Entrevistas muita gente. Quem é que gostaste mais de entrevistar?
Essa é uma daquelas perguntas de um milhão de dólares [risos]! As pessoas que até hoje me deram as respostas mais surpreendentes foram sempre anónimas. Estou a lembrar-me, por exemplo, de uma mãe que perdeu o filho em Angola e só queria trazer o seu corpo de regresso a Portugal. Nunca a esqueci.
E quando trabalhaste fora?
No tempo em que era correspondente em Londres houve um agricultor a quem tinham acabado de matar as vacas todas porque estavam doentes e ele disse uma coisa que também não esqueço: "Levaram-me os meus filhos." São estas as respostas que guardo.
O Mick Jagger ou a Tina Turner foram muito previsíveis?
Foi engraçado entrevistá-los pelas personagens em si, por aquilo que representam, mas as entrevistas que guardo mesmo são as de anónimos. Sublinho que muitas vezes foram entrevistas que preferia não ter feito, por me obrigarem a interpelar pessoas em situações muito dramáticas mas, por isso mesmo, mexeram comigo e sei que mexem sempre com quem nos está a ver.
O Mick Jagger ou a Tina Turner já não falam verdade?
Aquilo já é muito ensaiado. Mas aquelas duas pessoas anónimas não, e eu sinto que mereci a confiança delas. Era um estranho, um intruso, e abriram-me a porta da alma. Esta confiança é muito gratificante e, aí sim, sentimos que temos responsabilidade no que estamos a fazer, no momento e na forma como vamos lidar com aquelas respostas. Felizmente, no caso da mãe, a entrevista teve consequências, porque obrigou as autoridades a empenharem-se mais para a ajudarem a resgatar o corpo do filho. Houve resultados.
Como controlas os nervos do directo?
Ao fim destes anos todos ainda os tenho, e ainda bem. No dia em que me sentar naquela cadeira e não sentir a adrenalina quando dizem "cinco segundos e estás no ar", é porque perdi alguma coisa essencial. Na SIC Notícias senti isso uma vez e nesse dia decidi que ia parar de fazer televisão durante algum tempo. Não tinha nervos, não estava aflito, já não tinha a adrenalina necessária para fazer um bom trabalho. Parei e fui fazer rádio.
Como era, para ti, a adrenalina da rádio?
Era acordar muito cedo, às 4 da manhã. E era a vantagem de não ter uma câmara como esta que me está a filmar [para o ionline], um olhar indiscreto sempre em cima de mim. Em rádio não interessa se estamos com bom ou mau aspecto.
Às 5 da manhã ninguém tem boa cara...
Ninguém [risos]. Mas havia outra questão de que não me tinha apercebido e tinha a ver com o que podia revelar só com a minha voz. Isso mostrava mais de mim do que a minha cara, porque o rosto é uma máscara e até conseguimos disfarçar algumas coisas. Com a voz não.
Que é que disfarças?
Todos disfarçamos muita coisa. Estados de espírito, por exemplo. As pessoas não têm de levar com a minha má disposição ou com a minha alegria extrema quando estou a apresentar o noticiário. Mas também não quero ser um autómato e não concordo que devamos despir a alma quando chegamos ali, para sermos tecnicamente perfeitos.
A imperfeição é mais real?
Gosto muito duma frase da Édith Piaff: "Usa os teus erros e as tuas falhas e serás uma estrela." Estrela aqui significa sucesso nas nossas vidas, como pessoas. As nossas falhas é que nos tornam humanos e, quando apresentamos o noticiário ou quando fazemos uma reportagem, acho que devemos pôr lá isso. Perguntavas-me o que tento disfarçar: tento disfarçar o meu estado de espírito mas sem disfarçar a minha alma. Não quero ser asséptico. As pessoas querem alguém que seja humano.
O erro, em televisão, pode ser um trauma. Já te aconteceu?
Já me enganei e a seguir disse: "Enganei-me, peço desculpa." E nem sequer tinha sido um engano de sílabas, disse uma cifra completamente absurda. Houve outra coisa, mais caricata, quando tinha acabado de chegar de Londres: passadas duas semanas, estava a apresentar o noticiário na SIC Notícias, com a Ana Lourenço, a dividir um pivô sobre o 007 e quando chegou a altura de dizer a minha parte, o nome do filme estava em inglês, e eu disse "Die Another Day". Até aí tudo bem. O problema foi não ter voltado ao português e ter continuado a ler o pivô em inglês "the movie is going to be released this weekend..." [risos]. Obviamente, desatei-me a rir no ar e pedi desculpa.
De que gostas realmente na vida? O que te move, o que te apaixona?
Pode parecer muito naïf, mas é a felicidade. Ou seja, aquilo que todos nós procuramos. Todos os dias quero ser um bocadinho mais feliz, mas também no sentido de fazer os outros felizes. Por mais lugar-comum que isto possa parecer, o que me enche e me preenche é saber que dei felicidade ou ajudei alguém.
