Santana Lopes recebe o i no seu escritório do Príncipe Real, em Lisboa. Revela que, apesar de fazer ginástica, tem as pernas doridas por passar duas horas a levantar-se e sentar-se constantemente para dar autógrafos e cumprimentar as pessoas que surgiram na apresentação do livro "Lisboa é de Todos". Quer referendos locais, um túnel, estacionamento em altura e um aeroporto na cidade.
Quais são as primeiras memórias que tem de Lisboa?
As primeiras são ali para as zonas de Benfica, mata de Benfica, São Domingos de Benfica. Eu morava ao lado do Hospital da Cruz Vermelha e ia brincar ali para o jardim, no outro lado da estrada. O meu avô ia buscar-me de manhã para ir para lá brincar. As minhas primeiras memórias são daí. Lembro-me de apanhar o autocarro 11 para ir para a ginástica do Sporting ali na Rua do Passadiço. Era um autocarro que demorava imenso tempo a lá chegar. E aí já ia com o meu outro avô, o materno. Lembro-me também da Fundação Gulbenkian, onde estudei música durante alguns anos. Estudei violoncelo.
Ainda toca?
Não, não... Nunca mais toquei. Confesso que me fartei do violoncelo. Depois toquei piano, que foi mais fácil. O violoncelo era mais difícil e até era mais difícil de transportar. Quase tinha de pagar dois bilhetes para andar de autocarro. Aliás, eu só fui para o violoncelo porque não havia vagas no piano. E o meu irmão foi para o violino. Deve ser daí que vem a história dos violinos de Chopin...
Lisboa é a sua cidade favorita?
É. Se tivesse de escolher um sítio para viver sempre era Lisboa. Sofro horrores quando estou longe de Lisboa e não digo isto só porque sou candidato. Sou lisboadependente. E penso sempre em várias imagens de Lisboa, como o Cais das Colunas, quando estou fora de Lisboa.
Quais são os seus locais preferidos em Lisboa?
Todos gostamos dos miradouros... Mas também gosto muito do Vale do Silêncio, que é um jardim que adoro ali na zona dos Olivais, onde morei. Gosto pelo nome, mas principalmente pelo jardim. Gosto também muito do Chiado, do Bairro Alto (BA), do Restelo, da zona do Bairro das Flores.
No Facebook há uma petição para o BA abrir até às quatro da manhã. Costuma passear por lá à noite?
Costumo.
E as pessoas falam consigo?
Falo com os proprietários dos bares, com os utentes... Ainda há dias estive na Tasca do Chico a ouvir fado vadio e gostei muito de lá estar. E sim, falo com muitas pessoas e percebo que há ali um equilíbrio difícil. Conheço muito bem o problema, até porque fui eu que decidi fechar o trânsito no Bairro Alto. E logo na altura os comerciantes protestaram muito, porque achavam que ia matar o comércio. Mas agora são os comerciantes que gostam muito e querem o bairro aberto até às 4h00. Só que depois temos os moradores, que não querem, e eu compreendo muito bem essa posição porque, como morador, já tenho passado as passas do Algarve com questões de ruído. Mas o Bairro Alto tem características que não pode perder, e que o levam a ser muito procurado pelos turistas. É um bairro de animação e de animação nocturna, mas temos de encontrar soluções de bom senso até que aconteça uma transformação. Conheço muito bem a petição, sei o que as pessoas querem. Também sei que o actual presidente da CML optou por uma decisão que não é carne nem peixe, até às 2h00. Também se pode chamar a isso uma opção equilibrada, mas acho que não satisfaz ninguém.
Se reabrir o BA até às 4h00 pode ganhar votos entre os jovens...
Eu sei e já me disseram isso lá no Bairro Alto, mas também não disse se são mais os jovens ou os residentes que dão mais votos. Sei que são muito mais os jovens. Mas, sendo responsável, há uma regra que quero sublinhar: todos nós quase rezamos para que quem entre nos cargos respeite o que esteja razoavelmente bem feito por quem esteve antes no cargo. Porque é um horror esta mania de quem entra dar cabo do que fez quem esteve.
