Crime

Professor que matou os irmãos estava perturbado com o novo modelo de avaliação

Publicado em 06 de Agosto de 2009   
Professor da Escola EB 2-3 de São Pedro da Cova condenado a 14 anos de prisão
António Ferreira foi condenado a 14 anos de prisão
Nada faria prever que um professor calmo e com vários anos de carreira protagonizasse uma das histórias mais dramáticas de que há memória no seio de uma família na Foz, Porto. Arnaldo Ferreira, de 54 anos, era adorado pelos alunos e visto pelos colegas como um professor empenhado e amigo, mas tudo se precipitou num quadro negro psíquico que ninguém adivinhava e que culminou na morte dos dois irmãos à facada em Março de 2008 na padaria Formosa, na Foz.

As alterações ao modelo de avaliação e da carreira do docente - a par de uma alegada dívida da padaria de 200 mil euros à Segurança Social - terão dado origem a uma obsessão que se adensou perigosamente até à tragédia.

É o próprio acórdão, que recentemente condenou Arnaldo Ferreira a 14 anos de prisão efectiva pelo fratricídio, que refere amiúde a incapacidade psicológica de Arnaldo. O professor de Matemática e Ciências da Escola EB 2-3 de São Pedro da Cova, em Gondomar, não conseguiu fazer face às exigências profissionais após a alteração no modelo de avaliação dos professores.

Arnaldo chegou até a pôr um anúncio nos jornais para requisitar, a título pessoal, um assistente. A professora que acabou por responder ao anúncio ajudou-o durante cinco meses na planificação das aulas e na preparação dos exames.

Confrontado com a nomeação o professor titular, "desistiu de assumir o cargo", refere o acórdão a que o i teve acesso. Os juízes acabaram por rejeitar o ensejo da defesa que, durante todo o julgamento, tentou provar a inimpugnabilidade ou imputabilidade diminuída de Arnaldo, tendo em conta a sua situação psiquiátrica. O acórdão dos juízes é claro quanto ao estado psíquico a que chegou. "Ficou obcecado com as alterações na carreira do professor", descreve. De acordo com o relatório pericial realizado, Arnaldo, que tomava ansiolíticos e antidepressivos, tem uma personalidade destemida, caracterizada por transtorno depressivo do humor.

Há dez anos que o professor era seguido por um psiquiatra, a nível privado, mas nos últimos dois anos começou a "apresentar preocupação excessiva com repercussões na qualidade do relacionamento interpessoal", refere a decisão judicial sobre o arguido preso na Clínica Psiquiátrica e de Saúde Mental do Estabelecimento Prisional de Santa Cruz do Bispo.

O tribunal considerou que Arnaldo - que durante todo o julgamento alegou não se lembrar de nada - sabia bem o que fazia quando esfaqueou os irmãos a 12 de Março de 2008. Tudo terá acontecido num cenário de confronto e discussão a propósito da herança da família. Contudo, o tribunal não conseguiu apurar com exactidão o que motivou as facadas durante o confronto violento na padaria.

Arnaldo Ferreira golpeou com força os irmãos, José e Manuel, deixando-os estendidos no chão, fugindo depois de carro. Acabou por ser imobilizado pela PSP no centro da cidade do Porto, após embater, por razões desconhecidas, num gradeamento da Rua da Restauração. Nessa altura, e perante a aflição, já o professor tinha desferido vários golpes nele próprio enquanto conduzia o carro. "Matei os meus irmãos", confessou de imediato aos técnicos do INEM que o socorreram. Minutos antes já tinha ligado à mulher dizendo que havia deixado os irmãos na padaria cheios de sangue.


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