissões que sonhos. Outros tinham ideias que ainda precisam de ser estruturadas. Mas há matéria-prima com muito potencial, do ponto de vista conceptual. Curiosamente, as pessoas mantinham sempre uma certa distância em relação ao seu próprio sonho, como se fosse proibido acreditar nele, como se fosse uma ideia paralela à vida real, muito distante da sua realidade quotidiana. Não falavam do "projecto que vou começar amanhã". Diziam que era uma ideia giríssima, que poriam em prática "se...", sem conseguirem acabar a frase. Na Associação trabalhamos muito aí, para reduzir essa ponte entre a pessoa e a sua ideia, que pode ser óptima para o país e gerar mais empregos.

São apenas descobridores de sonhos ou também potenciadores?

Gostamos de nos ver como potenciadores. Recebemos 700 projectos até agora, uns muito credíveis, outros ainda por construir. O website dá uma série de ajudas. Estamos ainda a começar workshops de formação, temos workshops presenciais e estamos a criar uma ferramenta informática que nos permite elencar todas as necessidades de ajuda e fazer uma metodologia. O que nós queremos fazer com isso é percorrer Portugal de norte a sul e ver quem quer ser voluntário, quem quer ser um herói na sua área de especialidade. A partir daí queremos criar uma base de dados para fazer um cruzamento simples entre todos aqueles que precisam de ajuda e todos aqueles que estão disponíveis para a dar. É esta a nossa aposta.



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