Isso implica um espírito de serviço ou é uma atitude individual?
Às vezes acho que sou um bocadinho egoísta nesse sentido. Não sou de andar nas ruas a distribuir comida a quem precisa, por exemplo. Até gostava de o fazer, mas não tenho esse espírito. Acho que é uma coisa muito individual e significa ajudar o meu mais próximo. Na minha profissão, ainda tenho a ingenuidade (e não a quero perder!) de acreditar que posso mudar alguma coisa. Quando isso acontece, ou me agradecem por ter ajudado em qualquer coisa, fico muito satisfeito.
Escolheste esta profissão?
Não fui eu que a escolhi, foi ela que me escolheu a mim [sorriso].
Acreditas nessa convocação cósmica de uma profissão que te escolhe?
Acho que sim.
Tens uma inteligência mais emocional ou racional?
Não sei. Acho que o que me comanda é a emoção e o coração.
Tens uma inteligência sensível, portanto...
Sim, às vezes até de mais. Tento temperar isso com alguma racionalidade, para contrariar um pouco essa sensibilidade porque, se todo eu for entranhas e coração, é um arrepio... Se estou a ler uma notícia ou a ver uma reportagem que me emocionam e a seguir não houver barulho à minha volta nem o caos na régie, ainda hoje isso me faz arrepiar. E ainda bem. No dia em que não tiver o bater do coração, então estou morto de alguma maneira.
Choras com facilidade, presumo...
Muita. Mas não mostro, choro sozinho. Depois da morte da minha mãe, choro mais com a felicidade. Houve uma secagem do choro da tristeza.
Foi um processo muito doloroso?
Foi a dor suprema. Mas a partir daí, choro mais facilmente com a alegria.
Há quanto tempo morreu a tua mãe?
Há quatro anos, depois de um processo doloroso.
É muito difícil estar ao lado dos que mais amamos nessa dor. Que descobriste nesse sofrimento terminal?
Descobri que afinal sou muito mais forte do que aquilo que imaginava. Achava que nunca iria aguentar uma situação daquelas. Já tinha estado em palcos de guerra, na Jugoslávia, no Médio Oriente, sobretudo em Sarajevo, onde passei por experiências extremas, mas não me conhecia num sofrimento, numa dor tão extrema como esta. No dia em que a minha mãe morreu percebi quem era. E depois transformei as saudades em celebração.
Ainda tens pai?
Felizmente sim.
Sentiste-te sempre um filho muito amado?
Sei que fui fruto de um grande amor. Aliás, fui um filho inesperado e acho isso muito engraçado. Senti-me sempre amado mas com muita disciplina. Hoje em dia percebo a substância de que era feita toda essa disciplina. Os meus pais não se orientavam pelo que, aos outros, parecia bem. Tinham valores e princípios rigorosos que eles próprios entendiam serem os mais correctos. Vivíamos no Alentejo, numa vila, com tudo o que isso implica e condiciona numa altura em que não existia internet e só havia um canal de televisão...
Em que vila do Alentejo?
Castelo de Vide. Não havia cinema e vivíamos um bocado isolados. Para vir a Lisboa ver um filme a viagem demorava cinco a seis horas. Para mim, vir ao Quarteto ver um filme era uma festa, um verdadeiro acontecimento.
Como defines a tua personalidade?
Teimoso, muito teimoso. Mas quando erro, assumo os erros. Se acho que uma ideia está certa, vou com ela até ao fim, mas se depois vejo que é um erro peço facilmente desculpa. Peço muitas vezes desculpa, mas também erro muito. Acho que sou determinado, mas o coração, por vezes, ultrapassa a razão e isso é o meu ponto mais fraco. Por outro lado também pode ser o meu ponto mais forte... Numa sociedade como a nossa o coração pode tornar-nos mais frágeis, mas eu não me importo.
Quando estás a apresentar o jornal não se percebe que tens os olhos tão azuis. As pessoas estranham quando te vêem e fazem-te perguntas?
Fazem! Não só sobre os olhos mas também sobre o resto. E comentam: "É mais magrinho", "tem os olhos claros", "é mais alto". Enfim, é normal, porque a televisão é uma caixinha que mente. Nós ali estamos em pose.
Que gostas de fazer nas férias?
Sou um bocadinho repetitivo nisso, porque vou há quase oito anos para o mesmo sítio - San Diego, na Califórnia, onde estão as minhas praias preferidas.
Por alguma razão?
Primeiro porque tenho muitos amigos na Califórnia. Depois porque comecei a ir para me enriquecer profissionalmente e agora aproveito e junto as férias. Preciso de um mês de férias para cortar com a rotina, mas também não sou capaz de estar um mês sem fazer nada e, então, aproveito uma série de conferências nas universidades, gosto de ir lá participar, aprender, discutir. A América é um laboratório social fascinante, podes estar agora com uma pessoa do Gana, depois com outra de Marrocos ou da Austrália e às tantas já não estamos a falar de televisão, estamos só a falar da vida.
