Entrevista
"Pedem-nos dinheiro, mas em Belém não temos nada" - vídeo
Publicado em 01 de Agosto de 2009
Aos 71 anos, Maria Cavaco Silva é uma mulher muito mais segura e tranquila. Fala com elegância sobre o amor e o sentido da vida. É feliz e nota-se
Ser primeira-dama é uma profissão que não se aprende nas universidades. Assustou-a chegar ao Palácio de Belém?
A Laurinda utilizou o termo profissão mas ser primeira-dama não é bem uma profissão.
Mas é um trabalho a tempo inteiro.
Sim, dá muito trabalho, exige muito estudo e muito empenho mas não é uma profissão. A minha profissão é ser professora, é isso que me define. É evidente que quando se põe o pé pela primeira vez no Palácio de Belém sentimos uma enorme responsabilidade. As pessoas perguntavam-me o que iria fazer e quais eram os meus planos mas eu respondia que precisava de um tempo para ouvir, para conhecer e ficar a saber mais sobre a função.
Não sabia exactamente o que ia encontrar mas sabia o que queria fazer?
Na minha cabeça e no meu coração sabia muito bem o que queria fazer mas tinha de perceber o que era possível. Ninguém pode chegar ao Palácio de Belém a dizer que vai fazer isto ou aquilo sem primeiro ouvir as pessoas.
Iniciou funções numa altura em que já se anunciavam tempos difíceis…
Extraordinariamente difíceis e isso fez-me querer ser um apoio para os mais frágeis e, também, acrescentar aquela parte feminina que faz a diferença na vida pública. Não vale a pena dizer que os homens e as mulheres são iguais porque não são.
Em que sentido?
No sentido dos afectos, das emoções e dos sentimentos. Na maneira como homens e mulheres se dão quando estão nos cargos públicos de alma e coração.
O que é que aprendeu imediatamente?
Que é importante o discernimento diário, que é essencial estar atenta aos pedidos, às necessidades e expectativas.
Muitos acham que o Presidente é rico. Pedem-lhe muito dinheiro?
Pedem, mas em Belém não temos nada, não existe nenhum orçamento para nenhum tipo de pedidos. Em São Bento, onde estivemos dez anos, ainda havia um pequeno pé-de-meia que vinha da Gulbenkian, ainda do tempo do Dr. Azeredo Perdigão, que dava para acudir a uma ou outra aflição mas aqui não temos rigorosamente nada.
Isso dá-lhe uma certa liberdade no sentido em que não abre precedentes de apoios ou subsídios?
Sim, muitas vezes as pessoas pedem que lhes dê uma quantidade muito concreta de dinheiro e também me pedem coisas caricatas. Apareceu um pedido de um carro que trazia a marca e o preço. Era o sonho de um rapaz de 18 anos.
Um rapaz muito ingénuo…
Sim, já tinha pedido ao Ronaldo mas ele não lhe respondeu e acho que também não vou responder porque não tenho resposta para lhe dar.
Acha que este tipo de pedido é uma provocação ou revela apenas um grau de insanidade?
Nem uma coisa nem outra. Diria que havia mesmo um grande grau de ingenuidade e porventura uma distorção na percepção das minhas funções.
Que outras cartas bizarras recebeu?
Houve uma em que me perguntavam se pagava as viagens e deslocações do meu próprio bolso. Ora eu não tenho bolso, a minha reforma é péssima e, por isso, funciono com o bolso do meu marido.
Nestes anos de Belém tem sentido grandes frustrações?
Não, em relação ao meu papel, nenhumas. Fora disso, é evidente que nos dias em que chegam cartas de pessoas mais velhas a pedir dinheiro para comprar remédios isso me perturba e tento ver como se pode ajudar. Nem sequer tenho direito a um pocket money nas viagens de representação.
Então sempre paga do seu bolso, ou melhor do bolso do seu marido. Quem é que paga as suas roupas e o seu cabeleireiro? Tem ajudas?
Zero. Fiz um grande esforço para melhorar a imagem mas sai tudo do bolso do meu marido, que é o nosso bolso. Temos uma boa relação e dividimos tudo.
Sabe que a gestão do dinheiro reflecte a gestão dos afectos, não sabe?
Claro que sei, acima de tudo pela minha longa experiência de vida em comum.
Isso revela que há uma partilha e uma comunhão muito grandes no casal.
Há, de facto. Há uma partilha total e eu só pergunto se há ou não há dinheiro para isto e para aquilo. Nunca tive muito jeito para a gestão do dinheiro mas também nunca fui muito gastadora.
Quanto tempo gasta por dia no cabeleireiro e a escolher as roupas adequadas às circunstâncias do dia?
Demasiado! Muito mais do que gostaria ou desejaria.
Uma hora por dia?
Depende. Nos dias em que me vêem entrar no gabinete de jeans já sabem que não tenho obrigações e esses são os dias em que não perco tempo. Nas viagens já me ocupa mais tempo arranjar o cabelo, fazer a maquilhagem e escolher a roupa.
Tem alguém para a ajudar?
Felizmente tenho. O meu marido também.
