Entrevista
"Entre Sócrates e Ferreira Leite a quem entregaríamos as poupanças?"
por Ana Sá Lopes, Publicado em 27 de Julho de 2009
O conselheiro de Estado e candidato do PSD à Câmara de Cascais explica por que razão Manuela Ferreira Leite não deve anunciar já o seu programa eleitoral
Vai candidatar-se pela última vez à presidência da Câmara de Cascais. Já foi tudo no PSD: ministro, líder parlamentar sob várias lideranças, secretário-geral e adversário de Cavaco Silva na Figueira da Foz. Aos 64 anos, António Capucho é agora o presidente do conselho nacional do partido. Ao contrário da maioria dos seus, acha detestável que se diga: "Bloco central, jamais." Capucho pronunciou o "jamais" à francesa, como fez o ministro Mário Lino sobre o aeroporto de Alcochete.
Acha que o PSD vai ganhar as eleições?
Acho que sim. A sensibilidade que tenho para o comportamento sociológico do eleitorado leva-me a acreditar que o governo do Eng. Sócrates está num plano inclinado irreversível. E, ao contrário, a Dr.a Manuela Ferreira Leite e o PSD estão em crescimento, de tal sorte que não se esperava minimamente o resultado eleitoral das europeias - eu próprio não esperava. Daí que esteja convencido de que temos condições únicas para ganhar, se nada de extraordinário se passar daqui até lá.
Mas o PSD está a fazer tudo o que pode para ganhar as legislativas?
Tudo o que pode e o que sabe.
E isso que sabe chega?
Espero que chegue. Se me perguntar, deste posto de observação distante, se por vezes não acho que se podia ter ido mais por aqui ou mais por ali, acentuar mais isto ou menos aquilo, respondo-lhe: claro que sim. Mas no essencial, estou de acordo.
O PSD deveria já ter apresentado as propostas do programa eleitoral?
De maneira nenhuma. Aí estou inteiramente de acordo com a estratégia. Não aceito a crítica da ausência de propostas. Em termos genéricos, toda a gente sabe qual é o programa do PSD. Consta de textos escritos, está na moção de estratégia ganhadora no congresso. Admito que o momento ideal para apresentar o programa seja a seguir às férias.
Se fosse líder, o que faria diferente?
Não quero ir por aí. Não seria líder do PSD. A única coisa que tenho é uma grande experiência e um grande currículo - no sentido de que tenho uma história dentro do partido ligada a campanhas eleitorais -, e o que tenho a dizer transmito-o directamente a Luís Marques Guedes. Mas nada de extraordinário, parece-me que o caminho está certo. Manuela Ferreira Leite deve insistir na política de verdade, por muito que esse slogan pareça vazio de conteúdo. É fundamental. É importantíssimo que o eleitorado acredite que, no PSD, se encontram as pessoas a quem se pode confiar a educação dos filhos, as poupanças. Entre Sócrates e Manuela Ferreira Leite, a quem entregaríamos as poupanças? A quem entregaríamos a educação dos filhos? Fundamentalmente, é preciso mostrar que dentro do PSD e com a liderança de Manuela Ferreira Leite a diferença marcante - além das questões programáticas - é a postura ética. Isso para mim é essencial.
Está a dizer que Sócrates não tem postura ética?
O comportamento do governo em geral no plano ético deixa muito a desejar.
Refere-se concretamente a quê?
Em primeiro lugar, à forma como promete coisas que são absolutamente incumpríveis. Estes últimos anúncios, de resto contraproducentes no plano eleitoral porque são inverosímeis, são tão excessivos na frequência e no alcance que já ninguém acredita neles. E revelam bem o frenesim desesperado de quem não se preocupa minimamente com a possibilidade de cumprir o que está a prometer.
O que não se pode cumprir?
Todas as promessas com implicações orçamentais. Toda a gente sabe que quem governar a partir de Outubro terá de voltar a adoptar uma política muitíssimo restritiva em termos orçamentais. Mesmo que o não queira fazer, vai ser obrigado pela União Europeia.
Também não acredita nas contas que o governo apresentou?
Acredito que elas, muito provavelmente, não são credíveis. O que é escandaloso é o governo não ter abertura para dizer: "Com certeza, façam o favor de verificar, temos aqui uma equipa de gente insuspeita, independente" - e fazê-lo antes das eleições. No plano ético, isso está errado.
Quando fala do plano ético refere-se também ao caso Freeport, que está sobre a cabeça de Sócrates?
