O ataque da brigada dos guardiões dos passeios
por Vanda Marques, Publicado em 04 de Agosto de 2009
"Não pense só no seu umbigo" é o slogan do movimento contra o estacionamento selvagem. Um grupo de lisboetas anda a colar autocolantes nos vidros dos carros mal estacionados
Bernardino Aranda não sai de casa sem levar os autocolantes amarelos do Movimento Passeio Livre. O economista, de 32 anos, mora no Alto dos Moinhos, em Lisboa, e todos as manhãs, enquanto caminha para o metro, cola a mensagem "Não pense só no seu umbigo" / "Respeite os peões" nos carros estacionados em cima do passeio. Desde o final de Março que o faz e, em cerca de quatro meses, já colou 15 mil autocolantes, tendo encomendado agora mais 20 mil. A dedicação ao movimento cívico, que nasceu no final de Março, é tanta que por pouco não ia colando um autocolante num carro com ocupantes.
"Vi dois carros parados em cima do passeio e comecei logo a preparar os autocolantes. Quando ia colar o segundo, apercebi-me de que estavam pessoas lá dentro." Os passageiros ficaram assustados, mas Bernardino não tentou disfarçar o que estava a fazer. Deu-lhes um autocolante e explicou-lhes que fazia parte de uma iniciativa que pretende alertar os lisboetas para o estacionamento selvagem. "Ficaram muito atrapalhados e disseram que estavam quase a sair."
"Não cabemos nos passeios" O movimento começou como um blogue - passeiolivre.blogspot.com - para debater os problemas de estacionamento em Lisboa e partilhar fotografias das infracções: carros estacionados por baixo de monumentos, em cima de praças e até imagens de idosos a andar na estrada por não haver espaço no passeio. Mas o grupo de 20 amigos decidiu passar da palavra à acção.
"As pessoas sentem que é um direito fundamental estacionar o mais próximo possível da porta de casa ou do trabalho. Nem pensam no incómodo que causam aos peões. Deixámos de conseguir andar lado a lado com os amigos, os carrinhos de bebés têm de andar na estrada e os idosos têm de contornar obstáculos", explica Maria Sousa. A ideia dos autocolantes foi inspirada no grupo grego Street Panthers (Panteras da Rua). Mas a campanha original tem uma mensagem mais agressiva do que a portuguesa. Em vez de um condutor obeso que estaciona o carro no passeio, os autocolantes gregos têm a imagem de um burro como símbolo da teimosia dos condutores. "Os autocolantes são uma boa forma de alertar as pessoas. Os condutores ficam envergonhados quando os recebem e vêem as outras pessoas a olhar", refere Tiago Carvalho, outro membro do grupo.
É ilegal colar autocolantes? Quando começaram a colar os 15 mil autocolantes, os membros do Passeio Livre, que têm entre 20 e 45 anos, não sabiam se era uma actividade legal, por isso tentavam colá-los o mais rápido possível.
A técnica é simples. Descolam o autocolante em andamento, certificam-se que ninguém está a ver e verificam se o carro está vazio. Depois, é colar o autocolante amarelo e preto no vidro lateral e continuar a andar. Nunca colam no vidro da frente, para não limitar a visão.
"Normalmente, os autocolantes saem bem. Mas depende da quantidade de tempo que ficam colados e se o carro estiver ao sol é mais difícil de tirar", explica Maria Sousa. Agora que sabem que não é ilegal colar os autocolantes estão mais descansados. "A PSP revelou que o nosso protesto é equivalente a um panfleto de publicidade. Só pode haver problemas se o vidro do carro ficar danificado", explica Bernardino Aranda. Por enquanto, os membros do Passeio Livre não tiveram problemas com os condutores, nem sofreram ameaças. Só quando o i os acompanhou é que os ânimos ficaram mais exaltados. Na Rua Visconde de Santarém, junto ao Técnico, estava um carro estacionado no passeio. Assim que a condutora os viu colar o autocolante, começou a gritar. "Os senhores não são a polícia." O problema não foi o autocolante no vidro, mas a fotografia que estava a ser tirada ao carro. "A senhora tem o carro mal estacionado, não vê que ninguém pode passar?", argumentavam os membros do Passeio Livre. Mas isso não parecia preocupá-la. Arrancou o autocolante, mas não retirou o carro. "Existe um sentimento de impunidade nos condutores. E quando são multados pela polícia, justificam-se dizendo que tiveram azar", conta Maria.
Tiago Carvalho está habituado a lidar com as reacções das pessoas e está preparado para atitudes mais radicais. O engenheiro vai de bicicleta para o Instituto Superior Técnico e sabe que tem de levar autocolantes extras para o caso de passar perto do Jardim Cesário Verde. "Há sempre carros em cima do passeio. Quando ia pôr um autocolante, reparei que já lá estava um e que o condutor não o tirou. Reforcei o protesto e coloquei-lhe um segundo." Passado uns dias, Tiago passou na mesma zona e encontrou o mesmo carro. "Ao terceiro autocolante amarelo, decidi chamar o reboque. O condutor não queria saber, nem se dava ao trabalho de retirar os autocolantes."
Reacções "Antes de mais venho saudar-vos por esta louvável iniciativa. Mas infelizmente o que me fez entrar em contacto convosco foi uma situação deveras desagradável", escreveu um condutor no blogue. "Retirei o carro da garagem dos meus sogros e demorei dois minutos a devolver a chave do portão. Fui bafejado pela "sorte" de ter dois autocolantes colados. Ou seja o carro esteve 10 horas bem estacionado e por dois minutos... pimba! Assim não!" Todos os condutores presenteados pela brigada do Passeio Livre têm oportunidade de deixar a sua opinião no blogue e as reacções costumam ser parecidas. "Não somos moralistas, nem queremos impedir que se ande de carro. Temos é de mudar as mentalidades. Basta fazer um esforço, andar mais uns minutos à procura de lugar e pensar que os condutores quando são peões também não gostam de desviar caminho por causa dos carros."
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