Na sua crónica de ontem no i, o meu amigo Paulo Tunhas teve a amabilidade de se ocupar do argumento que aqui expendi na semana passada, segundo o qual o liberalismo pertence sobretudo ao património político da esquerda. O Paulo começa por admitir que o meu argumento tem vários pontos a seu favor. Porém, mais adiante, apresenta aquilo que julga serem duas objecções.
A primeira objecção consiste em recordar que a crítica liberal incidiu muitas vezes no igualitarismo radical da esquerda. Isso é inteiramente verdade, mas não constitui uma objecção à ideia de que o liberalismo deve ser associado sobretudo à esquerda. A crítica liberal à esquerda radical - que pretende impor à força o seu igualitarismo - não transforma o liberalismo numa visão de direita. Trata-se aqui de criticar, a partir da esquerda e do próprio ideal igualitário, uma outra esquerda cuja interpretação desse ideal só pode levar à ditadura. É claro que a direita também critica a esquerda radical. Porém, a direita não faz a sua crítica em função de uma melhor interpretação do ideal igualitário, mas antes contra esse mesmo ideal.
A segunda objecção consiste em afirmar que o liberalismo representa a protecção da liberdade individual contra o Estado, os costumes, ou a opinião pública, e que a direita tem a mesma legitimidade que a esquerda para a defender. Ora na minha opinião a esquerda liberal é a melhor intérprete da protecção da liberdade assim entendida, e enunciada no famoso "princípio do dano" de Stuart Mill: a liberdade de cada um só deve ser limitada pelo dano que possa causar a outrem.
Queria ainda aproveitar este regresso forçado ao tema da crónica anterior para enfatizar a importância de reivindicar o liberalismo como uma ideologia de esquerda. Em primeiro lugar, a esquerda tem todo o interesse em apresentar-se como a principal defensora e como o garante da liberdade individual, esvaziando assim as críticas - historicamente correctas - de que o seu pensamento foi muitas vezes um veículo do autoritarismo e do totalitarismo. Em segundo lugar, a reivindicação pela esquerda do património político do liberalismo impediria que a direita o usasse de forma retórica. Quando, à direita, alguns dizem ser liberais, na verdade estão apenas a defender a sacralização neoliberal da liberdade económica. Mas a verdade é que associam quase sempre este neoliberalismo à interpretação anti-igualitária e conservadora da liberdade em todas as outras esferas da vida social. Com algumas e honrosas excepções, o pseudoliberalismo da direita é apenas a máscara retórica do seu conservadorismo.
Professor de Teoria Política




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