Nas viagens que faz conhece sempre pessoas fascinantes?
Uma das grandes riquezas destes cargos é encontrar uma enorme diversidade de pessoas, umas mais fascinantes que outras certamente. Uns célebres e outros anónimos. E há sempre aqueles de quem temos uma imagem mais ou menos estereotipada e depois ficamos a conhecer melhor.
Está a falar, por exemplo, do casal Sarkozy-Bruni?
Não os encontrei ainda, não sei.
E a rainha da Jordânia?
Gostei muito de a conhecer. Fui com ela a uma escola na Amadora no âmbito de um programa de orquestra apoiado pela Gulbenkian e inspirado num projecto do célebre maestro venezuelano Gustavo Dudamel, e quando chegámos à escola os alunos estavam numa enorme excitação porque achavam que a rainha era uma pop-star.
Ao vivo é tão bonita como nas fotografias?
É uma mulher muito bonita e muito simpática que tem um papel muito importante na actualidade por representar as mulheres do mundo islâmico e por ser uma rainha e ter um “lugar” que permanece no tempo. É muito diferente de ser mulher de um presidente, que é um lugar passageiro. Por tudo isto e porque aquela zonado globo precisa de referências fortes. Rania da Jordânia dá uma imagem muito refrescante e diferente dos estereótipos das mulheres do mundo islâmico. A rainha tem feito um papel extraordinário nestes dez anos de reinado e o marido dela também é fantástico.
Quando diz que gosta muito dele é porque falou muito com ele?
Por uma questão de protocolo fico sempre ao lado do rei e o meu marido é que fica ao lado da rainha e acabo por falar mais com os homens e o meu marido mais com as mulheres.
Às vezes tem ciúmes de quem fica à direita do seu marido?
[risos] Para dizer a verdade nunca tive.
E o seu marido tem ciúmes seus?
[risos] Nem pensar. Se tivéssemos ciúmes um do outro estávamos bem servidos?
Não é fácil gerir a vida de casal com tanta solicitação exterior e tanto compromisso. Como é que encontram tempo para estarem juntos?
Continuamos a arranjar tempo só para nós até porque vivemos em casa, voltamos muitas vezes de carro só os dois e depois jantamos e ficamos sozinhos. Sou eu que ponho a mesa, tiro a mesa, conversamos e estamos em casal. Chego a casa, ponho uma roupa mais descontraída e ficamos a comentar as coisas do dia, falamos muito um com o outro. Sempre falámos. E também temos muita vida de família com os filhos e os netos.
É essencial para si esta vida de família?
É absolutamente essencial.
Muitos portugueses olham para o casal presidencial e sentem que existe um enorme amor e um profundo respeito entre os dois. Tem a noção de que para muitos são um exemplo inspirador?
Entre nós não há cansaço, nem há rotina, continuamos a ser duas pessoas que gostam muito uma da outra.
De que gosta mais no seu marido?
Tanta coisa! Gosto muito da sua ternura, é um homem muito terno, embora tímido e com uma necessidade enorme de se proteger. Gosto muito da sua rectidão e da importância que dá aos afectos familiares. E não estamos a falar da sua atitude política?
Não, estamos a falar de familiaridade, sentimentos e emoções. O que a apaixonou quando o conheceu?
Era bonito, alto e espadaúdo [risos].
Ainda o acha bonito?
Ai acho com certeza!
E acha que está a envelhecer bem?
Está a envelhecer optimamente e não sou só eu que digo, há muitas mulheres que dizem o mesmo. Lembro-me perfeitamente do tempo em que já o namorava e dava aulas numa escola de raparigas na Junqueira, o Liceu Rainha Dona Amélia. As minhas alunas gostavam muito de mim e, como estavam naquela idade problemática da adolescência, desabafavam comigo e eu passava a vida a sublinhar a importância da seriedade nas relações. Insistia muito que o aspecto físico não era muito importante mas, depois, ele ia buscar-me ao liceu e elas comentavam: pois, pois, com um namorado assim pode dar-se ao luxo de dizer que o aspecto não é importante. Nunca mais me esqueci disto [risos].
Sendo ele tímido, quem deu o primeiro passo quando se apaixonaram?
Nós conhecemo-nos desde muito novos e houve um afecto que se foi transformando em amor. Acho que o que me fez passar da amizade para o amor foi esse grande mistério que há nele, de alguém que não se dá com muita facilidade mas tem um olhar de profundidade.
Ainda lhe faz declarações de amor?
Todos os dias.
E oferece-lhe presentes?
Não, não! É mais de ter gestos e de dizer coisas muito bonitas, por vezes de maneiras disfarçadas e nos momentos em que não estou à espera.
Sente-se muito amada?
Sinto muito amada e bem amada.
Tem consciência do privilégio?
Tenho. E sei que ele também sente que o amo e respeito muito.
Como demonstra o seu amor?
Não tenho nenhuma dificuldade em demonstrar os meus afectos mas também não passo a vida a fazer-lhe declarações. Depois destes anos todos de casamento são muito importantes os gestos, as pequenas coisas do dia-a-dia. Actualmente as pessoas deixam-se vencer pela rotina e não sabem deixar passar o tempo. Num amor consolidado, com filhos e netos, a passagem do tempo é uma coisa extraordinária.