Portanto, não vai rasgar as políticas do anterior executivo municipal?
Não, não vou... A Dr.ª Manuela Ferreira Leite já retirou esse verbo, ou fez por retirá-lo... Mas falando do Bairro Alto, a solução encontrada parece-me equilibrada. Sei avaliar os seus efeitos, mas isso não quer dizer que a vou mudar. Já ouvi os comerciantes, os donos de bares e restaurantes, que me contaram os prejuízos enormes que estão a ter. Também acho que faz muita falta à nossa juventude ter sítios que sejam bons e sadios para se divertir. Mas temos de respeitar os problemas de quem lá está como morador e que comprou ou arrendou casa. Até ter mais dados sobre essa situação, não vou dizer que vou mudar. A minha orientação é no sentido de favorecer o desenvolvimento do BA como um bairro com características de animação, artes, música, entretenimento, de tempos de ócio, zona comercial e de residência em que quase não haja horários.
Sente-se seguro em Lisboa?
Graças a Deus nunca me aconteceu nada. Mas também acho que gozo de um privilégio pessoal. As pessoas conhecem-me, portanto não me vêm roubar ou fazer mal. Mas tenho muitas queixas, mesmo na família. Por exemplo: moro na Avenida de Roma e dou-lhe a minha palavra de honra de que não vejo lá um polícia de manhã à noite.
Há zonas onde é quase inevitável que todas as noites aconteçam assaltos...
A segurança é uma prioridade, porque as pessoas têm de sentir que cuidamos delas. É uma função da autarquia. Eu aí discordo de António Costa: não devemos exigir tanto do governo sem assumirmos as nossas próprias responsabilidades. É mais importante ter as esquadras abertas em todos os bairros do que ter ciclovias em todas as subidas e descidas da cidade. Gosto de andar de bicicleta e respeito o direito de quem quer andar. Mas Lisboa tem outras prioridades. Só que entretanto há obras feitas à pressa, sem eira nem beira. O dinheiro que é gasto nessas coisas, mesmo com patrocínios? Então porque é que não se vai buscar um patrocínio para abrir uma esquadra? Se vão buscar as verbas do casino para tanta coisa, porque é que não as usam na segurança?
É a prioridade da sua agenda?
O reforço dos efectivos da Polícia Municipal e instrumentos de planeamento, ou PDM são pontos da agenda Lisboa-governo que eu faço questão de apresentar. Há uma agenda Lisboa-governo que é de prioridade absoluta e deve ser resolvida no prazo de um ano, seja qual for o próximo governo e o próximo presidente da CML. Temos de pôr cobro a isto. Não podemos ter a brigada de trânsito dependente do governo quando a política de trânsito depende da câmara. Todos os presidentes o têm dito.
Toda essa agenda num ano apenas?
Se eu for eleito, temos de sentar-nos à mesa e discutir as coisas. O PDM, os planos da Matinha e do Braço de Prata, entre outros, têm dez anos. São anacronismos absolutos e que não fazem sentido nenhum. É uma missão especial para resolver no prazo de um ano os problemas que se arrastam há uma década: a questão da brigada de trânsito, mais efectivos para a polícia municipal e reforço dos poderes da polícia municipal. Outra coisa que não pode esperar mais é a criação de uma autoridade metropolitana de transportes. Temos de sentar à mesa Lisboa, Vila Franca, Sintra, Cascais, etc., e concertar carreiras, horários. O básico, para que se possa ter uma política integrada de transportes. A Carris e o Metro de Lisboa têm de depender de uma Autoridade Metropolitana. De uma vez por todas. Não podem continuar a funcionar como empresas estatais.
O que o levou a candidatar-se à CML?
