Economia
Mais poupança sim, mas agora não por favor
por Bruno Faria Lopes, Publicado em 17 de Julho de 2009
Recuo do consumo das famílias preocupa o Banco de Portugal. Prudência nos gastos, há muito pedida, é agora vista com receio e atrasa a economia
Os portugueses têm vindo a gastar acima das suas possibilidades nos últimos anos? Sim. Seria desejável que poupassem mais? Sim. E estão a fazê-lo agora? Sim. Então isso é bom para a economia? Sim e não. A recessão económica em Portugal, a mais grave desde 1975, está a pôr o país perante uma situação ambígua face à evolução da poupança e do consumo - a prudência há muito pedida para os gastos das famílias está agora a ser recebida com receio pelos economistas e pelo Banco de Portugal.
"Se a poupança aumentar [até 2010] mais do que se espera [a situação económica] pode ser pior", admitiu esta semana o governador do Banco de Portugal (BdP), Vítor Constâncio. "Há uma grande incerteza quanto ao andamento do consumo", acrescentou.
Uma vez que a taxa de poupança dos particulares desceu de forma drástica nos últimos anos - explicando a subida do endividamento externo de 40% em 2000 para mais de 100% já este ano - este regresso a uma maior prudência deveria ser saudado. No entanto, há um problema: o consumo privado é o principal motor da economia. Vale em Portugal dois terços da criação de riqueza.
"A economia portuguesa tem agora um problema mais grave. Por um lado está obesa, gastou mais do que devia e precisa de fazer dieta. Ao mesmo tempo, está em crise e precisa de se alimentar", comenta João César das Neves, economista da Universidade Católica Portuguesa. "Sair da recessão vai ser mais difícil por causa desta contradição", acrescenta. O Banco de Portugal concorda: "A actual projecção para a economia portuguesa comporta riscos associados quer à possibilidade de recuperação da economia mundial em 2010, quer ao comportamento da procura interna, num contexto marcado por um elevado nível de endividamento."
Os dados do boletim de Verão do BdP, apresentado quarta-feira, indicam que perante o endividamento, a subida do desemprego e o mau clima económico as famílias não estão presas a ambiguidades - a decisão é poupar. A evolução do consumo em 2009 (-1,8%) e 2010 (-0,6%) corresponde a uma revisão em baixa significativa face à previsão de Abril e a taxa de poupança vai crescer acima de 2%, um "aumento expressivo", diz o banco central (em 2008 cresceu pouco acima de zero, interrompendo um ciclo de cinco anos de queda).
Consumo é bom Então qual é o equilíbrio desejável entre poupança e consumo? Os economistas começam por contrariar a vilificação do consumo. "A democratização do consumo trouxe mais oportunidades a muitas pessoas - sou contra essa histeria intelectual, que parece criticar o facto de os pobres poderem também consumir mais", defende José Reis, economista da Universidade de Coimbra. César das Neves pega no problema por outro lado. "Tínhamos a taxa de poupança mais alta da Europa porque o nosso sistema financeiro não funcionava", aponta. Com a maior penetração dos serviços bancários, em particular no início dos anos 90, abriram-se oportunidades para consumir. "E essa é a finalidade da actividade económica: o consumo", acrescenta.
O problema está na velocidade a que cresceram o consumo e o crédito. O grau de endividamento subiu de 90% do rendimento disponível em 2000 para mais de 125% em 2008. Nos últimos 12 anos o consumo cresceu em média um ponto percentual acima do rendimento disponível.
Face a este cenário, "o que seria desejável é que o consumo subisse, mas moderadamente, dentro das possibilidades oferecidas pelo rendimento disponível", aponta Paula Carvalho, economista do BPI. Ou seja, que a subida da poupança não fosse muito acentuada, para dar espaço à recuperação da economia.
Esse é um cenário ideal - embora este ano, por exemplo, 30% do rendimento disponível dependa das transferências sociais do Estado - mas que resultará sempre num ajustamento do consumo em baixa nos próximos anos. Com exportações e investimento em colapso caberá ao Estado, que também parte de um nível alto de endividamento, entrar na economia para compensar a anemia. A factura será para pagar daqui uns anos.
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