Aí tenho algumas cautelas. Em todos os casos que estão pendentes a presunção de inocência deve prevalecer. Infelizmente, a morosidade dos tribunais é o que nós sabemos. Mais importante do que isso, em relação ao primeiro-ministro é o conjunto de atitudes que se lhe conhecem relacionadas com estudos e licenciamentos que são pouco claros.
Que licenciamentos pouco claros?
Estou a falar do licenciamento de obras dos projectos de que foi autor. Enfim, um conjunto de histórias que não são muito claras e não mostram, de facto, uma conduta irrepreensível que deve caracterizar os políticos. O caso Freeport é um caso pontual. É escandaloso como se aprovam coisas nas vésperas das eleições. Em termos gerais, penso que Manuela Ferreira Leite deve incidir muito na sua apresentação e na da sua equipa, que estão acima de qualquer suspeita. Por vezes, são os elementos da equipa que estragam a imagem da liderança. Isso é uma linha fundamental da campanha, em contraste com aquilo que o eleitorado vê quando olha para o governo socialista. Não apenas para o primeiro-ministro, mas para alguns dos elementos que o rodeiam. Sei quem rodeia a Manuela Ferreira Leite, sei quem está a fazer o programa. Essas pessoas que a rodeiam e estão na comissão política, que aparecem como porta-vozes, os vice--presidentes e o próprio secretário-geral têm sido uma mais-valia para a credibilidade de Manuela Ferreira Leite.
Mas Rui Rio, que seria uma mais-valia, não existe como vice do partido...
Como pode existir se trabalha o mesmo que eu? É impossível associar a vida de autarca, com um conjunto de burocracias absolutamente desbragado, com outro cargo executivo. Rui Rio tem a cidade do Porto para gerir e para ganhar.
Então é um número 2 fantasma?
É um número dois não executivo. Nos conselhos de administração também há lugares executivos e não executivos.
Rui Rio já apareceu a desancar a direcção? nomeadamente a lei do financiamento dos partidos.
Isso é uma das características positivas de Rui Rio: mantém a sua independência. Tal como eu, que sou o cabeça-de-lista de Manuela Ferreira Leite ao conselho nacional, ao responder ao vosso jornal digo o que me vem na cabeça. Evidentemente, não vou dizer disparates que prejudiquem o partido. Mas não estou a seleccionar as minhas intervenções. Ele é um vice-presidente não executivo.
Com a "falta de comportamento ético" e com a crise, O PSD deveria ter pedido eleições antecipadas a meio do ano?
Era uma possibilidade, não tenho uma opinião definitiva sobre isso.
Pacheco Pereira assumiu que Manuela Ferreira Leite é má comunicadora, que se atrapalha. Isso não poderá ser um obstáculo na campanha eleitoral?
Há políticos que chegaram longíssimo sendo até trapalhões no contacto com o eleitorado - trapalhões no sentido verbal -, mas não deixaram por isso de concitar a simpatia dos eleitores. Manuela Ferreira Leite não é uma oradora emérita, não é uma fantástica comunicadora, mas é quanto baste. Na "Quadratura do Círculo", o que estava em discussão era aquela expressão infeliz do "rasgo tudo" e depois "não rasgo". Evidentemente que isso foi uma saída infeliz, mas não caracteriza o essencial da comunicação de Manuela Ferreira Leite. Ela é muito melhor do que aquilo. Foi um episódio para esquecer. Penso até que José Sócrates está a perder imensas qualidades como comunicador. Era muito mais espontâneo quando não tinha teleponto, quando utilizava uma postura menos teatral. Neste momento, parece que está a citar Shakespeare quando anuncia coisas boas para os pobrezinhos. Devia arregaçar mais as mangas e ser mais simples na comunicação.
A propósito do BPN, foi o primeiro social-democrata a afirmar que Dias Loureiro devia sair do Conselho de Estado (CE). Não acha que os casos recentes podem fragilizar o PSD?
Falei em resposta a uma pergunta de uma entrevista. Não tomei a iniciativa. Não era ainda conselheiro de Estado, tinha sido eleito mas ainda não tinha tomado posse. Se tivesse tomado posse, de certeza não me teria pronunciado. Achei que, independentemente da presunção da inocência, aquilo que em termos públicos já era evidente não recomendaria a sua continuação como conselheiro de Estado. Achei que Dias Loureiro deveria ter reafirmado a sua inocência mas, dizendo não querer embaraçar, afastar-se. Era um gesto de grande dignidade. Não creio que isso fragilize o PSD. Não é brilhante, evidentemente. O PS está a aproveitar associar ao PSD antigos dirigentes, que estiveram há 20 anos ligados à direcção do PSD, mas que não tiveram qualquer actividade política relevante de então para cá. Dedicaram-se aos negócios, saíram da vida partidária. Os casos do PS são com gente que está na política activa. Isso é uma diferença abissal. Mas era preferível que ninguém ligado à direcção do PSD, nem que fosse há 500 anos, tivesse qualquer problema com a justiça.