Convidaram-me e achei que devia aceitar. Na primeira vez que o fiz pensei muito. Agora voltei a pensar muito, mas sei o que quero para Lisboa, sei aquilo de que Lisboa precisa e acho que sou capaz de o fazer. No meu partido, passe a presunção, não havia ninguém mais capaz de fazer, nestas circunstâncias, o trabalho necessário. Se eu visse que havia alguém mais capaz de ganhar e de fazer o trabalho, não me teria candidatado.
Foi convidado pela distrital do PSD?
Pela distrital e por Manuela Ferreira Leite. Para ser rigoroso, ela perguntou-me se era verdade que estava disponível, porque sabia que tinha sido convidado pela distrital de Lisboa e transmitiu-me que achava bem. Nenhuma das pessoas com quem trabalhei pode dizer que alguma vez me ofereci ou insinuei para qualquer lugar. Para ser rigoroso, só o fiz uma vez, quando disse a Cavaco Silva que gostava de sair do governo e ir para o Parlamento Europeu. Mas estava no governo, não estava sem trabalho.
Tem uma relação próxima com Cavaco Silva?
Não. Próxima não. É uma relação respeitosa. Mas gostava que ficasse bem esclarecido que nunca me ofereci para ser candidato a Lisboa. Manuela Ferreira Leite sabia do convite da distrital, perguntou-me se estava disponível, conversámos, ela transmitiu-me a sua posição. Depois de uns dias que pedi para pensar, aceitei. E ela disse que anunciaria a minha candidatura na altura própria, o que aconteceu dois meses depois.
Manuela Ferreira Leite não confirmou se tinha votado em si em 2005...
Isso foi desagradável e eu disse-o. Mas Manuela Ferreira Leite é muito correcta no trato e isso é muito importante para mim. Tem sido muito fácil lidar com ela.
Não consegue viver sem política?
Acho que é verdade.
Sente-se poderoso quando a esquerda se une contra si?
Não. Sinto-me muito sereno e quem trabalha comigo sabe isso. Quanto mais vejo essas reacções, mais sereno fico. E sorrio, sem menosprezo. Acho graça quando falam de mim e dizem que vem aí o fascismo, uma coisa horrível? Mas ao mesmo tempo tudo isto é contraditório: se sou tão mau e se não valho nada, depois unem-se todos porque eu venho aí? Só posso sorrir. Não tenho uma ideia tão má de mim nem me sinto poderoso.
E a sua relação com as elites em Portugal? São de esquerda, as elites?
As que não são, gostavam de ser... Enfim, compreendo que não sou convencional em muitos aspectos. E, com franqueza, tenho procurado reflectir em algumas aversões e incómodos.
Chegou a alguma conclusão?
Acho que as pessoas não me conhecem. Há quem diga que eu tenho um ar mais distante ou arrogante do que sou na realidade. E depois, talvez tenha uma vida pouco convencional e uma vida pessoal muito complexa, para embirração de muitas pessoas. Pessoas que prezam os valores da estabilidade familiar, que eu também prezo, mas que não consegui ter.
Sente que a sua vida pessoal é um handicap político?
Sinto. A mistura desse percurso pessoal, com a exposição que tive em certa altura da minha vida social criou aversões várias e que eu compreendo.
Arrepende-se?
De algumas coisas sim, claro.
A imagem que deixou como primeiro-ministro pode penalizá-lo?
Não, acho que isso já passou. Para o que diz respeito à câmara já passou. O que sinto hoje nas ruas é um movimento muito forte. Há pessoas que me dizem que nunca votaram no meu partido mas que, desta vez, o vão fazer. Essa imagem já passou, até pela evolução do actual governo nos últimos anos. De mim nunca disseram que não era licenciado, ou que fiz quatro cadeiras com o mesmo professor, ou que me licenciei num domingo. Nunca disseram uma série de coisas que aconteceram nestes últimos anos e que levaram as pessoas a pensar: "Mas o outro é que era mau?"Até hoje ainda está por explicar a dimensão política dos episódios que se passaram, sobretudo perante a dimensão dos episódios deste governo.
