Dar sangue: "Não é aceitável que se discrimine os homossexuais"

por Sara Sanz Pinto com Lusa, Publicado em 18 de Julho de 2009   
Monteiro de Barros, coordenador nacional para a infecção VIH/Sida, diz que já não faz sentido olhar grupo de risco mas sim comportamentos de risco, na altura de doar sangue
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As tatuagens são consideradas comportamento de risco
A história foi divulgada ontem e começou com uma questão do deputado do Bloco de Esquerda, João Semedo. A resposta do Ministério da Saúde deixou o deputado indignado: os homens homossexuais estão proibidos de dar sangue. "Inadmissível", considera João Semedo. "A necessidade de garantir que os potenciais dadores não têm comportamentos de risco", defende-se o Instituto Português do Sangue (estrutura do Ministério da Saúde dedicada à área).

"O que esta medida insinua é que o sangue não é tratado como devia", lamenta António Serezedo, da Opus Gay. Quando se doa sangue, este vai para um laboratório onde é analisado e se faz o rastreio de doenças contagiosas, incluindo as sexualmente transmissíveis. No entanto, "o facto de se fazer análises ao sangue doado não torna as transfusões 100% seguras, até porque fazemos apenas as análises que conhecemos", explica Monteiro de Barros, coordenador nacional para a infecção VIH/sida.

Ainda assim, "não há razões" para excluir qualquer grupo de pessoas da doação de sangue, assegura Monteiro de Barros. Até porque "já não existem grupos de risco", uma vez que os homossexuais não têm uma taxa de HIV superior à dos heterossexuais. "Enquanto grupo, os homossexuais têm prevalência mais alta de algumas infecções, nomeadamente de hepatite. É um facto. Mas não podem atacar as pessoas por grupos, por segmentos - apenas ver individualmente se têm comportamentos de risco. Isso acontece entre hetero e homossexuais", realçou ainda.

A distinção é clara: hoje, não devemos olhar a grupos de risco mas antes a comportamentos de risco. "Os comportamentos de risco hoje estão generalizados: homens solteiros ou casados que engatam mulheres ou frequentam prostitutas. Isso são comportamentos de risco. Como o são os de mulheres solteiras ou infiéis", explica António Serezedo ao i. "Esta exclusão não transmite nenhuma tranquilidade às pessoas. Ficam a saber que os homossexuais não deram sangue, mas sabem que todos os outros com comportamentos de risco podem ter dado", conclui o responsável da Opus Gay.

O último relatório da Coordenação Nacional para a Infecção por VIH/sida, relativo a 2008, diz que, dos casos notificados - um total de 1201 -, a categoria de transmissão "heterossexual" representou mais de metade (57,6%), enquanto a transmissão associada à toxicodependência representou 21,9% e os casos de homo ou bissexuais apenas 16,8%.

Ainda assim, as afirmações de Gabriel Olim, director do Instituto Português do Sangue, não deixam margem para dúvidas: os homossexuais são "logo afastados como potenciais doadores, sem que seja feita qualquer avaliação do comportamento de risco possam ter".

"O Ministério da Saúde parece ainda viver na época da Rainha Vitória que dizia que em Inglaterra não existiam lésbicas, só homossexuais - o que era crime. Foi por isso que Oscar Wilde foi condenado a trabalhos forçados", explica Artur Serezedo para reforçar o preconceito contra os homens homossexuais.

O i tentou contactar o Instituto Português do Sangue, mas não obteve qualquer resposta. No entanto, na resposta divulgada pelo Ministério da Saúde pode ler-se: "A necessidade de garantir que os potenciais dadores não têm comportamentos de risco que, em termos objectivos e cientificamente comprovados, podem constituir uma ameaça à saúde e à vida dos potenciais beneficiários, leva à exclusão dos potenciais dadores masculinos que declarem ter tido relações homossexuais."


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