Nasceu na Polónia em 1927 e viveu a guerra e a ocupação alemã. Entre 1947 e 1966 foi membro do partido comunista local. Com inquietações metafísicas e revisionistas, passou à dissidência. Foi expulso do partido, proibido de ensinar na Universidade de Varsóvia e emigrou para o Ocidente. E foi aterrar em Berkeley, em 1969. Para o emigrado do "socialismo real", não era o lugar mais indicado este centro da New Left americana, com a sua admiração pacóvia pelos radicalismos pós-marxistas. Emigrou outra vez e foi fixar--se em Inglaterra, em Oxford, no All Souls College, um meio mais compatível com um espírito livre, recém-desengaiolado da sua terra.
Ficou por lá mais trinta anos, com períodos de ensino nos Estados Unidos - em Yale e Chicago. E de lá seguiu e apoiou o Solidariedade, onde se juntavam as suas fés sindicalista e cristã.
Conheci-o em Londres num congresso organizado por Melvin Laski na LSE e que reunia umas dezenas de intelectuais "anticomunistas" da Europa e dos Estados Unidos. Levei-lhe "The Main Currents of Marxism", para me autografar, o que fez com uma afabilidade tímida, quase surpreendido por um lusófono conhecer a sua obra?
O resistente e filósofo chamava-se Leszek Kolakowsky e morreu em 17 de Julho passado. Considero "The Main Currents of Marxism" a melhor síntese crítica do pensamento marxista e das suas descendências, dissidências, variantes, heresias, socialismos utópicos e reais, fundadores, líderes, profetas e tiranos. Para além desta obra central, deixou uma extensa bibliografia de temática religiosa e filosófica (há um livro dele que não li - vou ler -, que tem um título fabuloso: "Deus não Nos Deve Nada - Uma Reflexão sobre a Religião de Pascal e o Espírito do Jansenismo").
A acabar esta passagem da sua conferência "What Are the Parties For", de 5 de Novembro de 2003:
As classes médias, em vez de se afundarem ou desaparecerem como proclamava a profecia marxista, cresceram mais e mais; o mercado, em vez de um obstáculo ao progresso tecnológico, revelou-se o seu mais poderoso estímulo; a pauperização relativa ou absoluta da classe trabalhadora também não aconteceu; a taxa decrescente de lucro, que causaria o colapso do capitalismo, foi outra esperança vã; a revolução proletária, a revolução resultante do conflito entre os trabalhadores da indústria e os capitalistas, nunca aconteceu."
Professor universitário




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