As contas da CML são o principal trunfo da candidatura de António Costa?
Não posso clarificar mais o que se passa com as contas da CML, a não ser falando em factos e com os números que estão nos relatórios. Espero que o Tribunal de Contas (TC) possa contribuir para repor a verdade, porque é desagradável estar eu numa terça-feira a dizer uma coisa, e António Costa na quinta-feira a dizer outra completamente diferente sobre a mesma realidade.
O que se passa então com as contas?
Há dados incontornáveis. A CML tem um determinado passivo e eu vou dizer isto sem receio de desmentidos: a dívida bancária é toda da responsabilidade de executivos socialistas. Contraí 80 milhões de empréstimo e paguei 84 milhões durante o meu mandato. Não pudemos contrair mais empréstimo porque estávamos proibidos por lei. E pagámos 84 milhões. Isso está nos documentos oficiais. Tudo o que a CML deve à banca vem de decisões de executivos socialistas. Só o passivo bancário é metade da dívida da CML à banca.
Como estão as contas hoje?
A estrutura da CML é desequilibrada: tem mais despesas do que receitas todos os anos. É como o país todo. Só que a CML tem um orçamento muito pesado, com 10 mil funcionários. Só isto são mais de 200 milhões de euros por ano. O que acontece? Como há um desequilíbrio entre receita e despesa, ou a CML faz empréstimos para suportar o prejuízo permanente, ou fica a dever. A outra hipótese, para a qual temos de caminhar, é rentabilizar património e aligeirar custos. O que é muito difícil, porque 70% do orçamento da CML é para despesa corrente. Nos anos em que lá estive, era de 55%. Mas tem crescido. Um dia destes chegamos aos 100%...
E o que fez quando esteve na câmara?
Quando estive na CML, como não podia contrair empréstimos, e há encargos de dívidas que existem sempre, assumi as dívidas. Eram, quando entrei, quase 600 milhões de euros e assumi, por exemplo, 155 milhões de euros da Parque Expo que não eram "meus". Também assumi a dívida de 40 milhões de euros do Casal Ventoso e 50 milhões de euros de facturas não contabilizadas. Só aqui estão 250 milhões de euros. Quando saí, havia cerca de mil milhões de euros de passivo. Mas o ano máximo de despesa da CML foi 2001, com 671 milhões de euros. Depois comigo baixou, voltou a subir em 2005 com o professor Carmona, também no meu mandato, e agora continua alto. E sobe porquê? Porque também começaram a entrar mais receitas. O IMI e o IMT começaram a dar mais dinheiro a partir de 2005. Entraram também os 50 milhões de euros dos polémicos terrenos da Feira Popular. E isso levou a que a despesa subisse porque, como a receita cresceu, o Prof. Carmona já pagou mais, o que aumentou a despesa. Mas foi sempre despesa abaixo da actual. Falemos do presente: o ano passado a dívida da CML era de cerca de 1400 milhões de euros. Este ano subiu para 1500 milhões. Com as provisões vai aos 1700. Porquê? Porque ele assumiu também uma dívida do tempo de Abecassis, da SEGAL, que era de 150 milhões. Se fizer com ele o que tem feito comigo, posso dizer que subiu o passivo de 1500 para 1700 milhões de euros. Mas só subiu porque fez a regularização contabilística dessa dívida toda.
Porque pediu ao TC para clarificar as contas?
Porque são ditas falsidades sobre o meu mandato e porque acho que António Costa tem coisas a explicar sobre o facto de não ter reduzido o passivo quando contraiu tanto a actividade da CML. E quando diz "arrumei a casa", eu pergunto: "Arrumou como, se o passivo aumentou?" Não arrumou a casa, não! Pôs foi a tralha debaixo da cama.
Como vai resolver o problema ?