A situação não fragiliza o Presidente que, apesar de Dias Loureiro estar afastado da vida partidária, o indicou para conselheiro de Estado quando o caso BPN já era falado nos bastidores?
Não é uma situação agradável. Por isso recomendei que ele se demitisse. Mas sou o primeiro a compreender porque é que o Dr. Dias Loureiro foi convidado pelo Presidente Cavaco Silva. Porque é uma cabeça privilegiada, um estratega brilhante. Estou à vontade para o dizer: nunca tive relações pessoais com ele e não o vejo há 20 ou 30 anos. Não acredito que isso fragilize o Presidente da República. Era incómodo enquanto estava no Conselho de Estado - isso acho que sim.
Porque manteve o Presidente, durante tanto tempo, a indefinição sobre a permanência de Dias Loureiro no CE?
Todos nós, em relação às pessoas que são nossas amigas, lutamos por elas até ao fim para tentar ajudá-las e ser solidários. A partir de certo momento, deve prevalecer o interesse de Estado. Bem, deve sempre permanecer o interesse de Estado. O Presidente decidiu que a questão só se deveria pôr depois. E julgo que foi o próprio Dias Loureiro que tomou a iniciativa.
Isso ainda está por saber?.
Admito que tenham conversado os dois e tenham chegado à conclusão de que a solução ideal era aquela que acabou por ser adoptada.
Olhando para o último ano e meio, o Presidente raramente convoca o CE. Cavaco sente que não precisa do Conselho de uma forma regular?
O Presidente não deve banalizar as reuniões do Conselho de Estado. Convenhamos, o Presidente tem conselheiros para as áreas sectoriais. Se precisar de um conselho de natureza militar, não deixará de telefonar a duas ou três pessoas que estão no Conselho de Estado com especial vocação para essa área. Não me vai perguntar a mim, que de tropa não percebo nada.
Mas não é suposto o Conselho de Estado representar a pluralidade da sociedade portuguesa?
[Risos] Vamos lá a ver: um terço é escolhido por ele, um terço é por inerência de cargo, outro terço é eleito na Assembleia da República. Se desta miscelânea sai qualquer coisa que seja representativa do que quer que seja, tenho as maiores dúvidas. Há lá pessoas muito válidas pela sua experiência, isso acho que sim. Agora, não deixa de ser bom sinal, apesar de todas as convulsões que conhecemos no nosso país, que ele não tenha precisado até agora de convocar o CE a não ser no caso das tropas no Afeganistão.
A falta de reuniões não pode ser atribuída ao caso Dias Loureiro, uma espinha na garganta do CE?
Não. Se fosse esse o problema, não tenho a mínima dúvida de que haveria um contacto entre os dois e o assunto ficaria resolvido. Não me parece que seja esse o problema. Quando houver um caso relevante, o Presidente não deixará de convocar o Conselho de Estado.
Mas não é estranho que o Presidente não tenha convocado um Conselho de Estado sobre a crise económica?
Não vejo que seja absolutamente determinante ouvir os conselheiros sobre questões económicas.
Em Cascais está à espera de maioria absoluta?
Não vou pedir, seria um bocadinho ridículo depois de ter tido duas muito confortáveis. E depois de o Partido Socialista ter brindado Cascais, pela terceira vez consecutiva, com uma pára-quedista [Leonor Coutinho] que nada tem a ver com Cascais, e depois de ter dado uma imagem muito negativa sobre as motivações que tem neste concelho... Os dois anteriores cabeças-de-lista desapareceram de circulação rapidamente. O primeiro, uma pessoa muito estimável, o Dr. José Lamego, que não tem nada a ver com Cascais, esteve aí uns tempos e depois foi-se embora. O segundo desapareceu de circulação também ao fim de muito pouco tempo. Agora mandam uma senhora que, tal como os outros dois, me merece todo o respeito e consideração mas que não tem nada a ver com isto. É uma estratégia disparatada. Sabendo que é o meu último mandato, era normal que o Partido Socialista apostasse em alguém que tivesse aqui nas fileiras, que pudesse "fazer tarimba" e, daqui a quatro anos, apresentar-se contra alguém que não teria as características dinossáuricas de António Capucho podendo bater-se de igual para igual.
