Entrevista a Andy Craddock

"Para me acusar de blasfémia, a Igreja tem de provar que Deus existe"

Publicado em 03 de Agosto de 2009   
No sul da da Inglaterra, em Cornualha, um fotógrafo de 43 anos acaba de ser processado por padres anglicanos. O seu pecado? Retratar mulheres seminuas com bíblias e crucifixos à mistura numa igreja do século XIII... E sem autorização
As fotos de Andy Craddock que escandalizaram os padres anglicanos

Andy Craddock. Quem não conhece este nome, talvez conheça as fotografias de teor erótico e fetichistas deste artista britânico de 43 anos. Mulheres jovens, seminuas e agraciadas pela mãe natureza em poses provocantes não causariam espanto, não fosse o facto de terem como cenário igrejas e símbolos do Cristianismo, como bíblias, crucifixos e altares. Embora este género de fotografias seja a imagem de marca de Andy Craddock há cinco anos, a polémica estalou pela primeira vez..
Desta vez, o fotográfo usou uma igreja do século XIII como cenário para um ensaio fotográfico erótico e não escapou a um processo judicial da parte de religiosos anglicanos da paróquia de St. Michael Penkivel, em Cornualha (sul de Inglaterra). Acusado de blasfémia e de violação de propriedade privada por fotografar sem autorização, Craddock expôs os seus argumentos ao i e provou que, sim é controverso, tal como um artista deve ser.

 

Porque escolheu uma igreja anglicana do século XIII para fotografar, sabendo que iria provocar polémica?
Sou um artista. Andava a procura de um local com elementos naturais, como rochas, que não fosse "cliché" como uma floresta ou uma produção de estúdio. Este era um local onde podia casar a beleza da Igreja com a beleza da mulher, nomeadamente devido à luz ambiente muito ténue.

 

Mas sabia que muitos católicos iam torcer o nariz, principalmente os padres da Igreja?

Apenas causou controvérsia aos olhos de uma minoria. Só uma em quatro pessoas é que não apreciou. Ao longo da história, muitos artistas tradicionais foram controversos como, por exemplo, Van Gogh, quando pintou prostitutas. Para um artista manter-se novo e fresco, tem de esticar os limites e tirar as pessoas de cenários confortáveis.

 

O porta-voz da diocese que o processou, o padre Andrew Yates, acusou-o de magoar "pessoas que tinham ligações com a igreja, por terem casado aqui ou por ter entes queridos enterrados nos jardins ao redor"?

Não foi a minha intenção ofender as pessoas. Sabia que ia causar polémica e ofender algumas pessoas, mas a minha intenção era criar arte. Mas só uma minoria é que ficou ofendida porque recebi muito boas críticas. Já fotografo em igrejas há cinco anos. Tem sido uma luta, mas nunca fui processado.

 

O padre Yates também o acusa de ter usado a Igreja sem autorização. É verdade?

Sim, não tinha autorização. Se a pedisse, a resposta iria ser não.

 

Mas agora está a braços com um processo judicial? Como acha que vai acabar esta polémica?

A meu ver, um processo judicial não é um acto muito cristão. A doutrina da Igreja é perdoar e a perseguição não é um valor cristão. Se não fosse a acção legal, eu devia apresentar desculpas. Mas penso que vou ganhar este processo porque a Igreja tem de provar que houve blasfémia e injúria.

 

Num comunicado que o advogado do padre Yates divulgou, a blasfémia é definida como a "publicação de material desdenhoso, injurioso, indecente e jocoso em relação a Deus, Jesus Cristo, a Bíblia ou os preceitos da Igreja Anglicana". A Igreja tem provas contra si?

Para dizer que cometi uma blasfémia, a Igreja tem, antes de mais, de provar que Deus e Jesus Cristo existem e ninguém tem provas disso. Ninguém tem 100% certeza que Ele Existe.

 

Quer dizer que não acredita em Deus?

Não sou um anglicano praticante, nem frequento a Igreja, mas tenho as minhas crenças.

 

Que igrejas já fotografou antes da St. Michael Penkivel?

Não posso nomeá-las. A Igreja anda à procura de uma oportunidade para me processar e não quero dar-lhe essa oportunidade. Como já disse, durante anos, nunca recebi críticas.

 

Poses provocadoras em igrejas e o uso de símbolos religiosos são elementos que definem a sua personalidade enquanto artista?

Sem dúvida. É a minha imagem de marca.

 

 



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