Primeiro, tornando a cidade mais competitiva para atrair mais investimento, o que dará mais receita. Com este espírito de resignação e de dizer que está tudo num estado miserável, não dá. Tudo isso se traduz até no estado da limpeza da cidade. A cidade está descuidada, desmoralizada, Lisboa está triste. E isso corresponde à actual imagem do presidente da CML que quase chora todos os dias, em público, os seus infortúnios. É preciso dar esperança às pessoas.
São necessários 10 mil funcionários?
A organização administrativa da CML está absolutamente desadequada à realidade social de Lisboa e área metropolitana. Temos de dar muita importância às juntas de freguesia. Se tornarmos os serviços mais próximos das populações, vemos melhor de que pessoal precisamos ao certo, qual é o pessoal excedentário ou não. E isso também diminui os custos de transporte, mobilidade, frotas, combustíveis... Dou um exemplo: porque é que os serviços de higiene urbana hão-de estar todos dependentes dos serviços da CML e não das juntas de freguesia, nomeadamente nos bairros históricos? Temos de descentralizar e aligeirar. Estamos num período em que não é socialmente adequado falar em rescisões de contratos ou dispensas, mas sim em mobilizar. O meu grande objectivo em termos de recursos humanos, para o próximo mandato, é tornar a CML uma câmara exemplar, a melhor do país.
Trazer grandes arquitectos para Lisboa continuará a ser uma aposta sua?
Continua. Assumo-o. É muito importante para Lisboa. As cidades de que mais gosto têm, todas, projectos de grandes arquitectos. Se estão cá os maestros, se há conferências de escritores e exposições de pintores, porque vamos proibir os arquitectos? Só por uma razão: Frank Ghery. A partir daí ficaram banidos. Mas entretanto, o Calatrava deve ser ali de Arruda dos Vinhos. Não acha ridículo?
Quer construir em altura?
Em altura, sim, nas zonas em expansão. Mas nas zonas históricas só com referendo. Só deixo construir em altura nas zonas históricas com recurso ao referendo. Gostava de fazer vários referendos e espero fazê-los no próximo mandato. É uma evolução cívica.
Que assuntos pensa referendar?
A construção em altura nas zonas históricas é um caso. Manter um aeroporto em Lisboa, ou não, é outra coisa que admito referendar, se o governo levar a questão até determinado ponto. Mesmo que tenha maioria absoluta e faça um novo PDM, porque é que hei-de ter o poder de decidir certos assuntos em cima de séculos de história, tradição e património da cidade? Defendo que uma comunidade possa assumir essas decisões através de um referendo. Não tenho medo de decidir, mas acho que há assuntos que devem ser referendados. A lei prevê isso.
E o estacionamento em Lisboa?
Em altura! Não tenho guerra nenhuma com António Costa em relação ao estacionamento. Li a ideia dele, mas... coitado do centro. O centro já está desvitalizado, engolido, mora pouca gente lá, e agora querem que quanto mais no centro se esteja, mais se pague. Compreendo a ideia, mas é preciso uma forte reequação do funcionamento da EMEL e dos privados na fiscalização do estacionamento. Está a funcionar melhor, mas está muito mais caro. A grande solução é o estacionamento em altura, como fiz na Calçada do Combro e nas Portas do Sol, e aproveitando prédios. O da Calçada do Combro é de uma eficiência notável.
Lisboa precisa de um novo túnel?
Gostava de poder convidar os lisboetas a visitar cidades como Bruxelas para verem que o que eu digo é normalíssimo. Não é uma solução perfeita nem eu tenho qualquer obsessão por túneis. Mas já agora gostava de saber qual é a obsessão dos meus adversários e qual é a muita obra que fazem. O plano de mobilidade que pedi para fazer em 2004 chegou à conclusão de que é muito importante desnivelar o eixo central de Lisboa para dar mais velocidade aos transportes públicos: melhora o ambiente e liberta a superfície para as pessoas e transportes públicos. E numa cidade com ruas tão estreitas como Lisboa, temos de aproveitar ao máximo a fluidez do eixo central.