Tu, que passas a vida a tentar revelar os outros, que gostas de descobrir nas pessoas?
Sabes que em televisão, e na minha área, nem sempre é possível revelar verdadeiramente os outros. A grande dificuldade é desmontar o texto que eles já trazem decorado, sobretudo nas entrevistas políticas. Lembro-me de uma entrevista que gostei muito de fazer ao José Mensurado, uma figura fabulosa da RTP. Tive o privilégio de ser eu a apresentar o telejornal no dia em que passavam 40 anos sobre a ida do homem à Lua e de poder convidar o José Mensurado. Há 40 anos foi ele que fez pela primeira vez, em televisão, uma emissão em directo de 18 horas. Todos conhecemos o José Mensurado, mas de repente eu estava ali a descobrir um homem a emocionar-se ao meu lado e queria dizer-lhe que o prazer era muito mais meu por ter o privilégio de estar ali com alguém que, para mim, é um mestre. Descobrir essa fragilidade que mostra a grandiosidade de cada pessoa fascina-me. Só que é tão raro ter alguém sentado naquela cadeira capaz de mostrar essa dimensão...
Achas que aquela cadeira intimida ou és tu que intimidas com as perguntas?
É a câmara, acima de tudo. Qualquer pessoa que venha ao telejornal vem cheia de defesas. Nós próprios, depois de tantos anos a fazer aquilo, temos defesas. O José Mensurado chegou ali despido de qualquer armadura e, de repente, vê-se aquele ser humano fabuloso em frente da câmara. É tão raro isso, e é tão refrescante [sorriso]. Quando cheguei a casa alguém me disse: "Estavas embevecido pela primeira vez num telejornal!" E estava [sorriso].
Tens uma imagem muito marcada e és o protótipo da pessoa impecável. Para ti é importante ser impecável, no sentido ético do termo?
Gostava que um dia dissessem de mim que inspiro confiança. Eu próprio gosto muito de confiar nas pessoas e se estou a falar com um milhão de pessoas, através do telejornal, é importante sentir que confiam em mim o suficiente para ouvirem o que estou a dizer. Obviamente naquele momento estou a apresentar o trabalho dos meus colegas que produzem uma série de reportagens, uma equipa da qual sou apenas o último elo da cadeia. Eles, por um lado, têm confiança de que eu sou capaz de dignificar o trabalho deles e, por outro lado, quem está lá em casa tem de confiar o suficiente em mim para ligar o botão, ouvir e acreditar no que estou a dizer. Era esse o epíteto de que gostava.
Mas isso é ser impecável....
Talvez [risos].
Gostas mais de viagens de trabalho ou viagens de lazer?
De lazer! Houve uma altura em que o trabalho era tudo, mas agora já não. O Emídio Rangel deu-me esse privilégio e esse vício; eu era muito novinho, estávamos a começar a SIC e ele confiou o suficiente em mim para eu ser "o repórter da malinha feita".
Durante quantos anos viveste de malas feitas?
Durante uns seis ou sete. Era repórter de política internacional e, nessa altura, as notícias aconteciam, eu apanhava o avião e ia lá cobrir. Uma vez, estava no Cairo e o Rangel mandou-me à Finlândia fazer uma cimeira de paz. Saí de 40 graus positivos para 20 negativos [risos]. O Rangel alimentava essa loucura e essa minha vontade. Nessa altura esquecia-me de que havia outra vida. Abriram-me o mundo! Saí de Portalegre, vim para Lisboa e aqui, por causa da minha profissão, abriram-me as portas do mundo inteiro.
Ficaste deslumbrado?
Fiquei. No início fiquei. Ou melhor, nem tinha tempo para pensar nisso, porque a preocupação era chegar rapidamente ao local, fazer a reportagem e saber onde é que estava o ponto de directo no satélite. Estas são as preocupações urgentes que temos em televisão. A minha pena é não ter saboreado certos momentos, tal era a minha ânsia de não falhar. Quando rebentava uma bomba, no caso de Sarajevo por exemplo, ficava muito stressado, mas um dia disseram-me uma coisa terrível quando estava quase a ir para o ar, em directo, que me ajudou a relativizar tudo. O meu editor de imagem, que era muçulmano, disse: "Ouve lá, a minha mãe morreu, o meu pai foi assassinado, e tu achas que tens um problema de satélite?" Tu aí paras e pensas: "Não, o mundo é outra coisa, não é aquilo que pomos no ecrã."
És um homem com algum poder. Sentes isso?
Não, não sinto. Honestamente, sinto que tenho uma grande responsabilidade e isso às vezes assusta.
És vaidoso?
Dizem que sim e eu acho que sim [sorrisos]. Ser vaidoso é gostar de nós, não é? Desde que não seja em demasia, acho que é útil e saudável.
Gostas de ti?
Já gostei menos [risos].




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