Quando Santana Lopes entrou no congresso do PSD de 1995, o senhor disse: vem aí o "jet set". O "jet set" vai agora ganhar Lisboa?
Deixe-me corrigir. Eu estava no uso da palavra no congresso e o Pedro Santana Lopes, provavelmente distraído - porque ele é bem educado - entrou no meio do meu discurso. Sabendo que ao entrar, iria ter os meios de comunicação social todos a perturbar. E tive de parar a minha intervenção, coisa que me desagradou. E disse: "Chegou o ?jet set?." Ele não gostou nada, mas percebeu. Saiu-me e teve graça [risos]. A prova é que toda a gente ainda hoje se lembra dessa cena. Estas entradas com grande pompa e circunstância ficaram um bocadinho ridicularizadas. Agora, a sua pergunta concreta sobre Lisboa. Não me peça para fazer comentários sobre eleições em concelhos que não sejam o meu?
Portanto, se morasse em Lisboa não votava PSD?
Não tenho razões para não ter capacidade para disciplinar o meu voto enquanto militante partidário. Em Lisboa, há uma razão adicional de natureza familiar para não me pronunciar. A número 2 da lista de António Costa, Helena Roseta, tem a particularidade de ser irmã da mulher com quem sou casado há 41, ou 42 ou 43 anos. E somos amicíssimos, embora muitas vezes divergentes no plano político, mas convergentíssimos em variados planos, intelectuais e outros. Custa-me imenso estar a falar desta matéria.
Teria grandes dificuldades, portanto?
Provavelmente. Nem pensei nisso. Nunca tive de perguntar o que faria se estivesse em Lisboa?
Mas acha que é a aposta certa do PSD?
Em termos de capacidade eleitoral, sem dúvida. A prova disso é que, apesar do manifesto desaire que foi a capacidade dele no governo, conseguiu recuperar? Não tenho ainda sondagens, estou a falar um bocadinho no escuro. A Helena deu ao António Costa a possibilidade de enriquecer a lista, ela é indiscutivelmente uma mais-valia, não sei é se a outra conquista, o José Sá Fernandes, não será uma menos-valia. Santana Lopes, de facto, tem esta capacidade de comunicação vertiginosa, no sentido de provocar um fenómeno de adesão espectacular junto das pessoas, apesar dos desaires recentes enquanto primeiro-ministro. Pensava-se que estava morto politicamente mas não só não está morto, como aí está.
O senhor não era dos que apostavam em Cavaco Silva em 1985?
Não só não apostei como liderei a campanha contra ele! Eu era uma espécie de director de campanha do João Salgueiro. Perdemos por 40 votos, uma coisa assim.
Acreditou que Salgueiro ganhava?
Acho que ele ganhava se as coisas nos tivessem corrido melhor no congresso... teríamos ganho. Aliás, o nosso candidato a presidente da mesa ganhou por um voto, o Francisco Pinto Balsemão.
O que falhou com João Salgueiro no congresso da Figueira da Foz?
Fundamentalmente foi uma questão de comunicação. O Prof. Cavaco Silva virou o congresso nas intervenções que fez, que lhe correram muito bem e correram menos bem ao nosso lado. Perdemos na praia. Curiosamente, pus-lhe o lugar à disposição: eu era líder parlamentar. E ele, muito simpaticamente, disse-me que gostaria que eu me mantivesse em funções, a título experimental, durante algum tempo. Fiquei líder parlamentar até ao fim do governo do bloco central e depois convidou-me para ministro dos Assuntos Parlamentares.
Cavaco Silva foi buscar um dos seus principais opositores?
Opositor na candidatura, mas também já durante o percurso até à candidatura o Prof. Cavaco Silva integrava um grupo que hostilizava a maioria que estava na direcção do partido, na qual me enquadrava. Gerou-se aí algum antagonismo entre aquilo que ele representava e o sector onde eu perfilava.
Há um mito de que o Prof. Cavaco surgiu líder porque resolveu ir fazer a rodagem do carro à Figueira da Foz?
Tretas. Vamos lá a ver: sei lá se ele pensava ser líder ou não. A verdade é que o Prof. Cavaco Silva era um activista relativamente presente nos últimos tempos contra a direcção. Assumia no conselho nacional posições muito críticas contra a direcção. Era um protagonista da oposição à direcção, com o apoio de figuras gradíssimas do partido.