Como dilui as suas irritações ou como age nos momentos de tensão que existem sempre na vida de casal?
Deixamos passar tempo, não vale a pena insistir quando estamos a quente. Acho que foi o Gabriel García Márquez que disse que os homens não gostam de grandes conversas nos momentos de tensão. Nós, as mulheres, gostamos mais de ficar a falar e esclarecer mas eles não, preferem falar depois. Deixar passar e não atear o fogo é uma estratégia eficaz.
O padre Vasco Pinto de Magalhães acha que devíamos todos aprender a viver "ao terceiro dia", concorda?
Acho que é de uma enorme sabedoria nas relações e na vida. Serve para tudo e dá mais sentido à vida.
Qual é o sentido da vida para si? O que a faz acordar de manhã?
Talvez seja o outro, seja o outro quem for. Pode ser o marido ou os filhos, o vizinho ou alguém que precisa de nós. Como sabe sou católica e acho que o grande passo que Jesus Cristo deu em relação ao Antigo Testamento foi justamente este de se preocupar com o outro. O Bom Samaritano e o Filho Pródigo são exemplos de acolhimento do outro nas suas fragilidades.
É essa sua preocupação com os mais frágeis que a leva a eleger as pessoas com deficiência como a sua grande causa?
É. E em épocas difíceis, como esta que atravessamos, estas pessoas podem ficar ainda mais marginalizadas. Em tempo de crise, os frágeis ficam mais frágeis.
Que tem conseguido fazer?
Tenho conseguido chamar a atenção, pelo menos, e dar voz a quem não tem voz. Percebi que a mulher do Presidente tem às vezes jornalistas e câmaras de TV a seguir as suas actividades. Assim a minha palavra pode ser amplificada. O que posso dar é visibilidade.
Há realidades que têm de ser desocultadas?
Sim, desocultadas sem serem devassadas. Apenas reveladas para que todos tenhamos mais consciência. Quando não vivemos a realidade dos deficientes há coisas que não nos passam pela cabeça e sei que posso contribuir para revelar estas realidades e também para desfazer preconceitos e estigmas.
Tem saudades de dar aulas?
Não, porque agora dou aulas em muitas partes do mundo [risos]. Dei há pouco tempo uma aula numa universidade em Ankara, na Turquia, a estudantes de Português. Foi um privilégio. Também dei uma aula no Chile, na casa do Pablo Neruda, na Isla Negra, à beira-mar, uma casa meio louca mas lindíssima. Foi uma emoção, nunca pensei falar a jovens ali. Falei da Sophia [de Mello Breyner Andresen], por causa do mar. Também dei uma aula em Berlim, Alemanha, e dá-me muito gosto poder ser uma espécie de embaixadora da língua e da cultura portuguesa no mundo.
Sarkozy tem uma mulher que canta no aniversário de Nelson Mandela?
[risos] Pois, mas como não sei cantar, dou aulas de Português. Claro que a Carla Bruni depois aparece em todas as televisões e eu não? [risos] mas dá-me um enorme prazer.
Que livros lê aos seus netos?
A Sophia, sempre. O meu neto número dois teve uma fase em que estava apaixonado pela Fada Oriana. Os "Contos" são maravilhosos e tanto são para crianças como para jovens ou adultos. Gosto da sua linguagem pura, depurada, da sua escrita exigente mas universal. As crianças encalham imenso em palavras mas a linguagem de Sophia é muito simples e muito rigorosa e embora também seja muito profunda as crianças não estão constantemente a tropeçar no dicionário.
Como são as suas férias?
Na nossa casa que fica num sítio lindíssimo ao pé da praia de São Rafael. Não é em cima do mar mas tem uma vista muito bonita. Cada um tem ali o seu canto e as nossas rotinas são sempre iguais: nós ficamos e os nossos filhos e netos vão e vêm.
Quantos livros leva para férias?
Não os conto. Levo os que me interessam. Mas vou conseguindo ler no dia-a-dia e não tenho as leituras muito atrasadas. Neste momento estou a ler as "Cartas" de Etty Hilesum e o livro anda no meu saco de trabalho para ler nos momentos que tenho livres. Comecei a ler o livro por causa de um artigo que o João Bénard da Costa escreveu e me interessou imenso.
Tolentino Mendonça também fala muito deste livro.
O padre Tolentino foi meu aluno, fui sua professora de Português na Universidade Católica.
Foi? Já era um poeta?
Já se percebia que ia longe na poesia e na literatura. É estruturalmente um poeta mas também é muitas outras coisas. É um verdadeiro sábio e li esta última entrevista que deu sobre a utopia com grande prazer. Li, sublinhei, dei ao meu marido para ler e ele também gostou.
Para terminar pergunto se lhe faltam ler muitos livros?
Muitos. Mas nisso estou como o Almada Negreiros: a vida é muito curta para os livros todos que queremos ler.
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Artigo: "Pedem-nos dinheiro, mas em Belém não temos nada" - vídeo
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