Vamos ter mais obras em Lisboa?
Lisboa está cansada de obras. Eu conduzo, sou lisboeta, apanho o stresse do trânsito, mas agora não quero obras durante uns três anos. Lisboa precisa de sossego. Mas a obra de desnivelamento das Picoas e do Saldanha é uma obra fácil e vai ser feita por módulos, de maneira a castigar o menos possível a vida das pessoas. Mas essa obra surge porque eu sempre disse que o Túnel do Marquês só faria sentido se continuássemos o desnivelamento da cidade, na sua via central. O que não faz sentido são as obras casuísticas que temos visto agora. No outro dia fui visitar as obras da SIMTejo no Terreiro do Paço. São boas obras. As da Frente Tejo são um desastre. Aquilo que se está a fazer entre o Cais do Sodré e o Terreiro do Paço, enfim, não tem nome! Reduzir para uma faixa? Não podemos transformar o automóvel num inimigo do homem. Enquanto não arranjarem alternativa, desculpem lá, mas o automóvel é capaz de dar algum jeito...
E as obras do Terreiro do Paço?
Defendo há muito tempo tirar de lá o trânsito, mas para isso temos de tirar de lá vários mistérios. Se não, como se mantêm os funcionários públicos? Quero lá pôr, um museu da cidade, esplanadas, mas não pode ser assim. Não pode continuar a criar-se um caos na vida das pessoas, ter a Baixa morta ou uma rua do Arsenal onde qualquer dia as pessoas têm de andar com máscaras por causa da poluição. António costa sofreu de um complexo porque começou a cheirar as eleições e não tinha obra. E então começou a fazer obras, mas às vezes é pior a emenda que o soneto. Antes de mexer no Terreiro do Paço temos de saber ao certo o que queremos para ali, para fazer a obra adequada. Podem dizer-me que o Túnel do Marquês teve problemas. Mas só teve por causa do embargo. Não teve um único problema de obra, como aliás acontece com todas as obras que fiz em Lisboa, graças a Deus. Nem na projecção, nem na concepção, nem na conclusão. Factos são factos!
É contra a saída do Aeroporto da Portela. Que alternativa tem?
Tirem os low cost daqui. Chega! Ponham os low cost no Montijo. Ou abram Monte Real. Espero que o próximo primeiro-ministro tenha tempo de lá ir, como eu fui, e ver que é um aeroporto perfeito. Diziam que não se pode por causa dos militares. Mas eu falei com eles e, fora os treinos dos F16, aterram ali dois aviões por semana. O que me foi dito é que com um investimento de seis milhões de euros no melhoramento do hangar, uma nova placa de estacionamento e uma nova torre de controlo, tem um aeroporto para qualquer tipo de avião ali para a zona centro. Mas mesmo que não queiram ir para aí, temos também Figo Maduro, podemos ampliar a Portela. Mesmo que decidam fazer um novo aeroporto não consinto que fechem a Portela. Tem de estar sempre operacional para voos de pequena e média duração, como acontece em várias cidades europeias. O contrário prejudicaria Lisboa, porque afasta as pessoas que vêm cá tratar dos seus negócios. Isso não pode ser, por razões estratégicas e de perfil da cidade.
Gostava de ter um re-match com José Sócrates?
Já não. Durante uns tempos quis.
Em 2005, o PS acusou-o de ter lançado boatos sobre o Freeport...
Houve coisas desagradáveis de parte a parte. Também me acusaram de não pagar impostos e depois vieram pedir desculpa. Não fui eu que lancei qualquer boato, mas não sei se alguma vez terei oportunidade de convencer Sócrates disso. Mas ficarei muito contente se se esclarecer que, no Freeport, os serviços mudaram de opinião pelas melhores razões. Ficarei muito contente.




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