Acha que Manuela Ferreira devia aceitar a proposta da distrital de Vila Real e pôr Passos Coelho nas listas?
Acho que sim, tendo em conta especialmente o comportamento dele mais recente. Seja em entrevistas, seja na intervenção no conselho nacional, tem tido uma postura de aproximação, construtiva. Por outro lado, é alguém que me pareceu sempre uma pessoa com uma postura muito correcta. A distrital indicou--o, há todas as condições.
Manuela Ferreira Leite quer vê-lo fora?
Do meu ponto de vista, devia querer vê--lo dentro. Admito que, evidentemente, ele se possa assumir como alternativa um dia mais tarde, é um direito que ele tem, como temos todos. Acho que ele tem condições objectivas que me levariam a recomendar, se me fosse perguntado, que valeria a pena apostar nele para cabeça-de-lista por Vila Real.
Sem maioria, o PSD deve aliar-se ao CDS?
Sim. Não tenho qualquer complexo nesse sentido. Nas grandes cidades estamos a apresentar coligações, Lisboa, Porto, Coimbra, Vila Nova de Gaia, Sintra, Cascais. O que é normal se não tivermos maioria absoluta é estabelecermos um acordo com o CDS.
Mas se PSD e CDS juntos não conseguirem ter maioria absoluta? Se o PS ganhar sem maioria, também não vai conseguir aliar-se à esquerda. Vem aí um governo completamente frágil?
Se ganharmos temos obrigação de tudo fazer para conseguir um acordo com o CDS. O mesmo tem que fazer o PS, se ganhar sem maioria, com a sua esquerda. Mas se, ainda assim, num cenário não tão longínquo como isso, nenhum dos dois conseguir a maioria, tem a obrigação estrita de tudo tentar para dar maior estabilidade à acção governativa.
É defensor do bloco central?
Não sou defensor do bloco central, entendo é que em casos-limite, como já aconteceu e não tive nenhum complexo? Fiz parte da equipa que negociou o bloco central e não me arrependo minimamente. E recordo que Mota Pinto só aceitou o bloco central em cima da linha de golo, havia imensas resistências no partido. Se voltarmos a ter uma situação extrema, acho que o partido que ganhar e não conseguir uma maioria com parceiros naturais, terá de fazer acordos de incidência parlamentar com o outro grande partido. Não há nada de pecaminoso nisso. Não estou a falar em coligação necessariamente, aí será mais complicado. Mas acordos de incidência parlamentar para as linhas gerais da política, sim. Caso contrário, entraríamos em soluções que considero pouco desejáveis, como as soluções de governo presidencial.
É contra governos de iniciativa presidencial?
Não sou contra, acho que são soluções muito periclitantes. Embora não exclua, porque o país tem de ser governado. Agora, se o país é governado por uma grande coligação, ou se é governado por uma pequena coligação, isso depende das condições? Não sou nada radical nessa história do "bloco central, jamais". Imagine que a crise se agrava, que não existe qualquer hipótese de permanecer estavelmente um governo apenas com o PSD e o PP, a obrigação do chefe do partido mais votado é tentar encontrar, no quadro parlamentar existente, uma solução que permita estabilidade.
E não acha que foi isso exactamente a que o Presidente da República apelou no último discurso do 25 de Abril?
Não pode deixar de ser. Ele é o primeiro responsável, de acordo com as suas competências, por favorecer as condições para um governo de estabilidade, especialmente na época baixa que atravessamos em termos económico-financeiros.
É isso que Cavaco Silva quer?
Não sei se é isso que o Presidente quer. É isso que interpreto e parece-me razoável. E acho absolutamente detestável e demagógica a posição extrema, radical, cega do "bloco central, jamais!"
Mas é dominante no PSD?
É uma reacção sem conteúdo útil. Queria ver o que as pessoas que dizem isso fariam se fossem primeiros-ministros, se estivessem perante um resultado eleitoral que não deixa outra saída para um governo estável que não seja um acordo de incidência parlamentar alargado.
Manuela Ferreira Leite pareceu estar aberta a isso, mas depois recuou.
Por razões eleitorais, Manuela Ferreira Leite não pode abundar nesse sentido. É pecaminoso, não tanto na opinião pública, mas dentro do partido. Não tenho preconceitos nesse domínio. Quem for primeiro-ministro tem de saber como se apresenta ao Presidente da República com uma solução governativa minimamente estável e duradoura.
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